Três vezes Wilco em quatro dias

Prefácio.
Em um dos trechos marcantes do excelente documentário “20 Mil Dias Sobre a Terra” (2014), Nick Cave conversa com o psicólogo Darian Leader e fala sobre seu maior medo: perder a memória. “Porque a memória é o que somos e eu acho que a sua alma é a sua própria razão para estar vivo… está amarrada na memória”. Corta para a noite passada com o anúncio da morte de Leonard Cohen. Já era esperado, ele havia avisado e disfarçado cinicamente, mas sempre choca. Relembrei de uma das duas vezes que tive a sorte de vê-lo ao vivo, a primeira no Festival de Benicàssim 2008, o show que mais chorei em toda a minha vida. Na madrugada fui reler o texto que escrevi na época e… chorei de novo. Puta que pariu (risos). Não sei explicar o que aconteceu naquele dia e o que ainda provoca essa forte emoção, mas é algo… poderoso. Lendo aquele texto de 8 anos atrás tive um estalo: preciso escrever sobre os shows do Wilco, tira-los de dentro de mim, porque um dos motivos que me fez escrever ainda quando era menino foi a vontade de cristalizar o momento numa folha de papel, e a partir de então poder voltar a ele sempre que fosse necessário (por amor, por dor, fuga ou medo de perder a memória). Desta forma, este texto que segue é dedicado a Leonard Cohen e a todos que já se emocionaram a ponto de chorar num show. Tamo junto!

Três vezes Wilco no Brasil, por Marcelo Costa
Fotos: 1, 2, 5 e 6 por Liliane Callegari / 3 por Bruno Eduardo / 4 por Marcelo Costa

Lá se vão 2016 anos depois de Cristo e alguns 180 milhões de anos antes dele e impressiona a capacidade que a música ainda tem de emocionar e encantar pessoas. Sério. Vivemos o período máximo de superexposição social, um sentimento que fragmenta em centenas de milhares de pedacinhos tudo o que somos na busca do que queremos ser (ou o que achamos que os outros querem que a gente seja). A cena mais corriqueira: a pessoa emburrada abre o sorriso pruma selfie e volta a ficar emburrada após o clique. Quando cantou que a felicidade era boa, mas durava pouco mais de um hora, Perry Farrel não devia imaginar que a felicidade pudesse ser desconstruída tão rapidamente ao clique de uma câmera digital. Esse, no entanto, é o jogo numa sociedade viciada em consumismo e publicidade, que tudo compra e tudo vende.

O Wilco é uma banda estranha no contexto do paragrafo anterior, pois parece mais um grupo de tiozinhos seguindo um líder desajeitado que parece que saiu da horta da fazenda no minuto anterior e segue numa tarefa interessante de tentar desconstruir o classic rock injetando kraut, jazz torto e noise em doses homeopáticas que servem tanto para seduzir o descolado que adoraria ver o mundo ao avesso tanto para causar curiosidade a quem ouve música como passa manteiga no pão, sem prestar lá tanta atenção. Nesse contexto, se a fase áurea do Wilco em estúdio, demarcada entre 1996 e 2007, ficou lá atrás perdida no “passado”, o sexteto continua dando caldo onde realmente importa, o palco, transformando até canções mornas recentes em números merecedores de aplausos efusivos do público.

WILCO NO CIRCO VOADOR – 06/10/2016

A turnê brasileira do Wilco começou numa quinta-feira de tempo agradável no Rio de Janeiro, naquele que é o indiscutível melhor local para se ver shows no país, o Circo Voador. Pelas ruas da Lapa, fãs bebiam, se abraçavam e torciam por músicas. Caravanas isoladas de uma ou duas pessoas vinham de toda parte enquanto integrantes da banda passeavam pela bagunça como querendo captar alguma aura bêbado poética da cidade maravilhosa. Ainda assim, apenas metade dos 2500 lugares do Circo Voador estavam ocupados, mas a turma do Queremos, que organizou esse show carioca, estava feliz, o público estava feliz, e a banda estava feliz. Tinha como dar errado? Sempre tem, mas não foi nessa noite, não foi nesse palco e muito menos diante desse público que parecia viver a felicidade real, tátil e drogadamente viciante.

“Random Name Generator”, do álbum de 2015 “Star Wars”, iniciou a turnê brasileira do Wilco, e com pouco mais de 1 minuto de show o público já estava urrando pela banda. Ainda assim ninguém esperava um set list caprichado que logo na sequencia traria as tempestades “I Am Trying to Break Your Heart” e “Art of Almost” além de uma versão acústica suave com slide guitar de “Misunderstood”, um dos cavalos de batalha do álbum “Being There” (1996). Já nesse começo pode se desenhar a estrutura que faz do Wilco ser uma banda matadora ao vivo: aos fundadores Jeff Tweedy (voz, violão, guitarra e coração da banda) e John Stirratt (baixo) se juntaram o baterista monstro Glenn Kotche em 2001, o tecladista Mikael Jorgensen em 2002 além do guitarra Nels Cline e o faz tudo Pat Sansone, os dois na banda desde 2004.

Porém, essa é uma forma tradicional de ver uma banda pouco tradicional. Na verdade, o Wilco são doces canções folks de Jeff Tweedy ao violão que passam pela centrifuga experimental de, principalmente, Glenn Kotche e Nels Cline. Sem eles, provavelmente, o Wilco seria um Travis melhor resolvido, mas com os dois causando toda noite eles se transformam numa grande banda de rock’n’roll. Não é a toa que o público entoou os riffs de guitarra nos shows, uma vibe deliciosa que começou no Rio, com aprovação de Jeff, cresceu em São Paulo no Popload Festival e se consolidou no show intimista do Auditório Ibirapuera. Só quem esteve em algum destes shows entende Jeff contando aos belgas, um mês depois, como o público latino-americano era legal.

Essa rendição à guitarra rende o momento mais celebrado do show, o já mítico solo de Nels Cline em “Impossible Germany”. A comoção foi tanta que, olhando a comoção da plateia, Jeff fez questão de se dirigir a Nels Cline, dar-lhe um tapinha nas costas e dizer: “Isso tudo é pra você”. Provavelmente ainda mergulhado na adrenalina do solo, Nels olhou o público e num gesto de reverencia agradeceu os aplausos. Tudo funcionou nessa noite: os hits, os clássicos e até as canções novas: “Cry All Day”, com Nels tirando som das cordas quase nos trastes, a ótima “Someone to Lose” e até mesmo “If I Ever Was a Child”, em que Nels surge tocando como uma guitarrista comum. Pode-se reclamar da simplicidade de “Locator”? Pode, mas não é o fim do mundo – e passa rápido, e tem um riff de guitarra que dá pra cantar…

Além de tudo teve também “olê olê olê, Wilco, Wilco”, “Theologians”, “Ashes of American Flags”, “Jesus, Etc.”, “Heavy Metal Drummer”, “I’m the Man Who Loves You” além do trio rock’n’roll do bis formado por “Red-Eyed and Blue”, “I Got You (At the End of the Century)” e “Outtasite (Outta Mind)”. Em “California Stars”, Jeff puxou um rapaz da plateia que levou um cartaz no melhor modelo Bruce Springsteen e se saiu bem ao dividir uns solos com Nels Cline. Para fechar uma noite perfeita, “Spiders”, que transformaria a historinha de cantar os riffs da banda em ponto obrigatório da turnê (islandeses, japoneses, holandeses, austríacos e canadenses, agora é com vocês). Se fosse só esse show já seria sensacional, mas ainda havia outros dois.

WILCO NO POPLOAD FESTIVAL – 08/10/2016

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Se não fosse o Popload Festival não haveria Wilco no Brasil, e ainda que fosse notório que seria impossível bater a grandiosidade do show no Circo Voador, centenas de fãs que estavam no Rio na quinta bateram ponto no Urban Stage, em São Paulo, para testar a sorte. Realizado pela primeira vez em um grande estacionamento localizado ao lado do Terminal Rodoviário Tietê, o Popload Festival caprichou na estrutura. Ao grande Bixiga 70 coube a tarefa de substituir o grande Battles, que cancelou a vinda para a América do Sul poucos dias antes, e os paulistanos fizeram sua tradicional festa afrobeat. Ava Rocha fez um show muito mais performático do que musical enquanto o Ratatat tocou a mesma música por quase uma hora – nos 10 primeiros minutos é legal, nos outros 50 é esquecível e chato.

Até então o som estava impecável, alto e deliciosamente nítido em toda a arena improvisada, mas bastou o Wilco pisar no palco para a situação mudar… por culpa da banda. Em entrevista ao Consequence of Sound em agosto, Jeff Tweedy contou do desejo da banda em diminuir o material e as tralhas que carrega em turnê. “Nós nos divertimos com amplificadores maiores, mas a ideia da tour ‘Schmilco’ é fazer shows em pequenos teatros, um mais próximo do outro, apertado”, explicou. “Estamos tocando calmamente e curtindo ouvir o outro mais próximo ao invés de só ouvir pelos monitores”, completou Pat Samsone. Bacana a atitude, mas para um grande palco de festival a coisa complica, e o som do show do Wilco no Popload Festival, principalmente na primeira metade, mais calma, sofreu para se adaptar à banda.

Muitos fãs não se incomodaram e fizeram a festa típica sul-americana exprimindo paixão pela banda a cada break. Se no Rio, o repertório chegou a 29 canções, a preocupação de um show em festival ser incrivelmente menor não se realizou e o grupo mostrou 27 canções, entre elas uma execução pungente de “Either Way” e a inclusão surpresa de “Side With the Seeds”, tocada pela segunda vez na turnê – a pedido de um fã. Os grandes momentos se repetiram: o longo e mágico solo de “Impossible Germany”, a melancolia de “Jesus Etc…”, a empolgação de “Hummingbird”, o mesmo tour de force rock’n’roll do bis no Rio e, claro, “Spiders” com direito a corinho da plateia incentivado por Tweedy. Como disse um amigo: “Criamos um monstro” (risos). Na sequencia, o Libertines parecia um avião desgovernado que a qualquer momento poderia se espatifar no chão. Não o fez e, mesmo capenga, “Can’t Stand Me Now” emocionou.

WILCO NO AUDITORIO IBIRAPUERA – 09/10/2016

Com preço do ingresso a R$ 20, os tickets simplesmente desapareceram alguns minutos após terem sido colocados à venda uma semana antes. O burburinho, no entanto, tentava diminuir o valor dessa apresentação: “Será um pocket show”, dizia um. “Eles vão tocar apenas canções do “Schmilco”, dizia outro. “Vai ser um show de covers”, opinava outro com a mesma certeza de Danilo Gentili na vitória de Aécio Neves. Outro ponto também circulava nos bastidores dos fãs antes da apresentação: se houvesse um ranking de apostas antes do show, a expectativa geral era de que essa apresentação no belo, porém sisudo, Auditório Ibirapuera não tinha a menor chance de bater a emoção olho no olho do Circo Voador. E então, senhoras e senhores, fomos surpreendidos. Felizmente.

Sabe aquela coisa de tocar em palcos menores que o Jeff falou na entrevista da CoS? Então, aquilo se explicou a perfeição no Auditório Ibirapuera. O som estava tão nítido que as notas pareciam flutuar na atmosfera do local – mais um pouco e seria possível toca-las. Jeff cantava distante do microfone e sua voz saia límpida e claríssima pelas caixas do auditório. Os mínimos detalhes dos arranjos (um xilofone aqui, viradas de bateria suaves ali, banjo acolá) surgiam comoventes numa acústica simplesmente perfeita. Dispostos na melhor proposta de shows menores, um próximo do outro, sem grandes apetrechos, uma bateria básica e nada de grandes amplificadores, o Wilco fez nada menos que seu show definitivo no Brasil, aquele que ficará na memória de quem estava presente por vidas e séculos.

O show abriu de forma tempestuosamente sônica com uma versão exuberante de “Via Chicago” e se seguiram versões inspiradas de “I Am Trying to Break Your Heart”, “Kamera”, “Misunderstood” e “Radio Cure”. O primeiro golpe forte veio com “Reservations”, uma balada silenciosa e comovente que fecha o álbum “Yankee Hotel Foxtrot” e é pouco tocada ao vivo, e aqui ganhou uma versão de arrepiar e derrubar lágrimas. Na sequencia, a versão definitiva de “Impossible Germany”, um solo estendido por quase 8 minutos que, ao final, culminou com todo o Auditório em pé aplaudindo e urrando o nome de Nels Cline – a sensação ao final da canção foi a do grito de um gol em final de campeonato. Impressionado, Jeff brincou: “Essa é a plateia brasileira que eu me lembro da última noite”. Está tudo no vídeo ai embaixo.

Este terceiro show do Wilco no Brasil acontecia na noite do segundo debate presidencial nos EUA e, incomodado, Jeff Tweedy falou abertamente pela primeira vez na turnê brasileira: “Há algo que está me incomodando demais, há um idiota laranja no fundo da minha mente, e isso está me deixando maluco”, desabafou em relação ao então candidato Donald Trump. Gritos de “Fora Temer” começaram a ecoar pelo auditório. “Eu sei que vocês também tem problemas aqui e é exatamente disso que estou falando: estamos presos entre idiotas”. Mais à frente, contemporizou: “Estamos aqui reunidos pela música e isso é bonito, vamos dividir esse momento, mas eu precisava dizer que essa bola laranja (tal qual um câncer) no fundo do meu cérebro está me incomodando muito”. A próxima canção: “We Aren’t the World”.

Seis anos atrás num auditório similar em Roma, o Parco De la Música, a certa altura da noite, Jeff Tweedy provocou: “É muito legal para nós tocarmos em um lugar incrível como esse, mas… é foda tocar e ver vocês todos estirados nas poltronas como se tivessem dormindo”. Em São Paulo, um pouco antes de “Impossible Germany”, ele tentou algo semelhante: “Vocês não precisam ficar tão comportados, vocês sabem, né?”. Não surtiu o efeito desejado. Mas bastou o baterista Glenn Kotche subir na bateria (um ritual que havia deixado de fazer, mas voltou a realizar nos shows da turnê latina a pedidos de Mariana Neri, responsável pela página “Is Wilco coming to Brazil?”) e sinalizar para o público descer que o auditório todo deixou as poltronas e foi pra frente do palco tornando a apresentação ainda mais intimista.

Visivelmente inseguro com os fãs aos seus pés, Jeff foi adquirindo confiança conforme o show seguia, e se a apresentação nesse trecho final perdeu em qualidade sonora, ganhou em clima, devoção e paixão, com Jeff regendo o público em “Hummingbird”, tirando mais um coelho da cartola com “Hate It Here” (outra da lista de pedidos de fãs que eles realmente leem no site oficial) e voltando a reger o coro da plateia no acompanhamento dos riffs em “Spiders (Kidsmoke)”. O set list oficial aos pés dos integrantes guardava para o final “California Stars” e “A Shot in The Arm”, sendo que a segunda, muito querida pelos fãs, seria tocada pela primeira vez nessa turnê Brasil. Porém o adiantado da hora vitimou as duas canções e a banda voltou para um segundo bis despedindo-se com “I’m a Wheel”. Era o fim do melhor dos três shows do Wilco no Brasil em 2016. Saudades. Será que podemos voltar no tempo? : )

Posfácio.
Duas coisas martelavam a ideia ao fim de show. Primeiro a sensação de que a classe cultural está sofrendo um enorme baque com os recentes episódios na Inglaterra (o Brexit), Estados Unidos (a vitória de Trump e a derrota de Bruce Springsteen, Jeff Tweedy e outros) e no Brasil (todo dia um novo golpe). E dói. Segundo que nas confusões do mundo moderno, a música ainda tem um poder revigorante impressionante. “A música é a vida em código”, escreveu certa vez Ana Maria Bahiana. “A música nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se fôssemos dignos do mundo”, pontuou Salman Rushdie certa vez. A música aproxima pessoas, nos faz sorrir, chorar, abraçar. E foram três shows do Wilco em quatro dias de lágrimas, abraços e sorrisos. Sim, estamos presos entre idiotas, mas não podemos desistir de viver, de lutar, de sonhar, de sorrir, de acreditar, de ouvir e dançar e sonhar música. Nunca.

Obrigado, Wilco, obrigado. 

One thought on “Três vezes Wilco em quatro dias

  1. Estive nos show de SP.
    Sobre o Ibirapuera, quando é que se tem a chance de ver uma banda tão foda num local perfeito?

    E só por isso esse show já tomou o 1o lugar na minha lista.

    @Vinimzo

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