Boteco: 7 cervejas produzidas na Blondine

por Marcelo Costa

Abrindo uma série nacional produzida na fábrica da Blondine, em Itupeva, com a ChuchuPA, outra cerveja de marketing engraçadinho da Urbana, de São Paulo. Trata-se de uma American Pale Ale com dry hop do lúpulo norte-americano Falconers Flight e adição de… chuchu. De coloração âmbar alaranjada com creme bege de boa formação e media alta permanência, a Urbana ChuchuPA exibe um aroma que combina caprichadas notas herbais com leve doçura caramelada num equilíbrio raro na casa. Chuchu? Nada. Na boca, textura quase cremosa. O primeiro toque oferta doçura de caramelo seguida de uma leve sugestão herbal acompanhada de um suave frisante que antecipa os 40 de IBUs (não parece tanto) impulsionando o amargor, leve. Dai pra frente, uma APA bastante refrescante e saborosa. O chuchu não tem destaque na receita, mas o conjunto é um dos mais certinhos que a Urbana já fez. Final amarguinho e retrogosto com caramelo e pinho. Boa.

O terceiro lançamento da Cervejaria Brasiliana (após Madureira e Farroupilha) foi a Arretada, uma American IPA cuja receita une os lúpulos Cascade, Ella e Centennial com as pimentas Dedo de Moça, Biquinho e Arriba Saia. De coloração âmbar caramelada turva com creme bege claro de boa formação e permanência, a Brasiliana Arretada apresenta um aroma bastante caramelado com presença herbal e percepção de apimentado. Na boca, a textura é picante. O primeiro toque traz doçura de caramelo seguida rapidamente por suave herbal, cítrico e também pelo blend de pimentas, que aparece de forma equilibrada, mas de fácil percepção. O amargor é picante (52 IBUs) e, dai em diante, o conjunto mostra um perfil tradicional de American IPA (amargor marcante, mas não profundo) com a pimenta aparecendo de forma suave, mas aumentando seu poder conforme o copo esvazia (e a pimenta acumula na garganta). O final é maltadinho, amarguinho e picante. No retrogosto, caramelo, herbal e pimenta. Muito boa.

Já a Trotsky Red Ale, da nano cervejaria Tito Bier, localizada no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, foi produzida via financiamento do site de crowdfunding Social Beers, com 288 colaboradores apoiando a produção de 1200 litros da receita (com cinco maltes e lúpulos aromáticos). De coloração âmbar caramelada com creme bege espesso de boa formação e média alta retenção, a Trotsky Red Ale apresenta um aroma maltado oferecendo caramelo e pão doce com leve pegada de lúpulo herbal. Na boca, textura levemente cremosa. O primeiro toque oferece rápida doçura caramelada logo abraçada pelo amargor herbal que exibe uma lupulagem mais presente no paladar do que no aroma. O amargor subsequente é caprichado e longo (algo raro no estilo) acompanhando notas de doçura caramelada e pão que se destacam em um conjunto saboroso e eficiente. O final é maltado e amarguinho. No retrogosto, doçura e leve adstringência.

Cigana paulistana que já conta com quatro cervejas na praça, a J.Beer marca presença nessa série com sua excelente Wee Heavy, lançada oficialmente em agosto do ano passado, e já no segundo lote. De coloração âmbar acastanhada com creme bege clarinho de boa formação e média retenção, a J.Beer Wee Heavy chama a atenção no nariz por exibir um delicioso aroma de turfa, sugerindo defumado, que se destaca sobre a tradicional base de caramelo do estilo, que fica na retaguarda, ao lado de uma leve sugestão de frutas escuras. Na boca, a textura é sedosa. O primeiro toque não traz a potência turfada que o aroma prenuncia, mas sim uma leve presença (ela irá surgir mais a frente) em meio a caramelo e frutas escuras. O amargor é bastante baixo e, dai pra frente, a turfa reveza com a doçura caramelada seduzindo o bebedor. O final é turfadinho e doce, sugestões que retornam no agradável retrogosto. Muito boa!

Outra cigana paulistana, a Juan Caloto estreou seu catálogo com uma Wild West IPA e em setembro do ano passado lançaram sua segunda cerveja, Laguna D’Oro, uma Strong Golden Ale com “candy sugar, leveduras Trapist Ale e American Ale, dry hopping, refermentação na garrafa e maturação prolongada”. De coloração âmbar alaranjada com creme entre o branco e o bege clarinho de excelente formação e retenção eterna, a Juan Caloto Laguna D’Oro exibe um aroma frutado, docinho, condimentado e deliciosamente arisco, cortesia das leveduras. Há suave percepção dos 8.5% de álcool. Na boca, a textura é sedosa, quase licorosa. O primeiro toque traz doçura frutada seguida de condimentado e uma leve porrada de álcool, que faz a função de amargor. Dai pra frente, um conjunto bem interessante, que lembra a aridez de uma Saison com a graduação alcoólica de uma Belgian Golden Strong Ale. O final é picante. No retrogosto, frutado, candy sugar, especiarias e felicidade. Baita!

A sexta cerveja do passeio é da própria Blondine e atende pelo nome de Hop Damage. Trata-se de uma Imperial IPA com 7.5% de álcool, 80 IBUs (segundo o rótulo) e um Tiranossauro Rex arrotando lúpulo no rótulo. De coloração âmbar caramelada bastante turva com creme bege grudando nas bordas da taça exibindo uma ótima formação e longa retenção, a Blondine Hop Damage apresenta um aroma com notas florais e intenso frutado cítrico chamando a atenção do bebedor. Há sugestão de mamão, manga e tangerina. Na boca, textura cremosa com leve picância. O primeiro toque oferece de bandeja amargor cítrico bastante potente (não chega aos 80 IBUs, mas 60 está de bom tamanho) que traz traços frutados (mamão, manga, laranja) em primeiro plano e doçura caramelada na base. O final é amargo (mas nem tanto) e cítrico. No retrogosto, mamão, manga, grapefruit, tangerina e leve caramelo.

Fechando o septeto com outra autoral da Blondine, a Volcano Coffee Stout, que recebe adição de grãos de café arábico moídos na hora (30 Kg de café para 2,5 mil litros produzidos inseridos no momento da fervura e na maturação). De coloração marrom bastante escura com creme bege escuro espesso de boa formação e longa permanência, a Blondine Volcano Coffee Stout apresenta um aroma com café bastante nítido em primeiro plano, mas (felizmente) deixando perceber também notas suaves de chocolate amargo, suave láctico e caramelo tostado. Na boca, leve cremosa com picância de álcool (são 7.5% na receita). O primeiro toque reforça a sugestão de café seguido de chocolate amargo e láctico. O amargor (impulsionado pela torra) é de 40 IBUs justos abrindo a porta para um conjunto saboroso que finaliza longo e amargo. No retrogosto, café, chocolate amargo, caramelo tostado e amargor suave. Boa!

Balanço
Se a minha contagem não estiver errada, essa ChuchuPA é a minha 14ª cerveja da Urbana, e surpreende muito mais por ser corretinha do que pela falta de presença do chuchu no conjunto. É uma boa American Pale Ale, maltada, lupulada e refrescante. A Brasiliana Arretada é uma boa surpresa, uma American IPA amarga e apimentada, mas longe do exagero que praticamente estraga a Ballast Point Sculpin Habanero. Aqui a pimenta surge de forma sutil e vai se acumulando na garganta. Ótima! Também boa é a Trotsky Red Ale, artesanal da paulistana Tito Bier que exibe um pouco mais de lupulagem do que o estilo normalmente pede, mas faz bonito. Uma belíssima surpresa, a J.Beer Wee Heavy exibe uma deliciosa oferta de notas turfadas que encanta o bebedor, ainda que elas não devessem estar aqui. Porém, o resultado compensa a regra quebrada. Fechando o quinteto com a maravilhosa Juan Caloto Laguna D’Oro, uma Belgian Golden Strong Ale (com um pezinho no território das Saison) de se tirar o chapéu! Caprichadissima! A Blondine Hop Damage é uma saladinha de frutas lupulada, que soa um tiquinho desiquilibrada, mas, ainda assim, é bem interessante. Fechando a série, a Blondine Volcano é uma Coffee Stout gostosa, que exibe um bom amargor e um conjunto muito agradável.

Urbana ChuchuPA
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.30/5

Cervejaria Brasiliana Arretada
– Estilo: American India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.3%
– Nota: 3.31/5

Trotsky Red Ale
– Estilo: Red Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3.06/5

J.Beer Wee Heavy
– Estilo: Wee Heavy
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.45/5

Juan Caloto Laguna D’Oro
– Estilo: Strong Golden Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.70/5

Blondine Hop Damage
– Estilo: Imperial India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.18/5

Blondine Volcano Coffee Stout
– Estilo: Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3.25/5

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