Entrevista: Marta Carvalho (Satélite061)

por Leonardo Vinhas

Nos dias 24 e 25 de setembro, ocorrerá em Brasília a 5ª edição do festival Satélite061. No cenário brasiliense, onde não faltam iniciativas bastante interessantes, como os festivais Porão do Rock, PickniK, Móveis Convida e Instrumenta Brasília, o Satélite061 se destaca por trazer em seu lineup nomes de destaque do rap, da música negra e da eletrônica em meio a estilos que já têm mais espaço em outros festivais, como o rock e o folk.

A edição de 2016, por exemplo, trará como headliners Gal Costa e Elza Soares, mas também abre espaço para Baiana System, Evandro Fióti (irmão e ex-MC de apoio de Emicida), o “imorrível” Di Melo e a cantora Thabata Lorena (de Taguatinga – DF). Os beats urbanos da uruguaia PHORO, a “freetura” do paulista Guizado e o “rrrrrock” dos Autoramas são outros destaques em uma escalação variada e dinâmica, que reflete claramente a proposta estética e política do festival.

Política? “O festival é e sempre será político”, afirma Marta Carvalho, organizadora e curadora do festival, nessa entrevista exclusiva ao Scream & Yell. Marta não receia explicitar suas bandeiras políticas, em favor de grupos minoritários e da integração entre o Plano Piloto e as demais Regiões Administrativas do Distrito Federal. E não apenas a escalação, mas também a gratuidade do festival e a escolha do local (a Torre de TV), constituem evidências claras da postura assumida pelo evento.

O momento macropolítico atual, com as leis de incentivo à cultura sendo colocadas em xeque e as liberdades individuais sob suspeita, também merecem a atenção do Satélite061, e Marta Carvalho trata de todos esses temas nessa entrevista, concedida por e-mail ao Scream & Yell.

Ter duas mulheres fortes como Elza Soares e Gal Costa como headliners parece ser uma declaração de princípios, não? O que orientou a escolha de ambas nesse momento em que o empoderamento feminino é tão discutido?
Sempre em minha vida busquei me espelhar em posturas e crescimentos de mulheres com princípios e atitudes que fortalecem o caminhar de outras. Sororidade é a palavra que define a participação dessas mulheres empoderadas, que estão com trabalhos incríveis que falam a nossa língua, falam por nós, de nós e para nós. A mescla de propostas artísticas e temáticas me inspiraram a ter essas deusas, musas e mulheres como linha de frente do nosso line up.

Nomes mais consolidados na cena independente, como Autoramas e Guizado, estão ao lado de gente mais nova, como Fióti, Baiana System e As Bahias e Cozinha Mineira. Esse equilíbrio – que ainda inclui gente mais underground como a uruguaia PHORO e nomes cult como Di Melo – é importante para manter o cenário e o interesse do público em constante renovação?
Por andar muito pela noite e por festivais de todo o Brasil, pude constatar que colocar os grupos locais e mais novos do cenário em horários entre artistas de renome faz com que o publico tenha acesso a projetos que normalmente não conheceria. É tradição no Satélite061 ter bandas que ampliaram a quantidade de seus admiradores após se apresentarem no Festival. É a parte que eu mais gosto de descobrir: ver e sentir a reação do publico. Essa troca é a pulsação da contemporaneidade, é a coragem de expor suas verdades por meio da musica, e isso eu amo.

Dentre os brasilienses que irão se apresentar, escolha dois que você considera os principais destaques do elenco local.
Brasília ferve na musica, né? Então é sempre a escolha mais difícil. Esse ano foram 286 inscritos no chamamento para bandas do DF e entorno, todas muito peculiares e com muitos trabalhos bons. Na escolha da curadoria destacamos Joe Silhueta, Consuelo Caê Maia e Filhos de Dona Maria. Eles despontam com uma produção muito afinada, seus videoclipes e suas carreiras muito bem produzidas me fazem enxergar um longo caminho e uma trajetória bem legal e promissora.

O festival acontecer na Torre de TV, uma área popular e turística de Brasília, não parece ser mera casualidade. Qual a importância deste local para o festival?
O Satélite061 é pra população, então nada mais justo que fazê-lo em um local de fácil acesso e espaçoso. Estamos no centro de Brasilia, onde qualquer um chega: de ônibus, metrô, bicicleta e de carro. Além de ter uma cenografia natural e espontânea no centro de Brasília.

Morei em Brasília por poucos meses recentemente, e escutei algumas pessoas falarem que a profusão de eventos gratuitos na capital federal acabou deixando o público “mal-acostumado”, de maneira que hoje poucos estariam dispostos a pagar por música ao vivo. Você concorda com isso?
É uma via de mão dupla: como a cidade não conta com espaços públicos como teatros e locais de tamanho adequado aos eventos que já se incorporaram ao calendário de Brasília, sempre temos que utilizar as áreas publicas para se fazer eventos de grande porte. A minha intenção nunca foi cobrar ingressos, mesmo porque eu utilizo recursos públicos e nada mais justo do que eu devolver a sociedade o que elas investiram no projeto. Com toda a caretice da lei do silencio em Brasília, se tornou inviável produzir a musica ao vivo em casas noturnas, boates e bares. Isso me incomoda muito, pois ao longo do ano fica muito difícil produzir eventos e shows menores por falta de espaço aparelhados para tal. Mas super concordo que a gratuidade dos eventos atrapalha os eventos pagos.

O cenário político atual apresenta vários desafios para a sustentabilidade dos festivais independentes. Qual o impacto direto desse cenário em Brasília? Em nível nacional, o que acha que pode ser feito para não deixar essa movimentação cultural ser radicalmente afetada pelo momento?
Vemos diariamente o sucateamento da cultura e o desrespeito por conta do governo federal, expondo as piores condições e relacionamentos da Lei Rouanet. Isso nos coloca em uma situação difícil e problemática. No Distrito Federal, contamos com a Lei de Incentivo do DF e com o Fundo de Apoio a Cultura para fazer girar nossa roda, mas ainda assim não é suficiente para tantas demandas. Sinceramente, não tenho a menor ideia do que acontecerá com os trabalhadores de cultura nesse Brasil. Só digo que resistiremos sempre, para que projetos de qualidade tenham seus recursos e continuidade garantidos.

Por fim, e ainda na sequência da pergunta anterior: o Satélite 61 é também uma declaração política?
O Satélite é o grito da arte independente, é e sempre será político. Não me vejo construindo algo que não seja em prol da construção da melhoria social, das minorias e dos corajosos.

Festival Satélite061 – Torre de TV, Brasília (DF)
24 de setembro

PALCO SATÉLITE 061
16h – Nova Raíz
17h – Som de Papel
18h – Phoro
19h – Di Mello
20h – Filhos de Dona Maria
21h – Fióti
22h15 – Consuelo
23h15 – Baiana System
0h30 – Elza Soares

PALCO RADIOFUSÃO – 16h às 3h
Boom Bap:
Xaxim (DF)
Emanu (DF)
Tap (DF)
Eric Beats (DF)
DJ Janna (DF)
DUAFE – DJs Donna, Larissa Umaytá e Jocelene Gomes (DF)
Gabriela Ziriguidum – Apresentação de dança Kuduro e Afro House
Rockmaster Party:
DJ MF (SP) DJ André Rockmaster (SP)
DJ Nyack (SP)
Drik Barbosa (SP)
Mauro Telefunksoul (SSA)
Confronto Sound System (DF)

Espaço Anteninha
15h às 19h – Atividades formativas
19h – Encerramento Do Espaço Anteninha

25 de setembro

PALCO SATÉLITE 061
15h – Thabata Lorena
16h – Caê Maia
17h – Marssal
18h – Autoramas
19h – Joe Silhueta
20h – Guizado
21h – As Bahias e a Cozinha Mineira
22h15 – Gal Costa

PALCO RADIOFUSÃO – 16h à 00h
DJ Leo Zulu (DF)
DJ Ocimar – Dabomb (DF)
DJ Jamaika – Makossa (DF)
DJ Leandro Vitrola (SSA)
DJ Tamy (RJ)
DJ Typá(SP)
DJ Jeff Bass – Cambalacho (CWB)
DJ Anaum – Cambalacho(CWB)

Espaço Anteninha
15h às 19h – Atividades formativas
19h – Encerramento Do Espaço Anteninha

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

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