Little Quail no Sesc Santo Amaro

Texto e fotos por Marcelo Costa

Os anos 90 estão de volta. E, quem diria, não só os anos do grunge e das camisas de flanela, que tomaram as paradas de sucesso naquela década, mas também os anos 90 da cena independente nacional, que consagrou bandas (Planet Hemp, Los Hermanos, Raimundos), mas também deixou várias outras pelo caminho. Nesta toada, documentários como “Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94” (2014), “Guitar Days” (2016) e “Time Will Burn” (2016) tentam resgatar o espirito da época, que ganhou um novo respiro com o lançamento de “Magnéticos 90”, livro de Gabriel Thomaz (Autoramas) com o quadrinista Daniel Juca.

Com o subtítulo de “A Geração do Rock Brasileiro Lançada em Fita Cassete”, Gabriel Thomaz vasculha seu acervo de demotapes e conta histórias divertidas e surreais do underground brasileiro em “Magnéticos 90”. O livro inspirou um bate papo no Sesc Santo Amaro, e também uma festejada reunião do Little Quail and Mad Birds, grupo que Gabriel (guitarra e voz) montou com Zé Ovo (baixo) e Bacalhau (bateria, hoje no Ultraje a Rigor), entre 1988 e 1997, e que lançou dois álbuns, um deles pelo selo Banguela, antes de encerrar as atividades.

O último encontro de Gabriel, Zé Ovo e Bacalhau no palco foi na Sala Adoniran Barbosa, do Centro Cultural São Paulo, quatro anos atrás, em 2012, mas as mais de 200 pessoas que se deslocaram para Santo Amaro numa noite fria do começo de junho poderiam dizer que o tempo não passou para o trio. Bem-humorados, leves e com um repertório afiado, o trio fez renascer das cinzas mais uma vez o Little Quail para uma apresentação memorável, divertida e cantada em coro por uma plateia que viveu os anos 90 intensamente.

Com horário de apresentação limitado (75 minutos de palco), o trio decolou para o show comandado por Bacalhau, que com receio de não dar tempo de tocar todas as músicas, emendava uma pancada na outra e dá-lhe festa. “I Need You”, do segundo disco, abriu a noite seguida de “Stock Car”, faixa da estreia que rememora o famoso joguinho de videogame. O publicou soltou a voz logo na terceira canção, o hino “1, 2, 3, 4”, e, dai pra frente, a comunhão entre banda e plateia foi perfeita, com a diversão contagiando quem estava em cima do palco e quem estava no público.

A versão porrada de “Samba do Arnesto” foi cantada em coro, mas a plateia soltou o gogo mesmo na sensacional “Família Que Briga Unida Permanece Unida”, clássico do primeiro disco. Grandes momentos: a divertida “O Sol Eu Não Sei”, a cadenciada “O Alarme”, o refrão de “Sily Billy”, o hit (dos Raimundos) “Aquela”, a grande versão de “Umbabarauma”, de Jorge Ben, e a condução impecável de Bacalhau na bateria. Completamente à vontade, Zé Ovo distribuía palhaçadas ora arremessando sua carteira da Ordem dos Músicos do Brasil no chão, ora desmascarando hilariamente a volta para o bis: “Gente, já tava tudo planejado aqui”.

Alf, do Rumbora, subiu ao palco para tocar um grupo de canções, e não saiu mais, alternando-se entre o baixo (com Zé Ovo fazendo mais palhaçadas) e o backing vocal, ficando ali até o número final do show, quando Gabriel convocou uma galera (do fundão) para invadir o espaço e engrossar o coro de “1, 2, 3, 4”, explicando: “Era exatamente assim que a gente fazia na época”, momento saudoso para fechar com chave de ouro uma grande noite que, para Gabriel, era a última apresentação da história do Little Quail, mas Zé Ovo provocou: “Daqui quatro anos a gente se reúne de novo”, e Gabriel entrou na brincadeira: “Tá marcado então?”. Tomara 🙂

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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3 thoughts on “Little Quail no Sesc Santo Amaro

  1. Oi, amigos do S&Y!

    Eu e meu namorado Raphael Bittencourt adoramos o show.

    Foi tão bom quanto os que vi no Close Up Planet no Rio em 1997 (acho que o nome do festival era essa, who cares?) e depois no Vergueiro (Centro Cultural São Paulo) em 2008.

    Todas essas apresentações foram impecáveis, a ponto de eu achar o Little Quail melhor que o Autoramas.

    Parabéns pelo excelente trabalho em prol da cena independente!
    Abraços
    Alberto Aquino de Carvalho Bittencourt

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