Entrevista: Hateen

por Marcos Paulino

Com 22 anos de estrada, a banda de hardcore Hateen, atualmente composta por Rodrigo Koala, Fábio Sonrisal, Leon Luthier e Thiago Carvalho, está lançando seu sexto disco de estúdio, “Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui”, em parceria com o selo paulistano Hearts Bleed Blue.

“Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui”é o terceiro álbum em que o quarteto grava em português. A ideia de abandonar o inglês foi influenciada pelo sucesso das composições que Koala fez para o CPM 22. Neste CD, o vocalista revela algumas de suas fragilidades, como as perdas de controle devido à síndrome do pânico e o abuso de bebidas alcoólicas.

Crescimento pessoal e espiritual, solidão e superação são alguns dos temas abordados no disco, que tem as participações de Dani Vellocet (Mecanika) em “Passa o Tempo” e de Rodrigo Lima (Dead Fish) em “Perdendo o Controle”. Sobre o atual momento da banda, Koala deu a entrevista a seguir ao Plug, parceiro do Scream & Yell.

“Não Vai Mais Ter Tristeza Aqui” é o sexto álbum de estúdio do Hateen. Isso significa um disco quase a cada quatro anos. Está de bom tamanho?
Realmente, não fazemos discos de forma muito rápida, não. Acho que depois que passamos a cantar em português, por volta de 2005, essa distância entre um disco e outro até aumentou. Me exige demais escrever as letras de uma forma que eu fique satisfeito. E também por não sermos uma banda que pode viver exclusivamente de música, não temos tanta disponibilidade e tempo para ensaios etc., ainda mais agora que todos já somos pais. Temos que trocar fraldas, levar filhos à escola… Não é algo tão fácil conciliar tudo, até por que dependemos muito de inspiração, mas isso não é algo que se decide ter. Não dá pra falar “Vou fazer um disco novo”, se fechar numa sala e esperar que ele saia pronto em um ou dois dias, um mês… Simplesmente não funciona assim. É um trabalho árduo pra mim, que me consome física e emocionalmente. Talvez por isso demore tanto.

Nas letras, você revela alguns dramas pessoais, como os problemas causados pela síndrome do pânico e o abuso do álcool. O título do disco reflete uma certeza ou um objetivo?
Um objetivo sempre a se alcançar. O mantra da vida. Ser feliz. A busca pela felicidade, exorcizando a tristeza. Porém, o nome é bem metafórico, pois o disco é recheado de músicas mais introspectivas, que podem remeter à tristeza, mas, na verdade, representam a esperança e a vontade maior de ser feliz.

A informação de que o Hateen está completando 22 anos de atividades assusta, talvez porque a banda, apesar de todo esse tempo, não seja conhecida do grande público. Vocês também se impressionam por terem essa carreira tão longeva?
Agora olho pra trás e vejo um caminho percorrido com tanto sacrifício, que certas coisas ficam borradas, desfocadas. Me lembro dos primeiros anos da banda, onde tudo era apenas diversão e me pergunto: será que esses anos valeram tanto quanto os últimos 15, quando realmente já tínhamos objetivos em comum, músicas próprias e fazendo shows pelo Brasil? O grande público é muito preguiçoso, não conhece porque não busca por coisas diferentes. O nosso público está um pouco em cada lugar. Não somos nem totalmente mainstream e nem totalmente underground. Acho que existimos em algum lugar entre esses dois pontos.

Você é o único integrante da formação original. Considera-se um sobrevivente?
Sobrevivente? Claro, mas acho que um teimoso mesmo. Eu mesmo já pensei e tentei acabar com tudo isso algumas vezes. Não raramente, me perguntava se conseguiria, mas era tudo o que eu tinha. Então sempre mudava de ideia, pois eu precisava disso pra viver.

Interessante que o Hateen vem flertando com um som mais comercial desde que passou a cantar em português, e lá se vão 10 anos desde “Procedimentos de Emergência”. Que motivos você vê pra banda não ter conseguido mais espaço?
Acho que somos feios demais. [Risos] As pessoas querem ter ídolos bonitos. Todas as bandas que eu amo e sempre amei eram de pessoas onde o visual era o menos importante, mas no Brasil o fator visual é muito forte. Não diria decisivo, mas tem certa importância, sim. Quando nos demos conta disso, percebemos o quanto devíamos cada vez focar mais na música e cada vez menos na imagem, e é assim que temos seguido.

Por outro lado, algumas de suas composições fizeram muito sucesso na interpretação de outras bandas. Como você analisa esse fato?
As músicas são boas, criam a conexão com quem as ouve. Sei que consigo escrever boas canções. Consigo colocar sentimento em cada palavra e cada verso. Escrevo como quem ouve. Escrevo me emocionando comigo mesmo, acho que isso faz toda diferença. Já escrevi pra artistas com muita exposição na mídia, isso faz diferença na hora da música fazer sucesso. Não adianta uma música excelente sem trabalho de marketing. Quando você une as duas coisas, o resultado é sempre o sucesso.

O Hateen faz parte de uma geração que apostou no hardcore com uma pegada mais melódica, estilo que ficou conhecido como emocore. Esse rótulo atrapalhou ou ajudou a banda?
Ajudou e atrapalhou. Hoje já não faz a menor diferença. Se alguém diz que somos emo, já sei que a pessoa tem uma visão muito estreita das coisas, então a opinião dela é completamente irrelevante pra mim. No Brasil, todo esse lance de emocore foi muito mal interpretado, e resultou em catástrofe pra muita gente. Tivemos nossa parcela de pancadas, mas aguentamos todas de punhos erguidos, lutando.

As bandas de rock brasileiras que hoje conseguem mais espaço gostam de misturar outros ritmos ao rock. Vocês pensam nisso quando compõem?
Nunca misturei outros ritmos na minha música, mas isso é uma escolha minha. Talvez eu nem saiba como. Não é uma questão de não gostar. Gosto de várias bandas que experimentam essas fusões, mas também sinto pena de algumas misturas menos interessantes. O Brasil da brasilidade gosta dessas misturas regionalistas, de forró, axé, sei lá mais o quê… Se eu fizer uma música na qual eu achar que devo, vou misturar. Mas a música precisa pedir essa mistura, não ser uma fórmula pro sucesso.

A banda já está fazendo planos para um futuro próximo?
Nessa idade de banda, temos planos mais palpáveis. Fazer shows, rodar o Brasil, gravar um DVD, gravar nossos discos de forma independente. Escolhemos o caminho que nos foi ofertado. Estamos felizes sendo o Hateen, não temos cobranças nem metas, apenas a felicidade. Como disse no começo da entrevista, queremos ser felizes, esse sempre é o objetivo.


Marcos Paulino é editor do caderno Plug (www.mundoplug.com), da Gazeta de Limeira.

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