Entre o Mundo e Eu, de Ta-Nehisi Coates

por Adriano Mello Costa

Ta-Nehisi Coates nasceu e cresceu em Baltimore, nos EUA. Quando criança e adolescente viu a violência e a criminalidade de muito perto, assim como o desrespeito aos negros em diversos setores. Cresceu, entrou em uma faculdade e ralou muito para ser escritor, onde encontrou o seu caminho, a sua vocação. Quando o filho faz 15 anos ele redige uma longa carta para ele, contando um pouco da vida, mas principalmente tentando explicar o que significa ser negro na América e junto com isso apresenta um ensaio sobre a questão da cor e do racismo nos EUA.

“Entre o Mundo e Eu” (“Between the World and Me”, no original) foi publicado em 2015 e no mesmo ano ganhou edição nacional pela editora Objetiva com 152 páginas e tradução de Paulo Geiger. O texto do autor é incisivo, repleto de frases fortes e pensamentos que precisam ser lidos mais de uma vez para serem absorvidos na sua totalidade. Foi muito bem recebido por crítica e público e entrou na lista dos mais vendidos de jornais importantes, além de ter ganho o prestigiado National Book Award na categoria de não-ficção.

Os Estados Unidos são o foco principal dos disparos de Ta Nehisi-Coates, um país que apesar de hoje ter parte do aparato de repressão também nas mãos de negros, não deixa de exercer força contra estes. Um país que segue com uma mídia obediente e mesmo que cheia de teorias sobre tudo, ainda é vazia no seu âmago. “Nunca esqueça de que estivemos escravizados neste país por mais tempo do que temos sido livres”, lembra em certo momento ao filho.

E vai além. Em outra passagem afirma que “a América acredita-se excepcional, a maior e mais nobre nação que jamais existiu, um paladino solitário que se interpõe entre a cidade branca da democracia e os terroristas, os déspotas, os bárbaros e outros inimigos da civilização”. Porém, o pensamento que lhe nutre o coração e a realidade em que viveu o faz alertar ao filho que muitas ações ficam somente em palavras e enfático afirma que “boa Intenção é um salvo-conduto através da história”.

A preocupação maior do autor enquanto passeia pelos fatos da vida e objetiva que o filho visualize o cenário em que está inserido é o direito de assegurar e governar os próprios corpos. Sim, isso mesmo, parece simples, mas não é bem assim em uma “América Branca” que é arranjada de maneira a proteger o poder sobre esses corpos. Para o autor, destruir o corpo negro de maneira direta ou mesmo impondo limites virou uma tradição nefasta, uma herança absurda do país.

“Entre o Mundo e Eu” é um livro para ser lido pelo menos duas vezes. O tom do autor mesclando paixão, resignação, coragem e preocupação com o futuro é arrebatador e escancara que o racismo ainda existe e muito, mesmo que mascarado de outras formas e maneiras. O pior de tudo é negar isso, negar que o racismo é exemplo do que há de pior no ser humano, nos transformando diretamente em seres primitivos e sem razão. E, acima de tudo, é uma estupenda declaração de amor de um pai para o seu filho.

P.S: Ta-Nehisi Coates anda escrevendo a revista do “Pantera Negra” para a Marvel. Tudo a ver.

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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