Entrevista: Lestics (2016)

por Marcelo Costa

Eles sugiram despretensiosos com dois belíssimos discos gravados em home studio em 2007 (“9 Sonhos” em março e “les tics” em outubro) e foram, ano a ano, disco a disco, maturando uma sonoridade que alcançaria a maturidade em “Aos Abutres” (2010) e, de lá para cá, exibiria uma banda ciente de suas próprias necessidades (sonoras e poéticas). “A banda faz poucos shows (…). Nossa produção acaba ficando muito focada nos discos, e nisso rola uma urgência, quase uma compulsão. Os sete álbuns em nove anos (fora os singles) são o resultado dessa necessidade compulsiva de produzir”, conta Olavo Rocha, vocalista e letrista.

“Torto”, o sétimo disco do Lestics, traz nove canções compostas em nove ensaios e foi gravado totalmente ao vivo em estúdio. O resultado é o disco mais rock, mais encorpado sonoramente da banda. “Bem vindo ao desconforto você que acabou de chegar / Por aqui quanto mais torto, mais bem vindo alguém será”, canta Olavo na primeira frase da faixa título, que abre o álbum e dá o tom sombrio que se seguirá disco adentro. “Eu digo que fizemos ‘Torto’ envenenados pela realidade. Acho que o verso do disco que melhor resume essa sensação é o ‘Isso aqui não é pra você, mesmo assim é preciso ficar’”, diz o letrista.

Como fez em todos os lançamentos anteriores, o Lestics liberou “Torto” gratuitamente para download em seu site oficial, mas o álbum também está disponível nos portais de streaming (ouça no Spotify) tanto quanto ganhou uma belíssima edição especial com fotos do baixista Marcelo Patu (“que já tinham muito essa cara minimalista e seca do disco”) num livreto “em esquema artesanal, costura e papel japoneses, a parada toda”, segundo Olavo. Abaixo ele fala da arte caprichada do álbum, dos dias atuais e muito mais. Confira!

Como você observa a trajetória do Lestics, uma banda que começou como um projeto paralelo, de certa forma despretensioso, e hoje já soma sete discos em uma bela discografia?
Eu vejo o Lestics meio como um trem desgovernado. De vez em quando a gente até procura o freio, não acha, e então segue compondo, gravando, lançando discos… A banda faz poucos shows, porque pra gente é embaçado tocar fora de São Paulo. Nossa produção acaba ficando muito focada nos discos, e nisso rola uma urgência, quase uma compulsão. Os sete álbuns em nove anos (fora os singles) são o resultado dessa necessidade compulsiva de produzir.

Esse é o primeiro disco que vocês gravam ao vivo em estúdio? Como foi o processo de composição de “Torto”?
A ideia do “ao vivo” já tinha nos tentado antes, mas as músicas sempre acabavam ganhando arranjos que não cabiam nesse esquema de gravação. Em “Torto” a coisa toda foi na direção de um disco mais cru, e portanto mais fácil de gravar ao vivo. Eu já tinha algumas letras, os guris tinham algumas ideias musicais, e a gente foi construindo as músicas nos ensaios, de um jeito absurdamente fluido (foram exatos 9 ensaios pra compor as 9 músicas). Cada vez que entrávamos no estúdio um de nós falava “vejam bem, rapazes, nenhuma obrigação de sair daqui de novo com uma música pronta, hein?” e fazia aquela cara de quem sabe que tá ganhando um campeonato na pura sorte… Só que toda vez a gente saía com a bendita da música pronta! E no processo fomos sacando que não tinha que ter mais nada ali além de guitarra, baixo, bateria e voz. Aí na hora de gravar não tivemos dúvida, fomos pro mesmo estúdio dos ensaios e gravamos ao vivo. Depois o Caio fez um ou outro overdub de guitarra, o trio de cordas gravou em “O Esquimó”, e pronto.

Vivemos uma realidade meio “torta”, não? Ainda que essa coisa de bolha dê certo conforto, afinal não estamos sós, como é construir um disco em meio a esse caos?
Acho que a gente tá vivendo uma espécie de antiutopia. Uma realidade difícil de engolir pra quem estava enxergando, ou querendo enxergar, alguns sinais de que as coisas (em termos civilizatórios) poderiam melhorar. Agora muita ficha caiu, muitas máscaras caíram, e a gente fica com uma sensação de desmoronamento que talvez seja fruto de uma ingenuidade prévia nossa. As violências, as arbitrariedades, as omissões e silêncios criminosos, as intolerâncias, as imposturas – tudo isso que nos abate agora não são dados novos de realidade. Sempre estiveram por aí e ganharam nova força como reações naturais à ideia de que alguma coisa poderia sair do script histórico de dominação e exploração e do foda-se-o-outro. Não tô aqui falando de política, ou só de política, mas de estrutura e organização social. Nessa situação, ficar na bolha também é desconfortável, porque a gente interage com o que rola “lá fora” e se sente muito impotente e alienado aqui dentro. Pra voltar a falar de música, isso tudo de uma certa forma está no disco. Eu digo que fizemos o “Torto” envenenados pela realidade. Acho que o verso do disco que melhor resume essa sensação é o “isso aqui não é pra você, mesmo assim é preciso ficar”. A gente tá num lugar lamentável e vai ter que chupar essa manga.

Nós vamos sortear no Scream & Yell duas cópias da versão limitada de “Torto”, com uma arte bastante especial. Fale um pouco dessa arte e sobre como o trabalho gráfico está ligado ao Lestics, afinal vocês sempre capricham no material final (lembro que “Hoje”, o terceiro disco de vocês, de 2009, teve três capas diferentes)…
A gente sempre tentou cuidar bem das artes, mas essa edição especial do “Torto” é um caso à parte, é muito capricho… Eu estava trabalhando nas artes com uma série de fotos do Marcelo Patu (nosso baixista-fotógrafo), que já tinham muito essa cara minimalista e seca do disco. Aí um dia me caiu na mão o livro (“Afundo”) que ele tinha editado com as fotos, em esquema artesanal, costura e papel japoneses, a parada toda… Eu fiquei maluco, falei pra ele que a gente tinha que dar um jeito de fazer uma edição do álbum com aquela arte e acabamento. O Sérgio, irmão do Patu, que tinha cuidado do livro, acabou produzindo uma série limitada, que a gente está distribuindo a conta-gotas.

Senti falta das letras no encarte, muito porque acho as letras do Lestics repletas de imagens interessantes, algo que é meio difícil encontrar no cenário nacional nos últimos anos. Algum motivo para deixa-las de fora?
Neste caso a gente preferiu deixar as fotos estabelecerem o clima. Colocar as letras ali ia embolar um pouco o discurso, foi esse o raciocínio.

Além do Lestics, você também acabou de lançar o segundo disco d’Os Gianoukas Papoulas. Que doidera é essa de lançar dois álbuns praticamente ao mesmo tempo? Onde começa uma banda e onde termina a outra?
Foi doideira, mas foi sem querer, haha! Começamos a trabalhar no disco dos Gianoukas Papoulas bem antes do “Torto”, mas em algum momento, por coincidência, os processos se parearam. Aí foi bem maluco, arranjando, gravando, mixando os dois discos ao mesmo tempo. Quase deu tilt aqui na cachola… O legal é que as duas bandas têm histórias, propostas e métodos bem diferentes. Apesar do trancetê de pessoas (o Caio, guitarrista do Lestics, gravou o Olinka Stutz; o Umberto veio comigo dos Gianoukas para o Lestics, depois saiu do Lestics e agora está só nos Gianoukas), cada uma tem seu território bem delimitado.

Em nove anos de banda, o Lestics já lançou sete álbuns. Seria possível você selecionar uma música de cada álbum (explicando o motivo) para observarmos essa trajetória sonoramente?

Legal!

“Elefantes” (“9 sonhos”): bom, essa é uma música sobre elefantes voadores baseada em um sonho que eu realmente tive, e é muito simpática.

“Ego” (“les tics”): a faixa que fecha o nosso segundo disco soa esquisita, mas de um jeito interessante. Gosto da batida tosca e do slide que o Umba fez.

“Plano de Fuga” (“Hoje”): “Um fiapo de fumaça se desprende dos escombros do seu último projeto”. Acho legal termos feito um disco que começa assim.

“Parto Normal” (“Aos Abutres”): a gente tem muita música sombria, mas essa é uma janela aberta pra um dia ensolarado.

“Medo” (“História Universal do Esquecimento”): falando em músicas sombrias, o nosso quinto disco é cheio delas. Talvez por isso ele tenha passado meio batido, o que eu acho uma pena.

“Tempo de Partir” (“Seis”): tem uma das letras que eu mais gosto, narrativa, com algumas imagens bem boas. E o instrumental é uma boniteza.

“Diversão Dominical” (“Torto”): curto como tudo se encaixou direitinho pra construir o clima dessa faixa.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Gabriele Diola; a foto do álbum “Torto” é de Olavo Rocha / Divulgação.

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