Boteco: Oito cervejas Monja

por Marcelo Costa

Abrindo o segundo passeio pelas cervejas Monja (aqui o primeiro) com a experimental Flue Pipe, que revive um estilo antigo alemão praticamente esquecido, o Lichtenhainer, que, grosseiramente falando, é uma Rauch Berliner Weisse (adorei a definição do The Beer Files!), ou seja, uma cerveja medieval, ácida e salgada, que tem como diferencial a utilização de malte de trigo defumado. De coloração amarelo palha com suave turbidez e creme branco de boa formação e retenção, a Monja Flue Pipe exibe um aroma deliciosamente arisco com acidez e um delicado defumado (remetendo a queijo provolone) brigando por atenção. Ainda há algo de salgado, limão e trigo. Na boca, a textura é leve, mas picante e efervescente. O primeiro toque doçura de trigo e forte cítrico (limão) seguidos de acidez e defumado suave. A acidez, inclusive, amplia o amargor, e dai em diante surge uma cerveja refrescante e deliciosamente provocante, alternando limão, sal, doçura e defumado discreto. O final traz leve cítrico, defumado e adstringência. A última retorna no retrogosto trazendo consigo sal, cítrico e amor. Que delícia.

De uma Lichtenhainer para uma Gose, outro gênero medieval alemão que está vivendo um período de redescoberta (muito mais agitado que o Lichtenhainer, que ainda soa segredo). A Salty Tears é uma cerveja de coloração âmbar caramelada com creme bege claro de baixa formação e rápida dispersão. No nariz, caramelo suave em meio a uma intensa sugestão de sal. Há ainda leve remissão a trigo (pão de forma). Na boca, textura cremosa. O primeiro toque traz uma rápida doçura caramelada encoberta no segundo seguinte por uma tempestade de sal, que auxilia na elevação do amargor, médio baixo, e marca de forma decisiva o caminho que o bebedor irá percorrer dai em diante, balizado pela suave doçura caramelada por um lado, e pelo salgado intenso por outro – não há presença de acidez, nota marcante do estilo. O final é salgado. No retrogosto, adstringência leve, salgado e caramelo.

A terceira da sequencia é a Bitter Soul Girl, uma Double IPA que havia sido “produzida apenas duas vezes para uma Confraria”, conta Ronan. “Sempre levamos algum tempo ou algumas levas para tentar ‘arredondar’ as cervejas”, explica. De coloração ambar alaranjada com creme levemente bege de excelente formação e longa retenção, a Monja Bitter Soul Girl apresenta um aroma com notas intensas sugerindo resina, frutas cítricas (maracujá e toranja) e herbal (pinho), com caramelo em segundo plano. Na boca, a textura é cremosa e picante. O primeiro toque traz rápida doçura caramelada atropelada no segundo seguinte por uma pancada forte de amargor, no melhor modelo American IPA, oferecendo cítrico, resina e sutil presença de álcool (8%). Dai pra frente, uma cerveja extrema com notas marcantes de lúpulo (cítrico e herbal intensos) e uma doçura suave de caramelo na base. O final é amargor, cítrico (toranja) e resinoso. No retrogosto, um replay: cítrico, amargor e resina com leve doçura.

A quarta do passeio pelo cardápio caprichado das cervejas Monja é uma nova boa surpresa do Ronan: Hot Pot & Old Stove, uma belíssima Flanders Oud Bruin mineira. De coloração âmbar acastanhada com creme bege claro de boa formação e permanência, a Monja Hot Pot & Old Stove apresenta um aroma que replica de forma sensacional as notas clássicas do estilo: azedume e avinagrado caprichados, sugestão de frutas vermelhas e escuras, acidez e amadeirado. Na boca, a textura é frisante e levemente picante. O primeiro toque adianta tanto avinagrado quanto salgado seguidos de azedume médio, os três colaborando na confusão do que pode vir a ser entendido como amargor (é uma confluência dos três). Dai em diante surge um conjunto surpreendente para uma caseira nacional, com azedume, avinagrado, salgado e acidez envolvendo-se com frutado. Delirante. O final é delicado, com um azedinho bem suave. No retrogosto, leve adstringência, azedume suave e avinagrado leve. Uma delícia.

A Monja Nix é uma Belgian Golden Strong Ale com 8% de álcool que só foi produzida apenas duas vezes pela confraria. De coloração âmbar alaranjada com forte turbidez e creme claro levemente bege de boa formação e media alta permanência. No nariz, levedura à frente sugerindo especiarias e condimentação (cravo e pimenta do reino) com doçura caramelada na base acompanhada de um suave toque frutado (banana). Na boca, a textura sedosa e picante (dos 8% de álcool). O primeiro toque traz rápida doçura caramelada seguida rapidamente por condimentação derivada da levedura e álcool. O amargor é baixo, mas a pancada alcóolica e a forte presença de levedura podem confundir o bebedor enquanto abrem as portas para um conjunto que valoriza o fermento oferecendo especiarias, condimentação e aridez – o álcool fica só ali, marcando presença de leve para surpreender o bebedor no final, picante. Enquanto isso, no retrogosto, uma picância, calor e especiarias.

A sexta da sequencia é a Francia, uma Biére de Garde produzida pela primeira vez na confraria do Ronan. Esse é um estilo francês (por isso o nome Francia) muito similar ao Saison do lado fronteira belga, mas o que nas Saisons é fazenda, floral e rústico, nas Biére de Garde é doçura de caramelo, cereais e álcool. No caso desta versão da Francia, ela é uma cerveja de coloração âmbar acastanhada com creme bege clarinho de ótima formação é longa permanência. No nariz, a levedura pula um pouco mais à frente do que deveria, mas o que se espera está aqui: doçura caramelada intensa, condimentação e álcool bem discreto. Na boca, textura sedosa, quase licorosa, com álcool picando a língua. O primeiro toque traz caramelo rápido seguido de álcool potente confundindo o bebedor em relação ao amargor, que é baixo, mas picante de álcool. Dai em diante, um conjunto doçamente alcoólico com presença de especiarias. O final é doce e quente. No retrogosto, calor, sorrisos, doçura e álcool. Boa!

A sétima da série é a Monja The 30th Grand Reserve, uma belíssima Belgian Dark Strong Ale com 9,5% de álcool cuja particularidade é que “depois de pronta no maturador”, recebe adição de “malte complementar diretamente da saca sem qualquer prévio tratamento”. Na taça, uma cerveja de coloração âmbar acastanhada escura apresenta um creme bege espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, doçura maltada (caramelo), alcaçuz, leve frutado (calda de ameixa) e condimentação derivada da levedura. Na boca, textura sedosa e picante de álcool. O primeiro toque traz doçura (caramelo e açúcar queimado) seguida de frutado suave (calda de caramelo) e amargor praticamente inexistente, não fosse pelo álcool pinicando o céu da boca. Dai em diante, um belíssimo conjunto que junta frutado delicioso, doçura leve e álcool discreto. O final é maltado e levemente alcoólico, uma delícia. No retrogosto, caramelo, calda de ameixa e amor.

A oitava e última da lista das Monjas é a Catharina, recriação de um estilo alemão que começa a ser recuperado, o Adambier, versão mais robusta das Altbiers, bastante popular no século 19. Nesta versão mineira, a Monja Catharina apresenta uma coloração âmbar acastanhada com creme bege claro de boa formação e média retenção – um perfil visual bastante próximo da excelente The Monarchy Methusalem. No nariz, notas impactantes sugerindo frutas escuras (ameixa, figo), açúcar queimado, couro e leve (e incrível) defumado. Na boca, textura cremosa e levemente alcóolica. O primeiro toque traz frutado e doçura melada intensos atropelado na sequencia por leve balsâmico e defumado até o álcool fazer as funções de amargor e abrir caminho para um conjunto que, apesar de ainda estar no começo do período de guarda (e, por isso, bastante rebelde), está deslumbrante. O final é levemente caramelado. No retrogosto, frutas escuras, caramelo, defumado bem leve e um sorriso enorme no rosto!

Balanço
Quando Ronan, o mestre cervejeiro responsável pelas Monjas, escreveu dizendo que estava me enviando um lote de cervejas experimentais e “diferentes”, eu não sabia o que esperar. A (grande) surpresa surgiu já na primeira garrafa, a Flue Pipe, que recupera um estilo alemão medieval pouco produzido no mundo, o Lichtenhainer, que se diferencia dos estilos ariscos Gose e Berliner por utilizar malte defumado (como o Grodziskie, outro estilo “esquecido”). O resultado é uma cerveja refrescante e deliciosamente provocante, e que se situa no meio do caminho entre uma Berliner e uma Gose (o nome Rauch Berliner Weisse, crédito ao site The Beer Files, é o mais fácil de aproximar o leitor da experiência), mas vai além: essa caseira da Monja se situa entre as melhores ácidas produzidas no país. Uma cerveja incrível. Já a Gose da Monja, Salty Tears, mantém a característica salgada do estilo, com uma leve doçura tentando balancear o conjunto, mas senti falta da acidez e de um colorido derivado da levedura (puxado pra condimentação). Ainda assim é uma boa cerveja para introduzir um bebedor neste estilo também medieval, e que vive um boom no mercado (principalmente norte-americano). A Monja Bitter Soul Girl é uma Double IPA que segue os padrões (exagerados) ditados pela escola norte-americana: muita resina, amargor, cítrico e álcool. O resultado é uma cerveja potente, com notas e sabores marcantes, que podem deixar de joelhos fãs do estilo. A Hot Pot & Old Stove é outro acerto do mestre cervejeiro, uma Flanders Oud Bruin que irá colocar sorriso de orelha a orelha em fãs do estilo por replicar com honras a escola belga. Uma surpresa agradabilíssima! A Monjas Nix é uma Belgian Strong Golden Ale que me pareceu deixar muito presente a levedura, que acaba se sobrepondo aos demais ingredientes. Ainda assim, boa. A Francia também sugere mais presença de levedura do que o estilo necessita. Para o duo final, duas baitas cervejas: Monja The 30th Grand Reserve, uma belíssima Belgian Dark Strong Ale; e Catharina, outra recuperação de um estilo perdido alemão, o Adambier, refeito aqui com capricho. Palmas!

Monja Flue Pipe
– Produto: Lichtenhainer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,52/5

Monja Salty Tears
– Produto: Gose
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,03/5

Monja Bitter Soul Girl
– Produto: Double IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,42/5

Monja Hot Pot & Old Stove
– Produto: Flanders Oud Bruin
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,52/5

Monja Nix
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,10/5

Monja Francia
– Produto: Biére de Garde
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3,20/5

Monja The 30th Grand Reserve
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9.5%
– Nota: 3,70/5

Monja Catharina
– Produto: Adambier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9.5%
– Nota: 3,74/5

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