HQs: Quiral, Zoé, Thomas e Thor

por Adriano Mello Costa

“Quiral”, de Eduardo Damasceno e Luiz Felipe Garrocho (Mino)
“Quiral” é um quadrinho nacional que utiliza como personagens principais um capitão e uma garota separados entre si por muitos e muitos anos, mas que, no fundo, não estão tão separados assim como essa premissa nos leva a crer. Criação da dupla Eduardo Damasceno e Luiz Felipe Garrocho, que dividem o texto e a arte, “Quiral” tem 44 páginas e foi lançada no decorrer do ano passado pela Editora Mino, mais uma empresa apostando no mercado de quadrinhos e fazendo isso com qualidade. Na trama, uma jovem que gosta de aventuras marítimas e trabalha diretamente com o mar, fazendo redes de pesca, lê em casa um velho diário de um capitão que mantinha a tripulação focada para caçar monstros marinhos em prol da comunidade. Com um leve toque de fantasia no meio, Damasceno e Garrocho inserem com sensibilidade e destreza questões como coragem e dever, sublinhadas pela amargura e pelo medo reunidos de algumas decisões. Para separar o passado e o presente, a dupla utiliza tons diferentes de cor para cada época que entrecortam nas páginas, uma saída que, além de permitir um entendimento mais rápido, ajuda e muito no visual da obra, que fica mais bonita. O trabalho de Damasceno e Garrocho já teve seu talento demonstrado em obras anteriores como “Achados e Perdidos”, “Cosmonauta Cosmo” e na releitura feita para o Bidu em “Caminhos”, projeto da série Graphic MSP que recria os personagens de Mauricio de Sousa. Em “Quiral” isso não é diferente, e além de ser uma ótima leitura e envolver quem a lê, serve para ratificar ainda mais o talento da dupla.

Nota: 8

“Uma Morte Horrível”, de Pénélope Bagieu (Nemo)
De um lado, uma bonita jovem insatisfeita com a vida, com um trabalho que quase não consegue suportar, expectativas totalmente em baixa e morando com um namorado que, além de grosso e estúpido, passa o dia em casa sem correr atrás de nada. Do outro, um charmoso e famoso escritor, recluso em uma casa que ninguém tem acesso e que sofre por não conseguir escrever mais do que duas linhas no papel. São esses dois leves extremos que se cruzam e dão o tom da graphic novel “Uma Morte Horrível” (“Cadavre Exquis”, no original), da quadrinista parisiense Pénélope Bagieu, lançamento da editora Nemo, com 128 páginas e tradução de Fernando Scheibe. Publicado na França em 2010, “Uma Morte Horrível” aposta no humor e em diálogos eficazes e funcionais que permitem a autora unir os universos de Zoé (a jovem) e Thomas (o escritor) para contar uma história repleta de coisas escondidas no armário e envolvendo insatisfações pessoais, paixão, narcisismo, traição e ganância tendo a literatura como personagem coadjuvante. O texto usa sabiamente toda a aura “mágica” que a literatura tem na França para compor uma história que surpreende o leitor quase que a cada passo, pois, quando se pensa que se trata de apenas mais um romance banal, no fundo do copo há algo mais. O traço de Pénélope Bagieu é simples, sem requintes, mas transpõe as emoções a que se ambiciona e enxerta um toque sempre leve e descompromissado ao álbum, o que acaba sendo de grande valia. “Uma Morte Horrível” é um trabalho que tem a capacidade de satisfazer não somente os leitores de quadrinhos, como também aqueles não acostumados com a nona arte.

Nota: 8,5

“Thor: O Deus do Trovão – Bomba Divina”, Jason Aaron, Esad Ribic e Butch Guice (Panini)
“Será um mundo melhor sem deuses. Nada de medo de danação eterna ou de anseio por recompensa futura. Nada de ódio entre crentes de fés rivais. Sem a mentira da eternidade para servir de muleta, não teremos escolha senão finalmente prezar o pouco e precioso tempo que temos. E dedicar a fé a nós mesmos”. Esse trecho está dentro do encadernado de capa dura “Thor: O Deus do Trovão – Bomba Divina” com 140 páginas lançado pela Panini Comics esse ano, que continua o arco “Carniceiro dos Deuses” e traz o final dessa jornada reunindo as edições originais publicadas lá fora entre maio e dezembro de 2013. Com direito a alguns extras, esse conjunto de histórias contadas por Jason Aaron no roteiro e com a arte de Esad Ribic e Butch Guice tem o poder de entrar para o rol das grandes histórias do personagem. Isso porque reúne de uma história característica do Thor, como também insere divagações mil sobre a relação das pessoas comuns com seus deuses, independente de que planeta (ou países estejam). Na busca de cancelar o plano de Gorr, uma entidade que trabalha movida a vingança e a dor, são reunidos Thor’s de diferentes pontos do tempo, o que acrescenta mais ainda à trama, já que permite visualizar inquietações díspares e apresenta reflexões sobre o passar do tempo. Jason Aaaron (Wolverine) costura esses pontos de maneira concisa e faz com que todas as reflexões que apresenta planem no ar fazendo o leitor vez ou outra parar um pouco no meio das páginas. A arte acompanha o ritmo (as capas são fantásticas) com quadros bem estilizados e as cores variando entre a claridão e o sombrio, de acordo com o que pede a trama. Da série chamada “Nova Marvel”, Thor talvez tenha sido o melhor acerto da editora.

Nota: 9

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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