Três CDs: Hanoi Hanoi, Marisa Monte, Metrô

por Marcelo Costa

“Hanoi Hanoi – 30 Anos”, Hanoi Hanoi (Sony Music)
Demorou mais de duas décadas para que as grandes gravadoras brasileiras acordassem para algo que seus escritórios centrais transformaram em item de colecionador a partir do meio dos anos 90: as reedições especiais de seu catálogo. É uma pena que os lançamentos que chegam agora ao mercado encontrem a mídia CD em seu momento de decadência de vendas, mas, ainda assim, antes tarde do que nunca. Após reedições caprichadas de “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, e do disco de estreia da Legião Urbana, agora é a vez do Hanoi Hanoi, power trio comandado pelo baixista Arnaldo Brandão, festejar 30 anos do lançamento original de seu álbum de estreia, que vendeu mais de 250 mil cópias em 1986 ancorado no imenso sucesso do hit “Totalmente Demais” (regravado em 2016 por Anitta para a trilha de uma novela global). Além do single poderoso, “Hanoi Hanoi” ainda conta com a versão de Arnaldo Brandão para “Rádio Blá”, parceria sua e de Tavinho Paes com Lobão que foi um dos grandes sucessos do álbum “Vida Bandida”, no ano seguinte, e faixas poderosas como “Bonsucesso ’68” e “Nem Sansão, Nem Dalila”, esta última com letra de Cazuza. Nesta reedição, quatro faixas bônus: um remix de “Totalmente Demais” (que também tocou muito) mais três faixas inéditas da época, todas muito boas: “Caso de Jane y Julia”, “Renascença Rock” e “Fique na Sua”. Uma boa pedida que lança luz sobre os também bons “Fanzine” (1988) e “O Ser e o Nada” (1990), segundo e terceiro discos do Hanoi Hanoi, ainda inéditos no digital.

Nota: 7

“Coleção”, Marisa Monte (Universal)
Para encerrar o contrato que Marisa Monte assinou com a EMI em 2000 (gravadora vinculada à Universal desde 2013) havia a ideia de um “Best Of” da carreira da cantora que, de maneira esperta, optou por uma seleção de lados b de sua carreira, canções que ela gravou com outras pessoas em shows, DVDs ou mesmo para trilhas sonoras e que não se encontravam no acervo de seu repertório. Desta forma, “Coleção” é excelente por juntar à discografia de Marisa Monte um grupo de 13 canções que podem soar raras mesmo para fãs mais afoitos da artista. Neste quesito, por exemplo, surge “Cama”, gravada para a trilha sonora do filme “Era Uma Vez” (2008), até então inédita em disco, e que aqui aparece com novo vocal. A versão de “Alta Noite” é diferente da presente em “Cor de Rosa e Carvão” (1994), pois foi pescada do primeiro álbum solo de Arnaldo Antunes, “Nome” (1993), e passou por uma leve remixagem, que colocou a voz de Marisa em pé de igualdade com a do ex-Titãs. “A Primeira Pedra”, presente no álbum “Infinito Particular” (2006) ressurge aqui em versão ao vivo com acompanhamento de Gustavo Santaolalla e a super banda de Marisa (Dadi, Dengue, Lucio Maia, Pupillo e Carlos Trilha mais viola, violino e violoncelo). Entre os pontos altos estão uma singela versão de “Carinhoso” com Paulinho da Viola, “É Doce Morrer no Mar” com Cesária Evora, “Ilusão” com Julieta Venegas e “Aguas de Março” (vertida para “Waters of March”) com David Byrne. “Esqueça”, do repertório de Roberto Carlos, também merece reverencia num álbum repleto de pequenas pérolas, que é muito melhor que o último disco de Marisa.

Nota: 8

“Olhar – 30 Anos”, Metrô (Sony Music)
Dois grandes nomes do rock nacional que tiveram seu primeiro disco lançado em 1985 são fruto do faro aguçado de um mesmo homem: Luis Carlos Maluly. No começo de 1985, Maluly produziu as estreias de RPM (“Revoluções por Minuto”, lançado em maio) e Metrô (“Olhar”, lançado em abril), grupos que apostavam no tecnopop, o RPM seguindo uma via levemente sombria enquanto o Metrô optava por uma sonoridade dançante. Um ano antes, em 1984, o RPM havia lançado o compacto “Louras Geladas”, com um sucesso moderado, enquanto o Metrô cravara dois hits com o compacto “Beat Acelerado” / “Sândalo de Dândi”. Bastante aguardado na época, “Olhar”, o álbum, trazia o hit “Sândalo de Dândi” do compacto e uma versão bossa de “Beat Acelerado”, mas tanto a bela faixa título quanto a baladaça “Johnny Love” e o poderoso single “Tudo Pode Mudar” garantiram o sucesso do disco que exibe uma produção impecável e retorna agora numa caprichada edição dupla que inclui “Ti Ti Ti”, tema da novela homônima escrito por Rita Lee e Roberto de Carvalho, a versão compacto do single “Beat Acelerado”, remixes e uma versão de “Johnny Love” com participação de Leo Jaime, especial para a trilha do filme “Rock Estrela” (1985). No segundo CD, oito registros ao vivo da época, bastante precários, mas muito interessantes, além das versões demo de “Tudo Pode Mudar” (o formato já estava pronto, só faltava produção), “Sândalo de Dândi” (com Virginie fazendo a melodia vocal ainda sem a letra que seria escrita por Tavinho Paes) e a inédita “Eu Digo Stop”. O sucesso avassalador de “Olhar” desintegrou a banda. A vocalista Virginie sairia em carreira solo em 1987 e o Metrô, com um vocalista português, lançaria um belíssimo psicodélico no mesmo ano, “A Mão de Mao”, mas os grandes hits estão todos aqui, neste belo álbum! Relembre outros 10 grandes discos nacionais de 1985.

Nota: 9

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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