Entrevista: Valciãn Calixto

por Bruno Lisboa

Se um substantivo pudesse definir a pessoa de Valciãn Calixto o mesmo seria inquietude. Natural do Piauí, Valciãn age de maneira prolífica ao dividir o seu tempo entre a faculdade de jornalismo, a carreiro de escritor, músico e a coordenação das ações do coletivo artístico local Geração TrisTherezina, que nesse ano lançou um EP da banda Cianeto HC, o livro “O Que Acontece Quando Não Estamos Olhando”, do escritor Agostinho Torres e seu primeiro disco solo (“Foda!”) que expande os horizontes de sua banda principal (a Doce de Sal).

Em “Foda!” (download gratuito aqui), Valciãn promove o encontro de axé com punk rock (“Na a minha cabeça é a versão brasileira do Afropunk”, ele explica) e se utiliza de frevo, jazz e até spoken-word, mas avisa que sua maior preocupação são as letras: “A métrica é que vai dar a dinâmica para as melodias e o ritmo, a pegada vai sendo notada a cada vez que você repete uma nova estrofe no instrumento”, conta. De influências cita a cantora britânica (descendente de colombianos) Sasha Keable e mais Elba Ramalho e Fantasmão, entre outros.

Em entrevista concedida por e-mail, Valciãn Calixto fala sobre o processo de composição de seu mais novo disco, o conteúdo político de suas composições (“Para mim é impossível não escrever um livro, não gravar um disco e não abordar, não falar desses assuntos porque estão muito próximo de mim”), as ações e logística do coletivo Geração TrisTherezina (“Começamos a fazer isso há pouco tempo, mas já dá para ver que tem gente de cidades do interior do Piauí acompanhando a gente”) e planos para o futuro. Com vocês, Valciãn Calixto!

<a href=”http://geracaotristherezina.bandcamp.com/album/foda-valci-n-calixto-2016″ mce_href=”http://geracaotristherezina.bandcamp.com/album/foda-valci-n-calixto-2016″>Foda! – Valciãn Calixto (2016) by Valciãn Calixto</a>

Em “Foda!”, seu primeiro disco solo, você promove o improvável encontro de sonoridades dispares como o axé e o punk. Como fora o processo de composição e gravação do disco?
Exato, misturei os dois gêneros e batizei de “Axé Punk”, o que na minha cabeça é a versão brasileira do Afropunk. Assim como somos filhos de uma miscigenação sem medida, acho bastante característica a “miscigenação rítmica” no trabalho de artistas nordestinos, é algo que vem, talvez, desde Jackson do Pandeiro, passa por Lula Cortês, tropicalistas, turma do Ceará até chegar ao pagode baiano. Particularmente não vejo axé e punk como muito díspares. Axé é um ritmo tão gostoso de se tocar que a guitarra pode fazer um calypso / carimbo / siriá, o baixo pode acompanhar com groove de samba, de reggae, o teclado pode meter uns sintetizadores a la New Order, em outra cadência, claro, a percussão pode fazer afoxé, a bateria ijexá e vice-versa, daí que você pode tirar qualquer um destes ritmos ou acrescentar outros, deslocar a função de um instrumento, deixar o baixo fazer o que a bateria faz e ainda assim será axé. Se pegarmos uma batida simples de rock como “Tum Pá Tum Tum Pá”, sendo o Tum para o pedal e pá para a caixa, se invertermos isso, deixando o Tum para a caixa e o pá para o pedal, se acrescentarmos mais algumas células de caixa e variar o chimbal teremos um axé básico também. Acho que a partir desse e de outros pensamentos mais do campo harmônico é que surgiram os arranjos para as músicas onde faço Axé Punk no “Foda!”.

De que maneira este disco difere de seu trabalho ao lado da banda Doce de Sal?
Começa pela formação, enquanto a Doce de Sal é apenas guitarra, baixo, bateria e voz, no “Foda!”, meu disco solo tem teclado, violão, percussão e os outros instrumentos básicos. Na banda a sonoridade é mais carregada na distorção e ruídos, o vocal é gritado e as letras abordam mais a vida que levamos por aqui na nossa província chamada Teresina.

Para além do axé e do punk em “Foda!” você promove a junção frevo, jazz e até spoken-word. Quais influências nortearam suas composições?
Minha preocupação maior é sempre com as letras, com histórias que quero contar, de que maneira abordá-las, então os ritmos acabam sendo consequência em alguns casos. As letras, a métrica é que vai dar a dinâmica para as melodias e o ritmo, a pegada vai sendo notada a cada vez que você repete uma nova estrofe no instrumento. Agora influências mesmo, acho que ouvi bastante os dois EPs da Sasha Keable e C W Stoneking. Elba Ramalho e Moraes Moreira são artistas brasileiros que ouvi muito indiretamente por conta de meu pai sempre colocar os discos dele para tocar na radiola em casa. No axé propriamente os primeiros discos da Daniela Mercury, Davi Moraes, Fantasmão (fase Edcity) e Parangolé (fase Léo Santana e André Merenda) que fez o Brasil inteiro cantar junto o refrão “Sou negão, sou negão, negão”, tanto negros como brancos cantaram e esse é o poder de união da música e exaltação dos nossos valores e autoestima, né.

No disco você imprime um olhar muito pessoal para com o cotidiano. De que maneira o mesmo lhe inspira?
Eu tentei não prender na garganta tudo aquilo que o corpo calou. Digo, as cicatrizes fechadas, os traumas sanados, o sangue estancado nos corpos dos personagens que aparecem nas letras, por exemplo. Me vejo como alguém um pouco deslocado, mal de filho de Omolu, que chega na festa e prefere ficar do lado de fora. Então por observar os acontecimentos meio que da margem, por apanhar muitos relatos, coisas simples, às vezes, pego e tento prender essas experiências, o cotidiano, por assim dizer, numa pintura, uma tela sonora, leia-se música.

Atualmente temas como estupro, homofobia, pedofilia tem tomado conta da mídia devido uma série de acontecimentos. No disco você aborda abertamente sobre essas temáticas. Como você o cenário brasileiro hoje?
Olha só, no Piauí tem um município onde de cada dez crianças pelo menos duas já foram molestadas, em geral por pessoas da própria família, há casos em que tanto mãe e filha são obrigadas a manter sexo com o pai, com o padrasto ou só a filha é abusada e a mãe é espancada e isso, claro, não só nesse município, mas nos outros 223 do estado. Ano passado ocorreu um caso em Castelo do Piauí onde quatro garotas foram violentadas por um homem e quatro rapazes, uma delas chegou a falecer no hospital devido às agressões sofridas, pois além de terem sido estupradas, lhes foram atirados objetos como pau e pedras, após isso elas foram atiradas de um barranco lá nessa cidade. Um dos quatro adolescentes foi morto já em cárcere, há suspeita de retaliação sobre essa morte, então se pegarmos o caso veremos que a violência em si continuou mesmo após os estupros, na prisão. Reportagens da época apontaram o envolvimento dos quatro adolescentes com drogas, evasão escolar, famílias desestruturadas e isso é um retrato do Brasil ou de uma parte dele. Agora na mesma semana em que uma jovem no Rio de Janeiro foi estuprada por mais de 30 homens, no município de Bom Jesus, sul do Piauí, uma jovem havia sido currada por quatro. Então, para mim é impossível não escrever um livro, não gravar um disco e não abordar, não falar desses assuntos porque estão muito próximo de mim, até porque eu entendo a arte como um espelho da realidade e os espelhos mostram o que nem sempre queremos ver. Resumindo, tá foda o cenário brasileiro, resistir é preciso.

Você faz parte e coordena as ações do coletivo Geração TrisTherezina. Como se deu sua formação?
Minha formação é a do abandono (risos). Cursei Teatro e abandonei, cursei Letras, abandonei, atualmente estou tentando terminar Comunicação Social. Meu TCC vai contar a trajetória de um músico que fez carreira aqui no Piauí, ganhou muitos festivais e até hoje está na ativa fazendo apresentações. Geração TrisTherezina é a reunião de amigos que de maneira natural, por proximidade, admiração e simpatia para com o trabalho um do outro, decidiu usar essa nomenclatura para se situar e mostrar o que temos realizado. Esse ano tivemos o lançamento do meu disco, teve o EP “Decair”, da banda Cianeto HC, apoiamos o lançamento do livro “O Que Acontece Quando Não Estamos Olhando”, do escritor Agostinho Torres e vamos ver o que mais nos aguarda.

Atualmente coletivos artísticos como vocês e a Geração Perdida (MG) tem conquistado gradualmente espaço e reconhecimento? Qual a importância de movimentos como este?
Das coisas mais importantes da Geração TrisTherezina é a colaboração. Meu disco teve participações da Eryka Alcântara, do Agostinho, Joniel (Old School Kids), Heitor (Cianeto), João Pedro (Cidade Estéril) e do Ronnyel. A capa é uma foto do Breno Andrade (@piauinatural). A capa do EP da Cianeto é um desenho do Joniel, que é artista plástico e quadrinista também, além de músico. Então quando você começa a tornar as coisas um pouco mais, digamos, profissionais (nem era essa a palavra que eu queria usar), a produção ganha força e algum reconhecimento, as pessoas buscam entender o que está acontecendo ao mesmo tempo que passam a acreditar que elas também são igualmente capazes de realizar e lançar o que quer que seja, livro, disco, hq, clipes etc. Quando elas acreditam que também podem, essa é a melhor parte porque irão surgir novos trabalhos, bandas, discos, espaços e pessoas para fazer a cultura girar. Claro que ainda não é assim, não é tão forte, começamos a fazer isso há pouco tempo, mas já dá para ver que tem gente de cidades do interior do Piauí acompanhando a gente, até mesmo nos convidando para eventos nesses municípios, o show de lançamento do “Foda!”, por exemplo, não será na capital.

Como é a logística interna do coletivo? Como lidar com tantos artistas e interesses?
Não tem nada deliberado no sentido de produzir. Todo mundo sabe que a gente, as bandas, precisam lançar material, principalmente nessa fase inicial da Geração TrisTherezina, então eu fico lá pegando no pé dos caras para eles gravarem e escreverem que depois disso a gente pensa junto no alcance que o trabalho merece e no que será preciso investir para isso acontecer. Em 2015 eu lancei o livro “Reminiscências do caseiro Genival”, o Joniel lançou a hq Beeline na FIQ, em Minas Gerais, e está até concorrendo a uns prêmios com esse trabalho. Esse ano teve o livro do Agostinho, lançamos dois CDs, disponibilizamos tudo em streamings e estamos vendo a possibilidade de a banda do Joniel lançar nem que seja um ep ainda esse ano – ou a Cidade Estéril. É difícil para a gente porque, diferente da Geração Perdida, nenhum de nós tem home estúdio, pagar estúdio do próprio bolso em Teresina complica, mas estamos dando o nosso jeito que na verdade é o jeito DIY de fazer as coisas.

A música brasileira passa por um grande momento devido ao grande volume de lançamentos e de altíssima qualidade. Em contrapartida o mercado musical ainda cede pouco espaço para quem trabalha de forma independente. Na sua opinião qual seria a alternativa para sanar este distorção?
A alternativa deve (não apenas) partir de cima, de quem detém poderio econômico, como grandes empresas. É até algo que eu vejo o Elson (Herod e Sinewave Label) falar de que quanto mais empresas como Natura e Red Bull investirem na área cultural, mais os veículos irão abrir espaço para os artistas e suas obras, afinal, é a empresa que patrocina e mantém os veículos de comunicação com patrocínio, inserção de publicidade, entre outras coisas.

Quais são seus próximos passos e o que o coletivo planeja para o futuro?
Semana que vem começo a gravar um projeto secretíssimo para lançar esse ano ainda. Tenho ideias para clipes de músicas do “Foda!”, a Geração TrisTherezina ainda não lançou nenhum clipe, então possivelmente esse pode ser tanto meu próximo passo e por consequência o do coletivo. Estou vendo a possibilidade de uma mini tour por São Paulo e Rio.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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