Boteco: 10 cervejas brasileiras

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de cervejas nacionais com duas cervejas artesanais caseiras. A primeira é do Júlio Campos com sua caseira Cavalo Cascade Single Hop IPA, uma cerveja de 6% de álcool e 40 de IBU presentes e eficientes. “Usei praticamente só malte Pale Ale, tem umas 200g de Carapils, mas de resto é só Pale mesmo”, conta Júlio, que exercitou a receita até deixa-la redondinha. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar alaranjada com creme branco bonito e espesso, de boa formação e permanência. No nariz, a força do lúpulo norte-americano Cascade, que distribui notas cítricas (maracujá e abacaxi) e leve herbal sobre uma base maltada que sugere caramelo. Há, ainda, leve condimentação e presença terrosa. Na boca, a textura é levemente picante. O primeiro toque traz rápida doçura seguida de amargor potente, que deixa um rastro pelo caminho acrescentando notas cítricas e herbais. O final é amarguinho e caramelado. No retrogosto, mais amargor, suave, e leve herbal e cítrico. Muito boa!

A segunda artesanal da sequencia foi planejada em São Paulo, mas produzida pela Cervejaria Ograner no Rio especialmente para a paulistana Camarada Lupulowski Cervejaria. Trata-se da Miyamoto Musashi, uma Imperial West Coast Oatmeal IPA com 8% de álcool e 68 IBUs. De coloração âmbar acastanhada levemente turva com creme bege claro expansivo gerando um leve gushing, mas permanecendo na taça durante um bom tempo, a Miyamoto Musashi IPA exibe um aroma intensamente lupulado com presença herbal (pinho), leve resina, frutado cítrico (maracujá) sobre uma base maltada. Na boca, textura cremosa e picante. O primeiro toque traz rápida doçura seguida de uma pancada herbal que antecipa a porrada do amargor, profundo, arrastado e deixando pelo caminho traços de resina, pinho e maracujá. O final é moderadamente amargo. No retrogosto, mais amargor, herbal e resina. Muito boa (2).

A terceira da sequencia vem de Porto Alegre e já havia passado por este espaço seis anos atrás, e merecia uma revisão. Trata-se da La Brunette, uma Stout da cervejaria Schmitt, que exibe um belo rótulo e uma coloração marrom bastante escura, quase preta, com creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, um forte acento de nozes impressiona seguido de derivados da torra com café em destaque e chocolate amargo discreto. Na boca, a textura é quase cremosa e metálica. O primeiro toque reforça a percepção de nozes seguida de leve café, chocolate e algo que sugere sabão. O amargor é derivado da torra e é médio abrindo caminho para um conjunto leve, que permanece nessa tríade de nozes, chocolate e café, sem aprofundar nenhum deles. O final é maltado e um tiquinho terroso. No retrogosto, nozes e café.

Grande campeã do Concurso Mestre Cervejeiro Eisenbahn, edição 2015 (relembre as outras vencedoras aqui), a Eisenbahn Flecheira é uma Irish Red Ale com receita de Leandro Marques. De coloração âmbar avermelhada com creme bege claro espesso de boa formação e média alta retenção, a Eisenbahn Flecheira exibe um aroma com delicadas notas maltadas trazendo algo de frutado (ameixa vermelha e cereja distante), doçura de caramelo e leve toffee. Há ainda um discreto defumado. Na boca, textura áspera com leve metálico. O primeiro toque oferece mais toffee do que o aroma adianta seguido de suave doçura caramelada e amargor médio e eficiente. Dai pra frente, o frutado é relegado ao segundo plano enquanto doçura de caramelo e toffee (com leve aceno defumado) tentam chamar a atenção. O final é maltado. No retrogosto, toffee, caramelo e distante frutado. Uma boa Irish.

Minha quinta cerveja da Cervogia é a primeira versão da Pilsen da casa, que leva o nome de PI 01 e utiliza os lúpulos Hallertau Magnum e Tettnanger (na PI 02, muito boa, o único lúpulo usado era o Saaz). De coloração dourada com creme branco espesso de excelente formação e retenção, a Cervogia PI 01 apresenta um aroma bastante maltado com sugestão de biscoito, trigo, pão e leve caramelo. Há, ainda, delicadas notas herbais e florais. Na boca, a Cervogia PI 01 apresenta uma textura frisante, picante e um tiquinho metálica. O primeiro toque oferece doçura caramelada acompanhada de leve herbal e forte terroso seguidos de um amargor baixo (14 IBUs), mas de responsa, que conseguem provocar o paladar e abrir caminho para um conjunto eficiente e refrescante, que finaliza levemente amarguinho e terroso. No retrogosto, biscoito, terroso e refrescancia. Uma bela Bohemian Pilsener.

A próxima também é da Cervogia, como se percebe pelo rótulo. Trata-se da AP 03, a terceria American Pale Ale da casa que nesta versão utiliza os lúpulos Nugget, Centennial e Cascade. De coloração âmbar caramelada translucida com creme bege claro de ótima formação e média alta permanência, a Cervogia AP 03 é bastante aromática com notas herbais (pinho e grama cortada), frutadas (manga e maracujá) e florais deitando-se sobre uma base cativante de mel, biscoito e caramelo. Na boca, textura suave, quase cremosa. O primeiro toque traz doçura de mel rápida seguida de embalo cítrico (maracujá) e herbal (pinho) suaves, mas envolventes, que preparam o bebedor para o amargor respeitoso, com seus 32 IBUs muito bem distribuídos. Dai pra frente surge um conjunto delicioso, com maltes e lúpulos em perfeita sintonia e equilíbrio. O final é maltado e amarguinho. No retrogosto, leve adstringência, pinho e cítrico. Muito boa!

A sétima da série é a primeira dos dois lançamentos da Japas Cervejaria, união da designer Yumi Shimada com as cervejeiras Fernanda Ueno (Colorado), Maira Kimura (2Cabeças) e Carol Okubo (Invicta). Produzida na fábrica da Invicta, a Japas Matsurika é uma Bohemian Pilsener que recebe adição de pétalas de Jasmin (Matsurika é uma das formas de se referir à flor no idioma japonês). De coloração dourada com creme branco de boa formação e permanência, a Japas Matsurika apresenta um aroma interessante que combina notas herbais e florais suaves com doçura maltada sugerindo caramelo. Na boca, textura suave. O primeiro toque repete o que o aroma adianta com herbal, floral e doçura juntos abrindo caminho. O amargor é baixo (27 IBUs), mas consegue deixar sua marca em um conjunto que valoriza a doçura maltada, mas consegue oferecer um leve diferencial herbal/floral. O final é levemente maltado e herbal, sugestões que retornam no retrogosto.

A segunda da Japas Cervejaria é a Wasabiru, uma American Pale Ale que recebe adição de Wasabi (Biru, no idioma japonês, significa cerveja), um tempero (verde e picante) em pasta utilizado (e bastante comum) na culinária japonesa além do lúpulo (japonês) Sorachi Ace. De coloração amarela levemente alaranjada e turva com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Japas Wasabiru apresenta um aroma totalmente voltado para o Wasabi, que domina a percepção sugerindo ervas. Há, ainda, sugestão de arroz e leve herbal. Na boca, a textura é levemente áspera e picante. O primeiro toque mantém o Wasabi como destaque, e ele segue brilhante ao atravessar a barreira de amargor (45 IBUs) com suas características que sugerem uma aproximação com eucalipto e gengibre, mas mais encorpado e não tão ardido (quanto no prato). O final é seco e herbal. No retrogosto, mais Wasabi. Interessante.


Cervejaria nova surgida em 2016 em Quatro Barras, Paraná, a Maniacs Brewing Co. (nacional, apesar do nome) marca presença aqui com sua IPA (há ainda outras três versões dessa receita: IPA 6, 9 e 12), a versão Session da casa com 4.7% de graduação alcoólica e 30 IBUs. Na taça, uma cerveja de coloração ambar clarinha com creme branco de boa formação e permanência exibe um aroma suavemente cítrico e limpo sugerindo melão e laranja. Há, ainda, leve herbal e também percepção de caramelo na base. Na boca, textura levemente áspera e picante. O primeiro toque reforça o predomínio dos lúpulos em notas cítricas e herbais suaves com leve, mas eficiente amargor. Dai pra frente segue um conjunto discreto, mas interessante para dias quentes na beira da piscina / praia. O final é amarguinho enquanto o retrogosto traz um pouco mais de amargor herbal e refrescancia. Uma cerveja ok.

Para fechar a série de 10 cervejas nacionais, um exemplar da Dama Bier, de Piracicaba, interior de São Paulo, que marca presença com sua QI, uma American Pale Ale delicadamente lupulada que exibe uma coloração âmbar caramelada com creme bege clarinho de formação boa e média alta permanência. No nariz, lúpulo à frente sugerindo notas cítricas (maracujá, e casca de laranja) e leve herbal na base (pinho). Na boca, textura cremosa com leve picância seguida de doçura caramelada cremosa e de amargor (35 IBUs) limpo e rapidamente disperso. Dai pra frente, uma cerveja caprichadamente equilibrada com notas herbais (pinho), cítricas (casca de laranja e maracujá) e doçura maltada (mel e caramelado) em perfeita sintonia. O final traz amargor suave com um leve traço de doçura, sugestões que aparecem também no retrogosto. Boa!

Balanço
Abrindo com uma representante caseira brasileira, a Cavalo Cascade Single Hop IPA, de Júlio Campos, que caprichou numa receita eficiente e saborosa, que consegue valorizar os detalhes do lúpulo norte-americano, amargar o bebedor no começo fechando com leve doçura. Muito boa! A Camarada Lupulowski Miyamoto Musashi IPA foi uma boa surpresa que só decepcionou no gushing – o resto estava ótimo! Seis anos depois que a bebi pela primeira vez, a La Brunette continua sendo uma cerveja mediana, abaixo do nível do estilo. Interessante que, desta vez, senti sugestão forte de nozes, que havia passado batido na primeira experiência. A Eisenbahn Flecheira é uma boa Irish, mas não apresenta nada além de recriar o estilo com capricho. Deveria esperar mais? Talvez sim, talvez não, mas vale experimentar. A Cervogia PI 01 é uma bela Bohemian Pilsener que fica um tiquinho atrás da 02 pelo acréscimo de Saaz nela enquanto aqui é a receita pura. Ainda assim, muito boa. A segunda Cervogia da série foi a AP 03, uma bela surpresa, caprichada, saborosa e refrescante. Primeira da Japas Cervejeira, a Matsurika é uma Bohemian Pilsener leve e interessante, que recebe pétalas de Jasmin e flocos de arroz. Boa para o verão! Já a Wasabiru pode passar uma bela rasteira em quem esperar dela uma American Pale Ale tradicional. Esqueça! O Wasabi adicionado domina a percepção do começo ao fim, e o resultado é bem interessante. Vale a pena experimentar! Discreta e simplesinha, a Maniacs IPA é uma Session muito mais APA que IPA que pode agradar neófitos. Para fechar as 10, Dama Q1, uma American Pale Ale agradável e refrescante.

Cavalo Cascade Single Hop IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,20/5

Camarada Lupulowski Miyamoto Musashi
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,19/5

Schmidt La Brunette
– Produto: Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 2,65/5

Eisenbahn Flecheira
– Produto: Irish Red Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.9%
– Nota: 3,05/5

Cervogia PI 01
– Produto: Bohemian Pilsener
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,11/5

Cervogia AP 03
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,45/5

Japas Matsurika
– Produto: Bohemian Pilsener
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,04

Japas Wasabiru
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,17/5

Maniacs IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 3,05/5

Dama QI
– Produto: American Pale ALe
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,19/5

japas

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