Três HQs: Ghetto Brother, Mônica e O Inescrito

por Adriano Mello Costa

“Ghetto Brother, Uma Lenda do Bronx”, de Julian Voloj e Claudia Ahlering (Veneta)
O condado do Bronx não era uma das paisagens mais exuberantes da cidade de Nova York no final dos anos 60 e início dos anos 70. A violência e a pobreza marcavam o terreno prejudicado por uma série de medidas do governo que levaram a desindustrialização da área e a falta de investimentos externos, culminando assim em desemprego e tudo que isso traz. Para os jovens que lá viviam com suas famílias oriundas de diversas partes da cidade devido ao custo de moradia era praticamente impossível não ingressar em uma das dezenas de gangues que demarcavam os territórios com ferocidade. Em 8 de dezembro de 1971 a cidade estava pronta para uma guerra que o poder público pouco se importava. Mais de 100 líderes se reuniram devido ao brutal assassinato de um integrante dos Ghetto Brothers. Foi quando o líder dessa gangue tomou a palavra e em vez de pregar a violência, pediu a paz aos demais. Um gesto que ao ser acolhido plantou pequenas sementes que por mais que fossem novamente desvirtuadas lá na frente, foram fundamentais para a época. “Ghetto Brother, Uma Lenda do Bronx” conta essa história focada em Benjy Melendez, o imigrante porto-riquenho responsável pelo gesto citado. A graphic novel saiu esse ano pela editora Veneta e traz 128 páginas com extras que explicam mais daquilo que os autores alemães Julian Voloj e Claudia Ahlering se dispuseram a contar. Originalmente publicada em 2015, “Ghetto Brother, Uma Lenda do Bronx” é um retrato de um período conturbado que traça paralelos com diversas outras situações. A arte em preto e branco é rabiscada e escura expondo bem os momentos e apesar da empatia talvez demasiada dos autores pelo personagem principal, é importante para marcar não só questões profundas como a paz, como serve de atestado do início da cultura hip-hop (o grande Afrika Bambaataa é integrante de uma das gangues) que germinaria em um movimento que hoje movimenta milhões e milhões de dólares pelo mundo.

P.S: Os Ghetto Brothers também fizeram (boa) música. Procure o álbum “Power Fuerza” de 1972 e confira.

Nota: 7

“Mônica: Força”, de Bianca Pinheiro (Graphic MSP)
A Mônica foi criada por Mauricio de Sousa em 1963 e pouco tempo depois se tornou a principal personagem entre tantos e tantos que habitam as histórias concebidas pelo autor e seu estúdio no decorrer dos anos. Mônica virou aquele personagem impossível de não se reconhecer de imediato, com vestidinho vermelho, cara emburrada e aqueles dois dentões saltando a vista. Em geral, ela resolve todos os seus problemas na base da porrada, seja contra Cebolinha ou Cascão, com algum invasor alienígena ou qualquer vilão que apareça no meio da história. Dentro do projeto Graphic MSP, a turminha já teve duas ótimas releituras (“Laços” e “Lições”), porém era esperada a hora que a dona da rua aparecesse em uma aventura solo. Para fugir do tradicional, essa história denominada habilmente de “Força”, coloca a nossa velha amiga gorduchinha na frente de uma situação que ela não pode resolver na porrada. Cabe lembrar que Mônica não passa de uma criança e, como tal, por mais esperta que seja, ainda não está acostumada a todas as neuroses e orgulhos dos adultos (ainda bem). Para tocar tal enredo o nome escolhido não podia ser mais acertado: Bianca Pinheiro. Sim, a criadora de “Bear” (que já chega ao terceiro volume nas bancas e livrarias nesse ano) é uma das quadrinhistas em ascensão no mercado nacional e tem a sensibilidade necessária para tocar essa nova edição do projeto Graphic MSP. “Força” mantêm o formato que já nos habituamos com duas edições de capa, texto introdutório de Mauricio de Sousa e texto sobre a primeira aparição da personagem, além de alguns extras. Com 82 páginas, a HQ traz roteiro e arte de Bianca Pinheiro e explora uma situação que muito provavelmente emocionará a todos que leem e, acima disso, pode levar a enxergar Mônica com outros olhos, o que é mais importante ainda. “Força” merece o título e acerta a mão na arte e no enredo que é delicadamente conduzido pela autora sem descambar para o piegas.

Nota: 7,5

“O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio Que Afundou Duas Vezes”, de Mike Carey e Peter Gross (Panini)
Foram 66 edições dispostas em dois volumes entre julho de 2009 e março de 2015. Nesse período, Mike Carey (Hellblazer) e Peter Gross (Lúcifer) exploraram nuances diversas e entraram com vontade em estradas forradas pela literatura em “O Inescrito”. Lançada completamente em 12 encadernados aqui pela Panini, a aclamada série é daquelas que suscitam considerações adicionais após a leitura e promovem discussões sobre o caminho e as referências. Ambientada no selo Vertigo e em teoria dentro do mesmo universo de coisas como “Fábulas”, de Bill Willingham (tem até crossover no meio das edições), os autores exploram dentro do universo da fantasia a questão da idolatria desmesurada de fãs, assim como a proliferação disso nas mídias, versando sobre o poder de manipulação que as histórias possuem e enxertando doses e mais doses de referências a literatura em uma trama envolvente, com ação, mas que não deixa de lado a inteligência. O personagem principal é Tom Taylor, filho do escritor Wilson Taylor, que serviu de base para a criação mais importante dos últimos anos, um pequeno mago chamado Tommy Taylor que vendeu milhões de livros e invadiu brinquedos, games e tudo o mais. Acontece que existem muitas coisas escondidas nessa “inspiração” e a saga trabalha com fantasia e real se cruzando até coexistir, onde Tom é Tommy e vice-versa e precisam lidar com conspirações antigas e vilões nada habituais. “O Inescrito” é claramente calcado em personagens como Harry Potter, de J.K. Rowling, e Timothy Hunter, de Neil Gaiman, além de se correlacionar com diversas outras obras da fantasia. Isso, no entanto, não funciona como plágio e sim como sustentáculo para uma crítica bem realizada. Agora em 2016, a Panini Books publica a graphic novel “O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio Que Afundou Duas Vezes” com capa dura, 160 páginas e papel de boa qualidade (LWC). Lançado originalmente em 2013, essa espécie de spin-off desmistifica o início de tudo e é mais um saboroso prato elaborado por Carey e Gross para os leitores de quadrinhos.

Nota: 9

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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