Entrevista: Pixies

por Daniel Tavares

O Pixies, um dos nomes mais influentes do indie rock, lançará seu novo álbum, “Head Carrier”, no mundo inteiro nesta sexta, 30 de setembro. Três canções já foram reveladas, “Um Chagga Lagga”, “Talent” e “Tenement Song”, esta com direito a videoclipe (concebido pela Krank! Collective, retratando “uma viagem de um ratinho por um bloco de apartamentos prestes a ser demolido”). No vídeo, entre outras referências à cultura pop, até David Bowie, falecido recentemente, aparece (Bowie regravou uma canção dos Pixies, “Cactus”, no álbum “Heathen”, de 2002).

Formado em 1986 nos EUA e desintegrado em 1993 (após uma sequencia matadora de álbuns influentes), o Pixies retomou as atividades em 2004, mas só foi lançar um álbum de inéditas, “Indie City”, em 2014, já com a baixista Paz Lenchantin ocupando o lugar de Kim Deal. Em 2006, os documentaristas Steven Cantor e Matthew Galkin lançaram “loudQUIETloud: a film about the Pixies”, filme que explicitava a rotina da formação original na volta aos palcos. Hoje, além de Paz, o Pixies conta com Black Francis (vocal e guitarra), David Lovering (bateria) e Joey Santiago (guitarra), que pouco dias depois desta entrevista foi internado em uma clínica de reabilitação.

“Head Carrier”, o novo álbum é o sexto na discografia da banda e conta com 12 faixas inéditas. Aproveitando a oportunidade, conversamos com Dave Lovering, baterista da banda, sobre diversos assuntos: o novo álbum (“Ele tem o som mais velho dos Pixies, com umas canções bem pegajosas”), música brasileira (“Tudo o que eu sei é que é boa pra dançar, né?”) e até mágica (“Amo close-up magic”). Durante a entrevista, quase uma promessa (“Nós provavelmente vamos fazer shows no Brasil em 2017”). E ainda sobre o disco novo, David escolheu sua canção favorita: “All I Think About Now”, cantada por Paz e com riff de guitarra que se conecta ao Pixies dos anos 80. Confira o bate papo.

Vamos direto ao ponto. O que significa “Um Chagga Lagga”?
[Risos] Eu não estou exatamente certo, Daniel. O Charles [Charles Michael Kittridge Thompson IV, o verdadeiro nome de Black Francis, vocalista e guitarrista da banda] escreveu todas as letras do álbum, especialmente desta canção. Mas eu não sei na verdade o que isso significa.

Vocês já disponibilizaram três faixas do “Head Carrier”. O que você pode antecipar do álbum para reduzir a ansiedade dos fãs?
Sim, é interessante, Daniel, porque com este álbum estou muito, muito feliz. E a razão é que, em primeiro lugar, eu amo as canções nele. Elas são perfeitas. E em segundo lugar, nós tivemos tanto tempo para realmente ensaiar para o álbum e lapidar as canções antes de irmos para o estúdio. Foi uma alegria gravar estas canções. Nós realmente estávamos muito confiantes e nos sentindo confortáveis sabendo que sabíamos tocar as canções. E isto é algo que é um luxo pra gente, porque nós não tivemos a possibilidade de fazer isso desde que éramos uma “banda bebê”, lá nos anos 80. Nós realmente sabíamos as (novas) canções muito, muito bem antes de gravar e é um luxo realmente sabê-las bem antes de entrar no estúdio e fazer a sua parte sabendo que você sabe como tocá-las e, por causa disso, elas soam melhor. Acho que elas soam melhor porque são as partes certas que saem. Então fiquei muito feliz com elas. E também neste disco temos umas canções bem rock, realmente há canções punk, rápidas, duras, o que, para mim, como baterista, eu amo tocar. Amo tocar essas canções realmente mais duras. E isto nos remete ao nosso som clássico dos Pixies. Então isso encapsula tudo. Ele tem o som mais velho dos Pixies, com umas canções bem pegajosas.

Eu escutei o álbum, mas não pude reconhecer sua voz, sinto muito. Você canta em alguma música, como fez em “La La Love You”?
Não, não neste. Acho que “La La Love You” (do álbum “Doolittle”, de 1989) é a única canção principal da banda em que cantei. Há uma outra canção chamada “Make Believe” em que cantei [“Make Believe” foi lançada no single “Velouria”, de 1990]. E isso foi porque Charles queria que eu cantasse, ele achou melhor. Neste álbum fiz um monte de vocais de apoio, mas nada como um vocal principal. A única pessoa a dividir os vocais com o Charles foi a Paz, nossa baixista, que cantou uma canção chamada “All I Think About Now”. Então, ela é a única outra voz além do Charles no “Head Carrier”.

E o que você está achando da Paz? Como você vê a reação das pessoas a ela?
Absolutamente bem. Nós já estamos com a Paz por três anos. E, número 1, ela é uma alegria com quem tocar. Ela é uma musicista maravilhosa. Ela é realmente tão boa que me fez tocar melhor, porque eu não queria ficar embaraçado diante dela [risos]. Acho que estou tocando melhor, a banda está tocando melhor por causa dela. Temos feito shows por três anos com ela e o público a ama. Nós somos muito afortunados como banda. Nós podemos ver que ela é muito bem-vinda no palco pelos fãs. Novamente, nós somos muito, muito sortudos por ter a Paz.

E sobre mágica? O projeto “The Scientific Phenomenalist” que você tem. Você ainda trabalha com mágica?
Eu ainda sou um mágico profissional, mas o meu show de palco, que é o “The Scientific Phenomenalist” está dando uma pausa agora, porque os Pixies andam tão ocupados agora, fazendo a turnê e esse tipo de coisas que coloquei a mágica “na geladeira” por enquanto. Mas, ainda, mesmo em shows, no backstage, nos restaurantes, onde quer que seja, faço mágicas. Amo close-up magic [um tipo de mágica de curta distancia onde o público é reduzido e os jogos são interativos até certo ponto]. Isto é muito mais efetivo e é o que mais amo. Entretenho com mágica desta forma, mas não num sentido de palco agora.

Eu adoraria ver alguns truques algum dia, alguma coisa. Vamos passar para os Pixies. Vocês são considerados uma das bandas mais influentes no rock. Por exemplo, o Kurt Cobain um dia disse que gostaria de estar numa banda que soasse como os Pixies. Como você vê a importância e influência da sua banda para as bandas que vieram depois?
É difícil responder isso, porque, quero dizer… quero dizer…existe o Nirvana, que falou da gente, tem o Radiohead, Weezer, David Bowie que queriam ser como os Pixies. É maravilhoso ser reconhecido, mas, para mim eu sou apenas o David. Toco bateria em uma banda por 30 anos. Não é uma grande coisa para mim e não é uma grande coisa para o resto da banda. Mais uma vez, é maravilhoso que estas bandas gostem da gente, mas não penso na influência do que eu tenha tocado e como isto afetou estas bandas. Isto é apenas o que a gente faz. Não acho que seja algo grande. Você sabe o que eu quero dizer? Sou muito modesto. Não é simplesmente uma grande coisa, mas é bacana que essas bandas gostem da gente e que essas bandas começaram por causa disso. Então, isso é maravilhoso, mais uma vez. É simplesmente maravilhoso ser reconhecido, claro. Mas eu não fico deslumbrado com isso, não é uma grande coisa.

No vídeo de “Tenement Song”, existe uma homenagem ao David Bowie…
Oh sim, sim, oh sim. Interessante que nós recrutamos uma unidade de animação para fazer isso e eles escutaram a canção e fizeram essas coisas. Mas, claro, Bowie…desde que cresci eu amava David Bowie. Ele era muito legal com os Pixies. Ele amava a banda e quando conversava comigo eu via que era um cavalheiro maravilhoso. É maravilhoso que eles tenham-no colocado na animação. Não acho que nós tenhamos pedido a eles para fazer isso, mas é uma coisa legal que eles o tenham feito, uma conexão com os Pixies. Então foi bem legal.

E o que você tem ouvido ultimamente? Que bandas você escuta hoje em dia, bandas indie ou de outros gêneros?
Ah [suspiro] realmente… quero dizer… não tenho comprado música por um longo tempo, mas ouço quando estou dirigindo em meu carro. Tenho um rádio via satélite… é engraçado porque, agora, eu tenho quase 55 anos e ainda ouço as mesmas músicas que são o tipo de som do Pixies. Ouço às estações de música alternativa via satélite. E é realmente apenas uma nova versão da música alternativa. Não consigo dar nomes a nenhuma banda em particular, mas o estilo de música que eu gosto é apenas como se fosse da minha banda, mais ou menos.

Muitos artistas reclamam de downloads ilegais, contratos abusivos de gravadoras… vocês também se engajaram numa luta contra cambistas, que elevam os preços dos ingressos para o show. O que você gostaria de dizer sobre isso?
O mundo mudou muito em termos de gravadoras e também nas vendas de ingressos, no monopólio disso. Nós, do Pixies, temos feito muitas coisas por conta própria. Nosso gerenciamento é muito bem pensado. Faz tempo que temos sido capazes de… eu quero dizer, nós temos feito turnês de 2004 em diante basicamente fazendo tudo sozinhos. Para o “Indie Cindy” não houve conexão alguma com nenhuma gravadora. Nós fizemos tudo e vendemos os CDs em nossos shows. É apenas como um tipo novo de fronteira. Agora, as gravadoras já eram. Nem todo mundo está em um selo. Então você só tem que se virar com o que tem e nós conseguimos fazer isso. E é a mesma coisa, eu acho, com a venda de ingressos. Nosso gerenciamento, nós descobrimos que há um contornar isso ao tocar em locais que não sejam de propriedade das principais intermediárias, das empresas de ingressos. E agora existe outra forma de reduzir os preços dos tickets, porque eles ficam realmente muito malucos… eu vi alguns preços de ingressos dos nossos shows que pensei: “Uau, nós realmente valemos tanto assim? Sério?” Então isso nos fez pensar no quão loucas as coisas podem ser. Não sei se vale pras outras bandas, mas nós temos conseguido fazer alguma coisa nesse novo tempo.

Ok, agora vamos pra um assunto muito interessante. Muitos dos nossos leitores no Brasil gostariam de saber quando nós vamos poder comprar ingressos para shows dos Pixies no Brasil?
Minha ideia, quer dizer, não minha ideia, mas o que eu entendo é que nós vamos fazer uma turnê, provavelmente na primavera [do Hemisfério Norte], logo que o álbum saia, o “Head Carrier”. Então vamos tirar uma folga e em 2017 vamos fazer turnê em qualquer outro lugar e isso deve incluir, mas não estou certo, América do Norte, América do Sul, Austrália, Nova Zelândia… Não tenho uma data para isso agora, mas prevejo que seja em 2017.

Ok, isto é bom saber. Uma curiosidade. Se você fosse o baterista de uma banda de heavy metal, qual subgênero você gostaria que ela fosse e, especificamente se você tem um nome em mente, em qual banda você gostaria de tocar?
Ah, meu Deus… da da da da da… essa é uma pergunta difícil, cara. Estou ficando velho, não acho que velocidade seja um dos meus fortes agora [risos]. Não seria uma de speed-metal ou algo assim. A coisa mais forte ou mais pesada que eu conseguiria seria o AC/DC. Eu gostaria de estar nessa banda, posso dizer isso.

Esta é uma questão que sempre pergunto para meus entrevistados. É sobre música brasileira. O que você sabe sobre música brasileira e se houve algum artista brasileiro que tenha tido alguma influência no seu estilo de tocar ou na sua música ou que você goste de escutar em casa se tiver oportunidade?
Ah, minhas desculpas, Daniel, não conheço muito de música brasileira, ou muito sobre música em geral. Eu acho que sou muito cabeça-pequena pra outras coisas além do rock and roll que eu toco. A única coisa que sei é que dá pra dançar com ela. [risos] É uma coisa maravilhosa sobre música brasileira.

Nós estamos chegando ao final desta entrevista e você já me disse que estarão aqui provavelmente em 2017, o que é uma notícia boa. E depois disso, o que mais podemos esperar dos Pixies, depois do álbum, depois da turnê, o que vocês tem em mente?
Bem, em 2011 nós fizemos o “Indie Cindy” (nota: o álbum foi gravado em 2011 e 2012 e lançado apenas em 2014) e este foi o nosso primeiro álbum em muito tempo. E em 2011 nós nos sentimos viáveis como banda, ficando por aí por tanto tempo. Por causa do “Indie Cindy”, o nosso modo de pensar é que nós somos uma banda. Nós gostamos de gravar. Nós gostamos de fazer turnês. É por isso que o “Head Carrier” aconteceu. E tenho certeza de que uma vez que o álbum saia, em 30 de setembro, provavelmente um mês depois nós vamos começar a pensar no próximo álbum. Então provavelmente vai haver algum outro álbum quando nós terminarmos de fazer a turnê do “Head Carrier”. Tenho certeza de que vamos fazer isso uma vez mais.

Ainda sobre o “Head Carrier”, qual canção você gosta mais no álbum?
Eu diria que é uma canção chamada “All I Think About Now”. Esta canção… É engraçado, porque todas as canções no “Head Carrier” nós tivemos semanas e semanas pra escrever e nós sabíamos que as íamos gravar. Faltavam apenas três dias para o final do nosso tempo no estúdio e a Paz, nossa baixista, disse: “Eu tenho uma ideia para uma canção”. Ela a apresentou para a gente e nós amamos. O Charles disse: “Você canta e eu escrevo a letra”. Então a Paz cantou sua canção, nós a gravamos no dia seguinte e foi surpreendente para uma canção que tínhamos acabado de aprender. E aconteceu desta ser minha canção favorita porque é a canção que soa mais parecida com o som clássico dos Pixies (nota: há uma interessante conexão com “Gigantic” nessa música). E ela foi escrita pela Paz, que está com a gente há poucos anos. Então, é meio irônico. É realmente uma canção que soa muito bem.

Eu gostaria que você terminasse essa entrevista mandando uma mensagem para todos os fãs brasileiros. Foi um prazer conversar contigo e eu espero que possamos nos ver em 2017.
Oh, foi um prazer, Daniel. E, para todo os fãs do Brasil, para todos os brasileiros, nós divertimos bastante tocando aí. Foi uma alegria da primeira vez até a última vez que nós tocamos no país. E claro, vocês são fãs maravilhosos, nos fazem nos sentir bem e nós não podemos esperar para fazer isso de novo e voltar.

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista, mora em Fortaleza e já escreveu para o Scream & Yell sobre Amadou Diallo e Bruce Springsteen (aqui) e Roberto Carlos (aqui)

Veja também:
– A primeira demo do Pixies é relançada e vale cada centavo (aqui)
– “loudQUIETloud: a film about the Pixies” é lotado de silêncios (aqui)
– “Surfer Rosa”, o primeiro disco do Pixies, faixa a faixa (aqui)
–  Esse você precisa ouvir… ‘Doolittle’, do Pixies (aqui)
–  “Indie City”:  o Pixies ainda tem lenha pra queimar (aqui)
– Download: “Mojo Book Doolittle”, um livro inspirado em Pixies (aqui)

MAIS SOBRE MÚSICA NO SCREAM & YELL

One thought on “Entrevista: Pixies

  1. Pixies nunca erra a mão! Adorei Indie City (concordo que o baixo é discreto na maioria das músicas, mas em todas há elementos da criatividade do grupo que pode explorar pequenas inovações em seu som) e essas 4 que acompanham a matéria são fantásticas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.