Entrevista: Xangai

por Daniel Tavares

Xangai era amigo de Teseu, toureava minotauros, roubava do Rei Lear uma donzela e, montado em seu cavalo, viajava o mundo inteiro nas estampas Eucalol. Eugênio Avelino é cantor, compositor, violeiro e radialista. E, este ano, ator (na novela “Velho Chico”). Xangai, que assumiu como nome artístico inspirado no nome da sorveteria de seu pai, gravou ao lado de Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias os hoje clássicos álbuns “Cantoria” (1 e 2). “Isso tem 32 anos”, ele relembra em entrevista ao Scream & Yell dias antes do show com os parceiros Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias em Fortaleza.

Lançado em 1984 derivado de um show no Teatro Castro Alves, em Salvador, “Cantoria” foi tão bem recebido na época que ganhou outros dois volumes, o “Cantoria 2”, com os quatro músicos, e um “Cantoria 3”, apenas com Elomar. “Os três são grandes compositores e essa oportunidade de estar junto a eles é sempre um motivo de aprender um pouco mais”, confidencia Xangai, que fala sobre o modo de trabalho dos quatro no palco (“Geraldo Azevedo gosta muito de fazer improvisos”) e conta que essa nova turnê “Cantoria” reúne novidades e músicas conhecidas da época dos álbuns originais.

No bate papo abaixo, Xangai fala de sua participação na novela “Velho Chico”, da Rede Globo, (“Foi um desafio”), do parceiro de “Cantoria” Elomar (“Ele não gosta de televisão, não gosta que a imagem dele seja superexposta como a maioria das pessoas que estão na mídia e querem mais é aparecer”), elenca músicos cearenses que admira e avisa: “Eu não falo português”, explicando logo em seguida, de forma poética: “A língua brasileira eu chamo de “brasilerança”. Já ao ser questionado sobre o forró “de hoje”, Xangai simplesmente arremata: “não conheço”. Confira a seguir, na íntegra, a conversa com este mestre da música brasileira.

O senhor poderia me adiantar um pouco como vai ser o show, ou melhor, como vai ser esse concerto, como o Elomar prefere falar?
Rapaz, eu tô querendo saber de alguém que possa me dizer como é que vai ser. Só posso dizer depois que fizermos. A gente já fez em Brasília e Goiânia, em setembro, e além de apresentarmos o repertório de músicas já conhecidas, apresentei algumas músicas que não constavam nos nossos primeiros encontros e foi muito bem recebido. O povo gostou. Muitas pessoas não vão para ouvir as novidades, eles vêm pra relembrar momentos dos encontros anteriores de 32 anos atrás. (O show) é isso: tem algumas novidades e uma manutenção do repertório de músicas mais conhecidas daquela época.

Falando sobre os dois álbuns, “Cantoria 1” e “Cantoria 2”, como foi gravar esse disco com esses três outros grandes músicos, que são o Elomar, Vital Farias e Geraldo Azevedo?
Isso tem 32 anos. Foi em 1984. Gravamos no Teatro Castro Alves, em Salvador, acho que foi de quinta a domingo. Quatro apresentações (não tenho bem certeza). E em março daquele ano o LP já estava pronto. Aí nós lançamos na Sala Cecília Meireles, e em São Paulo, no Teatro Cultura Artística. Depois fizemos Campinas, São Bernardo do Campo, Goiânia, Brasília e, me parece, Belo Horizonte. No decorrer dessa viagem foram gravados os outros espetáculos, dos quais se conseguiu colher músicas que fazem parte do “Cantoria 2”. Naquela ocasião o Elomar mostrou muita música nova em cada concerto que fizemos. Daí saiu o disco “Cantoria 3”, só com músicas dele, só ele, lançado pela Kuarup.

Como vocês decidiram quem canta o que? Basearam-se em quem cantou as músicas originalmente ou houve algum outro critério? Como vocês dividem entre si quem quanto o que, quem toca que parte, quem faz solo, quem faz acompanhamento?
Todos os quatro (fazem acompanhamento). Acontece que há momentos de algum de nós cantar uma música inédita que os outros não conhecem, dai a gente canta só. E toca só. Mas sempre gostei e tenho mais tendência e domínio da parte vocal. Então praticamente canto todas as músicas dos outros três fazendo vocal, abrindo a voz. Em compensação, Geraldo Azevedo tem um talento, uma capacidade de improvisação, no grande violão que ele toca… Além de cantar, Geraldo gosta muito de fazer improvisos. Vital Farias e Elomar têm um estilo mais clássico. Nem sempre eles participam (dos improvisos), mas todos cantam as músicas que os outros estejam cantando. A divisão é essa. Os três são grandes compositores e essa oportunidade de estar junto a eles é sempre um motivo de aprender um pouco mais, porque são três grandes mestres da música brasileira. Inquestionavelmente.

São quatro, né? Permita-me corrigi-lo.
Não. Eu estou dizendo que eu aprendo com os três. Estou falando de mim. Estou falando de aprendizado. Pra mim não soa pedantismo, como uma forçação de barra, de dizer que é coisa de humildade. Aprendo porque eles são três mestres mesmo. E acho natural que eles possam também aprender alguma coisa que eu faça.

Entendi. Você também recentemente teve uma experiência como ator na novela “Velho Chico”. Foi uma novela que, de certa forma, resgatou um pouco da cultura nordestina, principalmente da região do São Francisco.
Bastante.

[A novela] Terminou de uma forma bastante triste com o falecimento do principal ator, Domingos Montagner. Eu queria saber de você como foi essa experiência de ter participado dessa novela, dessa obra.
Olha aí, outro momento de aprendizado. Pela possibilidade de estar sempre lidando com o público, muitos músicos não tem tanta dificuldade de se adaptar e representar algum papel, teatralmente falando. Não estou falando só de mim não. Vários cantores lidam com o público representando. O que? Interpretando as músicas. Não é só o ato de cantar, é o ato de mostrar o que aquele texto, o que aquela música está querendo dizer. Eu também faço isso e gosto muito de usar este tipo de recurso. Acho que tenho uma vocação ou algo assim parecido. O Luiz Fernando Carvalho fez o convite dizendo que admira minha arte. Foi um desafio. Ele também me deu, vamos dizer um direito, não sei se essa é a palavra, de sugerir uma pessoa pra fazer uma parceria comigo como um cantador da novela e indiquei Maciel Melo. E foi brilhante. Correspondeu maravilhosamente. Mas, para você ver como é que isso ocorre, Mariene de Castro [que interpretou Dalva na novela] é uma cantora. Lucy Alves é uma cantora e musicista. E foram brilhantes na novela. O hábito de ter que encarar e ficar cara a cara com o público todo dia e tal é exatamente o que comprova essa condição dos músicos, dos cantores, de realizar e poder dar conta desse recado. Pra mim foi isso. Uma experiência maravilhosa. É um trabalho que não é fácil, mas quando o time é bom e um técnico sabe botar esse time pra jogar bem, o resultado é o que a gente pode comprovar nesse trabalho aí, nessa novela.

Uma das suas músicas que são mais famosas é de Cátia de França, “Kukukaia”. Ela também dá nome a uma casa de forró onde você já esteve em Fortaleza…
Inúmeras vezes. É dos meus amigos, meus compadres Walter e Elaine.

Pois é, eu queria saber qual é exatamente o significado da palavra Kukukaia. E nessa casa de forró em especial, ainda se escuta o forró tradicional, o forró nordestino..
De verdade. Forró de verdade.

A gente tem artistas de sucesso que estão fazendo turnê no Brasil, estão fazendo turnê internacional que já recebeu o nome de “forró de plástico”… Eu queria saber o que você acha desse forró que não é exatamente forró…
Eu não conheço. Eu não conheço.

E sobre o significado dessa palavra, Kukukaia.
O Brasil tem, todo ele, uma língua só. O que difere é o sotaque. Cada lugar tem a sua maneira de entonação, sotaque, hábitos, o regionalismo, mas nós sabemos. Qual a língua que a gente fala no Brasil?

É bem diferente o português que a gente fala no Ceará, do português que vocês falam na Bahia, do português que é falado em São Paulo…
Eu não falo português. A língua que a gente fala aqui não é português não. Nós também falamos português, mas a língua brasileira eu chamo de “brasilerança”. É a herança que nós temos. Tudo o que a gente tem aqui no Brasil é brasilerança. É herança porque o Brasil é muito novo, o Brasil tem 500 anos. A língua brasileira na verdade é a língua dos índios. Quer ver? Cariri. Messejana.

Tianguá.
Ceará. Piauí. Paraíba.

Mossoró.
O que não falta é nome de índios. Essa língua vem se formando ao longo desses 500 anos com a chegada de outras línguas. A língua portuguesa, a principal, foi a que se oficializou. Mas tem a espanhola quando se fala “pregunta”, “entonce”, “ancho”, por exemplo. Tem um pouco de francês. O inglês agora é o que mais chega, porque somou tudo. A tecnologia é toda em inglês. E ainda tem o latim, que é a mãe da língua portuguesa. E tribos de ciganos perambulam por esse sertão brasileiro. Os ciganos brasileiros vem de uma origem romani. Elomar é muito conhecedor de alguns aspectos da língua que os ciganos falam – tem até uma música chamada “Duvê Esse Chão Quêma Meus Pé”. Duvê, na língua romani, quer dizer Deus. Jesus Duvê Baron. Na verdade é Duvêl. Duvê é uma forma reduzida de Duvêl. Eu mesmo tenho um filho que se chama Duvê. E na religião que se estabeleceu no Brasil, que é a católica, desde a chegada dos portugueses, a colonização, tem, por exemplo, uma história de que uma mulher quando está próxima a parir, costumeiramente algumas pessoas dizem: “Nossa Senhora do Bom Parto lhe dê uma boa hora”. Você já deve ter ouvido isso. Na linguagem dos ciganos romani, Nossa Senhora do Bom Parto é Kukukaia.

A gente não vai ter a oportunidade de conversar com o Elomar, a gente sabe que ele prefere não dar entrevistas…
Elomar não gosta de televisão, mas de conversar com jornalistas eu não sei se ele está indisposto não. Alias, dependendo de como se chega, da abordagem, Elomar é uma bagagem de audição imensa. Um homem de uma cultura impressionante. É um mestre de conhecimento erudito. Ele é tão erudito que tem a visão se colocar numa postura de humildade, que ao invés de estar cantando nos palácios dos chamados “doutos”, ele, na obra que realiza, vem com a erudição tratar de um assunto muitas vezes desassistido e descriminado pelos intelectuais. Este é o meu parecer, é como eu entendo o Elomar. Não tenho nada contra os intelectuais. São todos importantes. Mas o Elomar vem falar do povinho mais desassistido. Povinho, vírgula. Entre aspas. É o povo do sertão, povo da caatinga. Ele fala com uma competência, com uma beleza. É um ato de doação, um ato de uma sensibilidade que me encanta. Acho isso uma coisa maravilhosa. É como se Elomar fosse um Patativa do Assaré, um poeta naturalíssimo. Elomar tem um conhecimento vastíssimo de tudo. É um arquiteto. Um homem que conhece o universo de uma forma diferente da maioria dos nossos intelectuais. É respeitável, admirável. E admirável é a obra que ele faz. Ele não gosta de televisão, não gosta que a imagem dele seja superexposta como a maioria das pessoas que estão na mídia e querem mais é aparecer. Ele já passou desta fase há muito tempo e é um direito. Por que que ele não quer? Pergunte a ele. Está errado? Não acredito. Está certo? Ele faz o que ele quer. E eu não discordo.

Se você fosse um jornalista e fosse fazer uma pergunta para ele, o que você perguntaria? E, pelo tanto que você o conhece, provavelmente qual seria a resposta dele?
Pelo conhecimento que ele tem, pelo grau de inteligência, se você quiser saber alguma coisa, meia palavra dele basta. Pra um bom entendedor meia palavra basta. Não tem esse dito? Então, qualquer coisa que se pergunta, ele tem uma capacidade de mastigar o assunto e trazer à baila uma aula. Acho que não seria uma pergunta que eu poderia fazer pra ele. Qualquer pergunta, é um mestre falando a respeito daquilo que a gente queira indagar. Então é uma palavra pesada em termos de conteúdo. Pesada em termos de grandeza. De valor. Claro que se perguntar como é que se joga baseball, eu não sei se ele vai falar. Mas, coisas, realmente que a pessoa queira saber, ele é grandioso. Qualquer assunto que eu lhe perguntar dentro do universo dele, ele tem uma palavra muito importante. Estar com ele é muito legal, muito bacana, muito enriquecedor.

Pra gente terminar essa entrevista, eu queria só que você comentasse um pouco sobre artistas cearenses, que artistas cearenses tiveram alguma influência na sua carreira, que você goste, que você escute na sua casa…
Rapaz, o Ceará é um manancial de arte. Não só pra mim, mas para o Brasil e pra esse mundão todo. O Ceará tem uma importância muito significativa, de verdade. Na área da música existem muitos grandes músicos cearenses. Julinho do Acordeom [João Aguiar Sampaio, nascido em Itapagé, CE] parece que é cearense e era meu amigo, tocava com João do Vale. Tem Evaldo Gouveia… Tarcísio Sardinha, maravilhoso… Adelson Viana… Tem um músico fantástico daí que eu já ouvi em uma música de Zé Dantas e Luis Gonzaga, que é “A Volta da Asa Branca”, chama-se Cristiano Pinho, que toca guitarra. É surpreendente o arranjo que eles fizeram, ele e Adelson, pra essa música. Eu sinto vontade até de chorar quando ouço essa música. E eu sempre ouço. Tem uma gravação que consegui, uma pessoa me deu de presente, que é uma maravilha. Tem Falcão que é um grande artista cearense… Já falei do Patativa… Tem o grande, o grande, o grande, o maior de todos, Chico Anísio. É por aí. Admiro todos. O que não falta no Ceará são grandes artistas. Geraldo Amâncio, um grande repentista, e outros tantos que tem por aí que eu adoro, uns caras que tem importância muito grande e que nos dá muita alegria de saber que são brasileranças de verdade.

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza.

One thought on “Entrevista: Xangai

  1. Boa entrevista! Esses caras, tanto Xangai quanto Elomar, são figuras peculiares, diferenciadas, que enriquecem a nossa cultural. O pensamento desses caras é poético, na linguagem proposta por Guimarães rosa.

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