Entrevista: Christian Petermann

por Renan Guerra

O Brasil se divide entre a dicotomia de ser o país que mais mata transexuais no mundo e o país que mais pesquisa o termo “shemale” no RedTube. No meio disso, pessoas trans permanecem a margem da sociedade, na prostituição, na busca por sobrevivência. Nos últimos anos, entre debates de gênero e lutas por direitos, as transexuais estão conseguindo dar alguns passos em busca por respeito: um desses passos é a simplificação do uso do nome social em todo o território nacional, sob decreto assinado em abril de 2016.

Mesmo com certos avanços sociais, as pessoas trans ainda não são suficientemente bem representadas no universo da arte e ainda nos debatemos sobre uma celeuma: é correto personagens trans serem interpretadas constantemente por atores cis? Atualmente conseguimos contar nos dedos de uma mão os atores trans presentes no cinema e na TV brasileira. E mesmo o nosso cinema, sempre ousado e afoito a temas espinhosos, sempre tergiversou sobre o transexualidade.

E foi sobre esses raros momentos em que as pessoas trans figuraram em nossas telas que eu conversei com o crítico de cinema Christian Petermann, ainda em 2014. Numa entrevista via e-mail, Christian Petermann falou sobre as representações das pessoas trans em nosso cinema historicamente e também sobre os espaços que vem sendo conquistados atualmente, bem como o contraponto de um fortalecimento de ideais mais conservadores. Por distintos motivos, essa entrevista acabou ficando na gaveta e nunca indo ao ar, porém mesmo passado esse tempo, ela segue extremamente atual e pertinente, merecendo assim vir à tona.

Um dos motivos do resgate dessa entrevista foi a partida precoce de Christian Petermann, aos 49 anos, em maio de 2016. Christian era crítico de cinema, trabalhou nas revistas SET e Rolling Stone, foi um dos sócios-fundadores da Abraccine – Associação Brasileira dos Críticos de Cinema – e era conhecido por muitos por suas aparições semanais no programa “Todo Seu”, de Ronnie Von, na TV Gazeta. A publicação desse material serve como forma não só de homenagear um grande crítico, mas também de reverberar sua inteligência e seu conhecimento sobre a sétima arte.

Pesquisando sobre o cinema da Boca do Lixo, vejo nos anos 1980, principalmente, uma profusão maior de personagens travestis nas telas. Eles aparecem desde filmes da Boca mesmo, como “Sexo dos Anormais” (1984), do Sternheim, e “Viciado em C…” (1984), do David Cardoso, como em filmes com outras procedências, como em “Rio Babilônia” (1982), de Neville D’Almeida e “Vera” (1987), de Sérgio Toledo. Você percebe isso? Acha que essas personagens aparecem pouco no cinema produzido no país atualmente?
Atualmente, vejo que o personagem LGBT ocupa um espaço ainda pequeno, mas inédito e maior do que em qualquer outra passagem da história de nosso cinema. Os títulos que você aponta, lançados nos anos 1980, são de duas vertentes muito diferentes. Os filmes de Alfredo Sternheim e David Cardoso eram pornochanchadas assumidas, comédias de costume com sexo explícito, obras realizadas de encomenda para uma demanda de mercado em plena efervescência: o sexo gráfico nas telonas. São filmes humildes em estética e especialmente caricatos (pra não dizer preconceituosos) com o travesti, personagens secundários e comumente humilhados. O filme de Neville d’Almeida é obra “autoral”, com assinatura clara do pândego e bon-vivant e carioquíssimo Neville, que nesta obra também se aproveitou das liberdades conquistadas com o gradual fim da censura e fez um longa hedonista e orgíaco. Neste contexto, na visão de prazeres de um cineasta inquestionavelmente heterossexual, o homossexual também exerce posição caricata. Já o filme de Sergio Toledo, “Vera”, foi um marco e impacto à época, lembro bem da repercussão e retorno positivo da imprensa e crítica – sem sucesso de bilheteria, claro. Mas era praticamente a primeira vez em que um personagem-título/protagonista de filme brasileiro assume sua homossexualidade, no caso o lesbianismo da jovem Vera (Ana Beatriz Nogueira, impecável), em obra sem exageros, realista, pé no chão e mais: sensível. Vera se configurou a época como a exceção da regra. Mas há outros títulos da década que arriscaram retratos LGBT com maior ou menor sucesso, destacando “Asa Branca” (1981), de Djalma Limongi Batista, e dentro de um esquema independente típico da Boca, o filme “Onda Nova” (1983), de Ícaro Martins e José Antonio Garcia, sobre um time feminino de futebol, o Gayvotas Futebol Clube, e com uma saudável pluri-sexualidade e elenco de notórios.

Há dois filmes que trazem a figura do homossexual/travesti de forma forte e corajosa: “Rainha Diaba” (1974), de Antônio Carlos Fontoura, e “Madame Satã” (2002), de Karim Aïnouz. Eles caminham por uma perspectiva mais dramática, uma vez que a marginalização desses personagens não permitia outro olhar?
As duas versões da vida do malandro carioca gay e marginal refletem os respectivos momentos de produção: o filme de Fontoura, dos anos 1970, traz uma inquietude comportamental pós-contracultura, pós-Cinema Novo, mas em personificações ainda extremas – por melhor que seja a interpretação, Milton Gonçalves beira a caricatura e o teatral por princípio da obra. Já o “Madame Satã” de Aïnouz surge na Retomada, em outro momento moral e sob a direção de um realizador cuja sensibilidade está intrinsecamente ligada à própria homossexualidade. O protagonista de Lázaro Ramos é imponente, viril e ameaçador, por mais que inquestionavelmente homossexual. É uma obra muito mais dérmica, sensorial, de intensas emoções – um trabalho de importância inquestionável na evolução da imagem LGBT nas telas, mas ainda associado à questão marginal, por vezes perversa.

O recente longa “Doce Amianto” (2013) até busca outra perspectiva, mais lírica/onírica para essas questões de sexualidade de gênero. O que pensa sobre?
“Doce Amianto” pertence nitidamente a outra geração de realizadores, e a obra tem uma amplitude de leituras que a coloca em posição única: a mulher Amianto, em crise, é interpretada por um homem; este travestismo e transformação encontram ecos lúdicos, rasgados e por vezes excessivos no visual ostensivo e maneirista do filme. Aqui, o personagem-título está no limite do feminino e do masculino como uma questão de criação e existência, não como manifestação ou panfleto. Novos tempos!

Dois filmes nacionais com temática homossexual foram apresentados no Festival de Berlim 2014, mesmo assim, esses temas ainda são delicados no cinema nacional. A atriz Leandra Leal, por exemplo, está com dificuldades para conseguir financiamento para seu documentário “Divinas Divas”, que resgata a história de oito artistas travestis pioneiras [“Divinas Divas” foi finalizado e entrou em cartaz no circuito comercial em outubro de 2012]. Você considera que ainda há uma resistência em levar estes personagens para as telas? E aqui falo por questões mais financeiras do que artísticas.
Apesar de por um lado ser perceptível avanços na inclusão homossexual nas artes e na sociedade, por outro também é terrivelmente perceptível um avanço do conservadorismo quase terrorista, em especial quanto ao poder crescente de bancadas evangélicas. Os dois extremos colidem, e quem mexe com dinheiro tende a ficar cauteloso e, com isso, por cima do muro. E pior: o formato de produção enraizado há quase duas décadas no cinema brasileiro, de longas realizados por meio de captação, editais e leis de incentivo, faz com que grandes logomarcas apoiem boa parte das realizações – com a decorrente timidez (ou covardia) de abordar qualquer assunto “fora da caixinha”. O “Doce Amianto”, mencionado acima, é ultra-independente, assim como são outras obras referentes e recentes (“Meu Amigo Claudia”, de Dacio Pinheiro; “ Olhe pra Mim de Novo”, de Kiko Goifman; “São Paulo em Hi-Fi”, de Lufe Steffen); o longa de Daniel Ribeiro [“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”] foi em boa parte concretizado por crowdfunding; e o novo trabalho de Aïnouz é uma co-produção com a Alemanha – outras formas de viabilizar o retrato LGBT em cinema sem se preocupar com as reservas e limitações financeiras.

Você trabalha com cinema há anos e acredito que essa pergunta pode até soar banal, mas como você percebe a importância das representações no cinema para estas pessoas tão comumente marginalizadas?
A importância é absoluta. Por mais que a internet hoje possibilite outros níveis mais instantâneos de visibilidade inclusiva, é sempre positiva uma obra projetada em tela grande e no escurinho do cinema (situação em processo de extinção???) e que mostre personagens que provoquem identificação, espelhamento e/ou reflexão. Há ainda muitos homossexuais e transgêneros sedentos por se sentirem parte de algo, de um universo, e a eternidade de um depoimento ou de uma presença nas telas é bastante relevante. Todos merecem e precisam ver seus semelhantes e seus díspares nas ficções e documentários de cinema.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Scream & Yell. A foto de Christian Petermann que abre o texto é uma reprodução do Facebook

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