Entrevista: Samuca e a Selva

por Marcos Paulino

Em sua página no Facebook, a banda Samuca e a Selva descreve o gênero que habita como “groove latino-americano”. Foi a forma que seus 10 integrantes – sim, 10! – encontraram para definir um caldeirão sonoro que inclui afrobeat, soul, funk e ritmos brasileiros e latinos.

O coletivo, que está lançando seu primeiro disco, “Madurar”, nasceu em 2014, anos após Samuel Samuca, que tinha um grupo de música nordestina em Guaratinguetá, ter se mudado para São Paulo. Aos poucos, ele foi conhecendo, e agregando ao seu convívio musical, gente de bandas como Bixiga 70, Ba-Boom e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana.

Juntos, os 10 integrantes gravaram as 12 faixas que recheiam o CD de estreia, cheio de suingue e que, conforme conta Samuca nesta entrevista ao Plug, parceiro do Scream & Yell, vem angariando um público dos mais ecléticos. Confira!

Você é paulista, mas sempre bebeu da fonte de ritmos do Norte e Nordeste, como forró, maracatu e baião. Conte um pouco sobre sua história musical.
Na verdade, mais do Nordeste do que do Norte. Minha história na música se inicia através da poesia. Comecei a escrever cedo e de forma bem empírica, com 9 anos de idade. Na época, tive duas professoras, Evely e Suely Monteiro, que me incentivaram demais. Tudo que fazia na escola tinha verso. Depois comecei a enveredar pra música mesmo. No começo dos anos 2000, a febre do forró invadiu o Brasil inteiro e a gente era adolescente na época, ficou maluco. Juntei uma turma de amigos de Guará e criamos a Chinela de Palha, que era uma banda de forró pé de serra. A partir disso, abriu-se um horizonte para conhecer a obra de grandes ídolos, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Dominguinhos, Zezum, Gil, Alceu, Caetano, entre outros geniais compositores da música nordestina e brasileira. O tempo foi passando e comecei a ampliar meu leque de pesquisa e interesse em outras coisas, sempre me relacionando e trocando muita informação com outros artistas. Sempre gostei muito de soul music, RnB e de reggae também, músicas com linhas de baixo mais marcantes, e fui escrevendo coisas para esses gêneros. Quando vim pra São Paulo, aí minha cabeça abriu de vez, comecei a fazer teatro, a frequentar os bares e me relacionar com outros cantautores e artistas em geral, trocar influências e embutir na minha música. De repente, conheci a turma da Selva e a coisa virou o que virou.

Então, quando se mudou de Guaratinguetá pra São Paulo é que ampliou seu leque de influências?
Extremamente! Apesar de Guará estar no eixo SP-RJ, muita coisa não chega lá. É uma cidade com um potencial de cultura ainda aquém do que pode entregar. Claro que com a chegada da internet fomos tendo acesso a muita coisa e eu sempre gostei de fuçar, de pesquisar. Mas a vivência é muito importante e isso não rola muito por lá. A gente, junto de uma pequena parcela do pessoal de lá, é que criava nossos próprios movimentos. É incomparável o choque, o fascínio de chegar em São Paulo e ver tanta diversidade, tanta opção, tanta coisa boa em termos de cultura que a cidade tem a oferecer. Estou há 10 anos aqui, já vi e vivi muito, mas acho que ainda é pouco. Em São Paulo, se vive uma vida inteira e não se conhece tudo. Mas é um lugar que te oferece muito e que também te desafia. Tento sempre seguir aprendendo mais, observando, conhecendo gente, gosto muito de gente, e aproveitando esse caleidoscópio cultural da cidade da melhor maneira possível.

Como foi a entrada da Selva na sua vida?
Mudou tudo. Mudei planos. Abdiquei de uma série de coisas, de outros caminhos bem sólidos que vinha trilhando. Mas mudou pra melhor. Hoje sou mais livre, mais aberto, mais confiante, mais inspirado, me conheço mais e de quebra ainda estou vivendo um sonho, fazendo o que mais gosto de fazer, que é cantar e estar em contato com o povo, ao lado de grandes amigos que a vida me deu. A Selva é felicidade pura!

A banda está lançando o primeiro disco após dois anos de carreira. Foi difícil maturar esse projeto?
É duro. É sempre um esforço, em termos de tempo, grana, dedicação e dificuldades que uma banda independente precisa enfrentar. Fizemos tudo na raça, bem suado mesmo. Mas, sinceramente, não diria que “difícil” é a tônica desse projeto, não. Todo mundo se doa tanto pra coisa, com tanto tesão, com sorriso no rosto, que as coisas vão fluindo com uma naturalidade ímpar. Superar dificuldades e desafios juntos, com um dando força pro outro, faz a coisa andar, e perceber isso é como desvendar um segredo. Foi e tem sido gostoso saborear esses momentos. Desde os primeiros shows até aqui, todo o processo de criação, apresentação, gravação, produção, finalização do disco, e agora soltar o “filho” no mundo. É gratificante demais e vale a pena. É um processo de maturação mesmo, e que ainda nem terminou, talvez nunca termine. Não à toa o nome do disco é “Madurar”, que é o que estivemos, estamos e estaremos buscando.

Com 10 integrantes, como vocês fazem pra todo mundo se entender, não só musicalmente, mas também nos relacionamentos pessoais?
A gente conversa muito e a gente realmente se gosta. Bateu, sabe? Tem uma característica comum a todos, e que fomos evoluindo com o tempo de banda também, que é o saber ouvir e respeitar muito a opinião do outro. Em geral, as opiniões de cada um são sempre consideradas, respeitadas. Ninguém se anula de cara, sabe? Ninguém descarta a opinião do outro por achismo. Tudo se considera e se debate. Isso é bonito por aqui. O clima também, em 90% das ocasiões é de pura descontração e muita musicalidade. O tempo todo está surgindo algo, alguma ideia. Uma melodia aqui, um verso acolá, uma harmonia bonita que alguém traz. Fora isso, fora a banda, a gente está sempre tentando se ver, fazendo coisas juntos. As namoradas são todas amigas também, os pais dão a maior força. Só tem amigo mesmo.

Cada um dos membros da banda têm suas influências e gostos. Como funciona esse caldeirão no momento de compor as canções?
É nesse caldeirão funcionando que mora o segredo da Selva. É muita gente aberta em termos de referência musical, e utilizamos isso a nosso favor. Cada um soma como pode, com o que tem e com o que aprende individualmente. Algumas canções eu já trouxe mais prontas e só arranjamos, em outras a gente quebrou a cabeça, mudou tudo e foi por um caminho impensado anteriormente. Criar junto é algo que a gente curte e faz, modéstia a parte, bem.

Em tempos em que a divulgação das bandas é basicamente virtual, você já consegue identificar um perfil do público que consome Samuca e a Selva?
O que a gente percebe desse nosso público que está se formando é uma heterogeneidade interessantíssima. Tem de tudo, mesmo no virtual. Tem criança que curte a gente, manda vídeo, os pais mandam mensagem. Tem muita galera de 20 a 30 e poucos anos que é a moçada que vai pros shows e vara as madrugadas conosco, e tem também muita gente da idade dos nossos pais que está vindo falar conosco, cinquentões e sessentões. Como nosso trabalho também é bem abrangente no aspecto de gênero musical, facilita pra que isso aconteça. Tem gente que gosta mais de brasilidades, outros são mais da veia de soul, outros gostam da latinidade. Cada música é porta de entrada pra um público, e a possibilidade de ter tudo isso num único trabalho acaba sendo meio que curioso para as pessoas.

Ainda pensando nesse cenário, lançar um disco físico continua sendo importante?
Ah, sim! O mundo é tão virtual, que um material tangível faz diferença, emociona as pessoas. Tem cheiro, cor, textura. As pessoas ainda querem ler o encarte, pegar o disco, colecionar, ouvir a ordem original do álbum, fugir do shuffle. Se for em vinil, então, delícia. O vinil é a nova mídia! Já é uma realidade esse mercado. É um material lindo, que premia nosso trabalho enquanto artista e que só se valoriza com o tempo. Teremos o nosso também em 2017 e estamos ansiosos por isso.

Vocês vão viajar pelo Brasil para espalhar sua música?
Com certeza! Em 2016, a agenda já está apertada com compromissos em São Paulo capital e interior. Mas para 2017, se der tudo certo, os planos são rodar com o “Madurar” não só no Brasil como fora também. Aguardemos!

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (www.mundoplug.com), da Gazeta de Limeira.

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