A igreja comunal do Pop-Punk, 20 anos depois

por Ana Clara Matta

A primeira onda

“This small voice may be mocked by some,
but I’ve got electric speakers and cables, a mind and a sharp tongue.
Take off the crown. Burn down the throne.
Please understand that I only do this to feel less alone.”
Broadway Calls, Sundowners

Um dos maiores clichês da história é aquele dito por cada geração que é desbancada nesse jogo de jovens chamado rock, a máxima favorita daqueles cujos discos, e alma, cheiram a naftalina cultural: “Você tinha que estar lá, e viver aquela época, para entender”. Essa máxima tem um fundo de verdade. Alguns momentos históricos e características geracionais contaminam o próprio conteúdo da música. Claro que grande parte do que é realmente bom só é provado como bom por não ser “datado”, mas ouvir um disco hoje não traz a mesma sensação de contextualização sentimental e instantânea que ouvir um disco no momento em que ele é lançado, ou viver um movimento musical no auge de sua popularidade.

Eu tenho 26 anos e vivi o auge do Pop-Punk na idade em que você deveria ter vivido o auge do Pop-Punk para realmente compreender com o que, e quem, esse gênero dialogava. O medo de se tornar um adulto na virada do milênio, a exportação do bullying esquemático dos colégios norte-americanos aos brasileiros através dos filmes adolescentes, a internet começando a unir pequenos grupos e nichos por todo o país e acelerando modismos. Mas, olhando em retrospecto, o Pop-Punk não se torna datado exatamente porque no seu cerne reside o instinto basal do ser humano. A necessidade, quase desesperada, de se sentir parte de algo maior e aprovado pelos seus pares.

Todos que assistiram ao primeiro episódio da terceira temporada de “Black Mirror” se assustam com a nossa dependência de curtidas e notas online. Mas a verdade é que essas notas apenas se tornaram mais explícitas nas redes sociais, e a nossa vontade de encontrar um espaço em que você se sinta totalmente aceito é um dos pilares que definem tudo o que há de bom (nossa solidariedade e ajuda ao próximo) a tudo que há de mau (egomania) em nós.

O Pop-Punk, do palco à plateia, das letras à própria estrutura da música, é o gênero que coça essa coceira que temos de maneira mais visceral e primitiva. No palco, dois vocalistas intercalam, harmonizam e quase entram em um esquema que lembra o “call and response” das igrejas gospel. Na plateia, você é instruído a trombar com o outro, sentir a proximidade de forma nada metafórica, abraçar, ser passional. Nas letras, o mínimo denominador comum da virada do século. Exclusão, rejeição ao diferente, relacionamentos falhos, famílias quebradas, desejo de diversão escapista. E na música, riffs tão simples que você também pode ter a sua banda de Pop-Punk.

Enquanto o isolamento era celebrado pelo Post-Punk, essa geração via ler seus livros na biblioteca do colégio e se sentir diferente como um castigo imposto diariamente. Era algo que gerava, instantaneamente, bolinhas de papel na sua cabeça. Não existia nada de glamouroso em se isolar. Até os jogos deviam ser multiplayer, criar contato, fazer você se sentir que você não estava, de maneira alguma, sozinho em suas tristezas. Você já se sentia especial demais. Sua vontade era a do clichê.

Tudo isso está, por sinal, inscrito no nome do gênero. A forma do punk foi apropriada por esse novo híbrido, mas a vontade de formar um grupo, um nicho, se tornou mais predatorial. Os pequenos clubes não eram suficientes, tragam a gigantesca Warped Tour. Para aplacar a vontade de pertencimento desse novo gênero ele deveria abandonar tudo que, no punk, era inventado para alienar o mundo exterior, criar aversão ou excluir o “poser”. As roupas e a estética tinham que se suavizar. O pop, então, foi trazido, formando a combinação que até hoje parece improvável ou quase contraditória de dois gêneros.

Se o Pop-Punk era tão digerível, qual foi o motivo do seu sumiço por alguns anos? Não sei ao certo. Quando o Green Day virou seu foco para discos conceituais, política e músicas de 9 minutos, a simplicidade comunal se perdeu. Mas agora que ele voltou, ele voltou profundamente diferente.

A segunda onda

“And these songs that I sing won’t do anything, but get us to the next town,
and the next town, and the next town.
So just wrap me up and tuck me into bed.
I’ve got too much pessimism in my head.
You’ve suffered way too long, and I’m sorry boys, I’m sorry boys.
This is my final self pity song.”
Broadway Calls, Give Up The Ghost

A maior diferença entre o adolescente e o adulto é que a vida adulta te força a assumir a responsabilidade por seus problemas. O adolescente não se pergunta “porque eu sou incompreendido pela sociedade?”. Você simplesmente o é, e nada disso, em nenhum nível, é culpa sua. Todas as bandas de Pop-Punk envelheceram, e com isso, a auto-piedade que movia cada disco secou e se tornou a consciência dura de que somos os motores de nossos próprios problemas.

Após atingir a sua maturidade, o Pop-Punk ressurgiu em 2015/16, e dois discos que representam essa volta mostram duas abordagens diferentes. O Jimmy Eat World escolheu se tornar consciente de sua idade e fazer pop-punk sobre depressão, estagnação, até mesmo divórcio. O Blink-182 resolveu se congelar em um estágio eterno de 16 anos. E de maneira incoerente com as raízes adolescentes do gênero, a alternativa da primeira banda se tornou muito mais atraente, e influente, nesse momento.

Essa divergência não está apenas no conteúdo das letras, mas inscrita na própria forma da música. Pedais e efeitos afogam o som do Jimmy Eat World em “Integrity Blues” e suavizam a urgência do Pop-Punk, fazendo a banda soar cada vez mais como um grupo de emo dos anos 90, enquanto em “California” o Blink 182 se apoia na fúria da bateria de Travis Barker e nas harmonias de seu mais novo membro, Matt Skiba, que há poucos anos tentou manter o espírito do Alkaline Trio vivo com um dos melhores discos recentes do gênero, “My Shame is True”.

Até mesmo as bandas de gerações posteriores estão se dividindo nesses dois modus operandi. Against Me se posiciona por um tipo de necessidade de aceitação muito mais sério, em lutas ativistas pela população Trans. Modern Baseball lançou, em 2016, um disco belíssimo, que nasceu de problemas pessoais graves de seus vocalistas e parece, em cada música, pedir desculpas para aqueles que se machucaram com o seu comportamento egoísta durante a primeira onda, a adolescência. Na contra-mão, o Joyce Manor tenta injetar a vitalidade jovem novamente para o Pop-punk, porque, afinal, adultos não precisam do Pop-Punk. Adultos não precisam de se sentir aprovados, de encontrar os seus pares em um show, de trombar vigorosamente com seus amigos em uma pista para se sentirem parte de algo maior.

Será?

– Ana Clara Matta (@_ana_c) é editora do Rock ‘n’ Beats e do Ovo de Fantasma. Na montagem de fotos que abre o texto, Jimmy Eat World em 1999 e em 2016 (as duas fotos são de divulgação).

Leia também:
– “California”, do Blink 182, apresenta mais pontos positivos do que negativos (aqui)
– “Good Mourning”, do Alkaline Trio, hardcore melódico com letras sentimentais (aqui)

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