O blues dos Rolling Stones

por Guilherme Olhier

No começo de outubro, os Rolling Stones acabaram com uma espera de mais de 10 anos e anunciaram um novo disco, “Blue & Lonesome”, que será lançado no dia 02 de dezembro e contará apenas com covers do blues americano. O primeiro single, “Just Your Fool”, é uma canção de 1954 de Buddy Johnson, pianista de jazz e blues de Nova York, que se tornou famosa na versão de Little Walter, bluesman de Louisiana, lançada em 1962. Uma das grandes influências dos Stones, Little Walter está no álbum com ainda outras duas canções: “I Gotta Go” e “Hate to See You Go”.

“Blue & Lonesome” é um disco muito aguardado pelos fãs, não só pela longa espera por material novo, mas principalmente pela enorme ligação dos Rolling Stones com o blues ao longo dos 50 anos de carreira da banda. Esse “casamento” vai muito além do nome, que nasceu de uma música de 1950 de Muddy Waters, “Rollin’ Stone”, lançada como single pela Chess Records.

A história oficial contada pelos próprios Keith Richards e Mick Jagger diz que em 1960 os dois se encontraram na estação de Dartford, na Inglaterra, e Jagger estava segurando dois LPs debaixo do braço: “Rockin at the Hops” (1960), de Chuck Berry, e “The Best of Muddy Waters” (1958). A partir daí, Keith e Mick iniciaram uma longa amizade por conta do amor dos dois pelo blues americano.

Já no primeiro álbum do grupo, lançado em abril de 1964, composto apenas por (12) covers, três ótimos blues foram escolhidos: “I’m a King Bee”, de Slim Harpo, “Honest I Do”, de Jimmy Reed (um obsessão de Keith) e “I Just Wanna Make Love to You”, de Willie Dixon, mas baseada na versão de Muddy Waters, que foi um dos primeiros grandes hits dos Stones na Inglaterra.

Se em Liverpool, os Beatles bebiam na fonte do soul da Motown, em Londres os Stones reviravam os discos da Chess Records, selo de Chicago e um dos principais de blues nos Estados Unidos, que contava com praticamente todos os nomes de peso do gênero: Muddy Waters, Willie Dixon, Little Walter, Howlin Wolf, John Lee Hooker e Buddy Guy – para citar os principais.

O segundo álbum dos Stones lançado nos Estados Unidos, “12X5”, em outubro de 1964, trazia as primeiras composições da parceria Jagger/Richards, mas o blues também está presente no cover de “Confessin the Blues”, de Walter Brown, gravada originalmente em 1941. A versão inglesa do álbum, “The Rolling Stones Nº2”, trazia “I Can’t Be Satisfied”, mais um cover de Muddy Waters.

No documentário “Keith Richards: Under the Influence”, o guitarrista conta que, no começo os Stones, eles tinham uma missão de conquistar cada vez mais adeptos do blues. “Eu sabia que nunca conseguiríamos tocar como Muddy, então nós aceleramos e todo mundo curtiu”, explica Keith.

A ideia dos ingleses era justamente prestar uma homenagem a seus grandes ídolos e ao mesmo tempo resgatar o interesse das pessoas pelo blues, que na metade dos anos 60 estava esquecido até mesmo nos Estados Unidos. Ou que no fundo talvez nunca tivesse sido lembrado, já que o País tinha problemas seríssimos de segregação racial, principalmente no Norte e no Sul, justamente os lugares de onde vinham a maioria dos artistas de blues.

Em maio de 1965 essa homenagem entrou para a história. Pouco depois de terem lançado o seu terceiro álbum nos Estados Unidos, “The Rolling Stones Now”, que também contava com um grande cover de Willie Dixon, “Little Red Rooster”, os Stones se apresentaram no popular programa Shindig, da rede de TV norte-americana ABC, com a exigência de que só participariam se Howlin’ Wolf estivesse junto. Com isso deram às boas vindas do blueseiro à América e essa foi a primeira aparição de Wolf em um programa de TV em seu próprio país. A música que Wolf tocou foi “How Many More Years”, que quatro anos mais tarde se transformaria em “How Many More Times” pelo Led Zeppelin, outro grupo britânico viciado em blues norte-americano.

Buddy Guy, que tocou guitarra no clássico de Wolf, “Killing Floor”, afirma que foi “uma luz no fim do túnel”. “Havia uma linha que ninguém pensava que poderia ser cruzada e os Rolling Stones a quebraram levando Wolf naquele programa.” O escritor e crítico musical Peter Guralnick, especializado na história dos primórdios do rock’n roll, listou o episódio como um dos 10 maiores momentos da televisão de todos os tempos e um dos mais significantes momentos na história cultural. E, de fato, foi muito importante. O biógrafo de Brian Jones, Paul Trynka, afirmou que a aparição de Wolf no Shindig “construiu uma ponte em cima de um abismo cultural e conectou a América com a sua própria cultura negra”.

Em dezembro do mesmo ano, os Stones lançaram mais um cover de Muddy Waters no disco “December’s Children (And Everybody’s)”. A canção “Look What You’ve Done” havia sido gravada mais de um ano antes, em Junho de 1964, e reaproveitada para o disco.

Nos dois anos seguintes – com os discos “Aftermath” (1966), “Between the Buttons” (1967), “Flowers” (1967) e “Their Satanic Magic Request” (1967) – os Stones decidiram que era a hora de fazer álbuns priorizando as composições próprias e assim deram uma pequena pausa nos covers e entraram na onda psicodélica do “flower power”, fortemente influenciada pelo LSD e também pelos seus padrinhos The Beatles e os clássicos “Revolver” (1966) e “Sgt Peppers Lonely Heart Club Band” (1967).

Problemas com o passado
Percebendo que a praia deles era mesmo o blues e o country, os Stones voltam às raízes em 1968 e lançam um de seus melhores álbuns, “Beggars Banquet” (que abre o período de ouro da história da banda, que se seguirá até “Exile on Main Street”, de 1972), que em sua maioria conta com músicas acústicas recheadas de passagens blues. O álbum seria o último com a participação de Brian Jones, que já estava afundado nas drogas e mal aparecia nas sessões de gravação.

Uma das faixas de “Beggars Banquet” tem uma história curiosa e que lhes rendeu um processo na justiça. “Prodigal Son” é uma versão encurtada da original gravada pelo blueseiro Robert Wilkins em 1964, ao vivo no Festival de Newport, que por sua vez é uma versão estendida e com letra diferente de “Thats No Way To Get Along”, também dele, gravada 35 anos antes. Em 1º de Março de 1969, o crítico musical Tony Glover escreveu uma matéria sobre o caso na revista Rolling Stone, afirmando que no primeiro encarte do disco, com a famosa capa do banheiro e que havia sido censurada nos Estados Unidos, a faixa estava corretamente creditada à Wilkins. Com a mudança da capa, o crédito passou para Jagger/Richards, o que acarretou no processo para os ingleses e muito dinheiro para Wilkins. Anos mais tarde, no início dos anos 80, na reedição de “Beggars Banquet” com a capa original, o crédito retornou à Wilkins, que aproveitou para lançar um álbum com músicas antigas batizado de “The Original Rolling Stone” (1980), incluindo, é claro, “That’s No Way to Get Along”.

Em julho de 1969, a banda fica abalada com a morte de Brian Jones, que foi encontrado morto na piscina de sua fazenda em Cotchford Farm, em Sussex na Inglaterra. Em dezembro do mesmo ano é lançado o álbum “Let It Bleed” e com ele vieram mais problemas com direitos autorais. Desta vez com um cover de Robert Johnson, “Love in Vain”, originalmente gravada em 1937 e lançada com o nome “Love in Vain Blues” em 1939, após a morte de Johnson (aos 27 anos em agosto de 1938), sendo um de seus últimos singles 78 RPM oficiais.

Em 1969 não havia tanta informação circulando sobre Robert Johnson, e muita gente acreditava que todo o material gravado pelo bluesmen havia sido reunido na histórica coletânea lançada pela Columbia em 1961, incluindo Keith. “Por um tempo pensamos que as músicas que estavam naquele primeiro álbum, ‘King of the Delta Blues’ (1961), eram as únicas gravações que Robert Johnson tinha feito. Então de repente, em torno de 67 ou 68, começa a circular uma segunda versão de ‘King of the Delta Blues’, bootleg, que trazia ‘Love in Vain’ (essa versão seria oficializada em 1970), uma canção tão bonita que eu e Mick amamos. Eu e Gram Parsons procuramos uma maneira nova de toca-la”, explica Keith. “Mudamos bastante o arranjo”, comentou Mick Jagger em 1995. “Colocamos acordes extras e a deixamos mais country”.

Creditada em “Let It Bleed” a Woody Payne, um dos pseudônimos de Robert Johnson, “Love in Vain” reapareceu no disco ao vivo “Get Yer Ya-Ya’s Out!”, lançada em 1970, com crédito de “Canção Tradicional” (sem menção a Johnson) e arranjo de Jagger / Richard, o que levou ao processo. A banda acreditava que a música já havia entrado em domínio público, mas uma ação judicial foi aberta e posteriormente, apenas no ano 2000, decidiu-se que a música, juntamente com “Stop Breakin’ Down Blues”, também de Johnson (que os Stones regravariam mais pra frente, sem crédito), não entrariam em domínio público e os direitos pertenceriam aos sucessores do músico.

Mostrando a língua
Os anos 70 começaram muito bem para os Stones, que romperam o contrato com a gravadora Decca e agora teriam mais liberdade na produção dos seus discos com o seu próprio selo Rolling Stones Records. O primeiro álbum desta nova fase foi “Sticky Fingers”, lançado em abril de 1971, e também foi a estreia do novo guitarrista, Mick Taylor, que tinha uma grande bagagem no blues, já que havia tocado durante dois anos no John Mayall & The Bluesbreakers. Outros grandes nomes que também passaram pelos Bluesbreakers foram Eric Clapton e Jack Bruce, que mais tarde formariam o Cream, e também Peter Green, que acabou se tornando o líder da primeira fase mais blues do Fleetwood Mac. Clapton, inclusive, tocaria no álbum, mais precisamente em “Brown Sugar” – a versão seria liberada apenas na reedição comemorativa do álbum lançada em 2015.

Voltando a 1971, ao comandar o próprio selo, os Stones não precisavam mais se preocupar com palpites externos, incluindo a capa dos álbuns, que haviam sido um problema no passado. Para “Sticky Fingers”, a arte marcante ficou por conta de Andy Warhol e a primeira versão do LP trazia um zíper na foto da calça, que podia ser aberto e então era revelada uma cueca com o nome do artista escrito. Foi neste álbum também que um dos logos mais famosos da música apareceu pela primeira vez: a icônica língua de fora, criada pelo art designer inglês John Pasche.

No som, a maior parte de “Sticky Fingers” foi gravada no estúdio móvel criado pela banda e contava com mais um cover de peso: “You Gotta Move”, baseada na versão com guitarra slide gravada em 1965 pelo blueseiro Fred McDowell, mas a música é uma tradicional canção gospel dos anos 40 que ganhou diversas regravações de artistas do gênero, incluindo uma versão de 1950 da guitarrista Sister Rosetta Sharpe, considerada a verdadeira precursora do rock n’ roll, que influenciou Chuck Berry e Elvis Presley.

“Sticky Fingers” também trazia “I Got the Blues”, um blues/soul composto por Mick e Keith e que contou com a participação de Billy Preston no órgão Hammond. A música é bastante semelhante a uma balada do soulmen Otis Redding, “I’ve Been Loving You Too Long”, que já havia sido gravada pelos próprios Stones em 1965.

No exílio
Na primavera de 1971, atolados em dívidas por conta dos altos impostos da receita inglesa (e desejando fugir dos traficantes que abasteciam o cotidiano do grupo), a banda decide se exilar no sul da França e alugar uma mansão perto de Nice. Lá foram feitas intermináveis sessões de gravação – regadas a drogas de todos os tipos (eles conseguiram fugir da receita, mas não dos traficantes) – que se tornariam o álbum duplo “Exile on Main St.”, lançado em maio de 1972 e considerado por muitos o melhor álbum da banda até hoje.

“Exile on Main St.” conta com dois ótimos covers: “Shake Your Hips”, gravada originalmente em 1965 por Slim Harpo e presente aqui numa versão que quase não traz mudança nenhuma em relação à original, incluindo os vocais de Mick, que se aproximam muito do timbre de Harpo. A segunda é “Stop Breaking Down”, de 1938, composta por Robert Johnson, mas que no álbum dos Stones seguiu o padrão de registro de “Get Yer Ya-Ya’s Out!”, com a banda creditada como arranjadora e a canção como “Traditional” (de domínio público), o que levou ao processo movido – e ganho – pelo espólio de Johnson (na reedição de “Sticky Fingers” de 2015, Robert Johnson aparece corretamente creditado). A única vez que os Stones tocaram “Stop Breaking Down” ao vivo foi durante a turnê do álbum “Voodoo Lounge”, em 1994, que foi filmada e se tornou um DVD mais tarde.

Uma noite de blues
Durante a metade dos anos 70 e praticamente toda a década de 80, os Stones decidem flertar com outros ritmos musicais, nadando na corrente das batidas eletrônicas e música disco da época. Mas em novembro de 1981, no auge das turnês gigantescas e começando a lotar estádios por onde passavam, a história foi outra e mais uma vez os Stones jogaram todos os holofotes nos seus heróis do blues em um show intimista em Chicago.

Na verdade, os ingleses foram assistir a um show de Muddy Waters no Checkerboard Lounge e não demorou muito, cinco músicas para ser exato, para um a um serem chamados ao palco para se juntar ao blueseiro em “Baby Please Don’t Go”. Depois disso, o gelo estava quebrado e finalmente a banda fez uma verdadeira jam com o seu herói em um palco pequeno, colocando também um pouco do estilo inglês em clássicos como “Hoochie Coochie Man” e “Mannish Boy”. O show ainda conta com as participações de Buddy Guy e Junior Wells. Felizmente o encontro foi gravado e posteriormente se tornou o CD e DVD “Live at Checkerboard Lounge, Chicago 1981” e é um belo registro para admirador nenhum do blues botar defeito.

Se em discos de estúdio, os Stones se concentrariam em material próprio a partir dos anos 80, ao vivo a banda continuaria rendendo homenagens aos seus heróis. “Still Life”, o álbum que registra a turnê de 1981 da banda, é mais voltado ao soul com canções de Smokey Robinson and The Miracles (“Going to a Go-Go”) e dos Temptations (“Just My Imagination”), entre outras. Em “Flashpoint” (1991), álbum que flagra a turnê mundial do álbum “Steel Wheels” (1989), a banda mostra “Little Red Rooster”, de Willie Dixon, que volta a ser reverenciado em “Stripped”, o álbum acústico lançado em 1995, com uma versão de “Little Baby”, gravada originalmente por Howlin’ Wolf – “Love in Vain”, de Robert Johnson, também é revista no álbum.

Willie Dixon seria lembrando pelos Stones ainda na turnê “No Security”, de 1997/1998, com uma versão de “I Just Want to Make Love to You” (presente apenas na versão japonesa do álbum), enquanto BB King seria homenageado na turnê “Live Licks”, de 2004, com uma versão de “Rock Me Baby”. Para o filme “Shine a Light”, registrado por Martin Scorsese em 2006 e lançado em 2008, a banda escolheu “Champagne & Reefer”, de Muddy Watters, e convocou Buddy Guy para tocar na canção.

Corte para 2016. A expectativa dos fãs aumenta a cada dia para o lançamento de “Blue & Lonesome”, que mais uma vez reverenciará o blues por uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Só o tempo dirá se o disco será um grande clássico na extensa discografia da banda, mas é certo que os Stones sempre estiveram junto do blues, mas nunca solitários. Abaixo você confere as 12 faixas que estarão no disco, e que encerram um ciclo de mais de 50 anos não só dos Stones, mas da própria música pop. Afinal se eles estrearam em 1964 com um disco que trazia 12 covers, “Blue & Lonesome”, com suas 12 covers, leva o Stones de volta ao início.

01 – “Just Your Fool” , de Buddy Johnson (2:16)
02 – “Commit a Crime”, de Howlin’ Wolf (3:38)
03 – “Blue and Lonesome”, de Memphis Slim (3:07)
04 – “All of Your Love”, de Magic Sam (4:46)
05 – “I Gotta Go”, de Little Walter (3:26)
06 – “Everybody Knows About My Good Thing”, de Miles Grayson e Lermon Horton (4:30)
07 – “Ride ‘Em On Down”, de Eddie Taylor ( 2:48)
08 – “Hate to See You Go”, de Little Walter (3:20)
09 – “Hoo Doo Blues”, de Otis Hicks e Jerry West (2:36)
10 – “Little Rain”, de Ewart G. Abner Jr. e Jimmy Reed ( 3:32)
11 – “Just Like I Treat You”, de Willie Dixon (3:24)
12 – “I Can’t Quit You Baby”, de Willie Dixon (5:13)

– Guilherme Olhier (@guilhermeolhier) é, segundo descrição no Twitter, um jornalista saudosista

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