“Teens of Denial”, Car Seat Headrest

por Ana Clara Matta

Não é incomum ler em textos sortidos do jornalismo musical, quando ele decide se debruçar sobre a década de 2010 como matéria prima, a seguinte pergunta: onde está o “Is This It” (2001), o “Nevermind” (1991) da nova geração? Onde está O DISCO dessa geração? A resposta muitas vezes ganha um tom pessimista, fatalista até, apontando o fim da originalidade e dos grandes discos. Trago aqui outra espécie de resposta. Alguns a acharão ainda mais pessimista, mas em seu coração ela traz um otimismo quase imediato, libertador. A resposta é: pare de procurar, essa geração não terá um disco. E isso ocorre não pela falta de candidatos viáveis – talvez, nesse ano de 2016, inclusive, ganhamos o candidato mais brilhante para essa vaga tão cobiçada. Mas isso não muda nada. Essa geração não terá um disco.

Antes de explicar essa frase bombástica, vamos aos fundamentos. O que faz um “disco de uma geração”? “Teens of Denial”, novo álbum do Car Seat Headrest, tem a mesma capacidade de “Is This It” de absorver influências do passado da música e entregá-las em um pacote completamente novo, fresco. Will Toledo, cérebro por trás do Car Seat Headrest, mistura em uma faixa só como “The Ballad of Costa Concordia” o slacker-grunge de bandas como Pavement, o emo intelectual das melhores fases do Weezer, o tom apático e preguiçoso do Beck e ainda insere nessa família de influências noventistas coisas que nunca eram usadas nos arranjos da década, como metais, pianos, orquestrações.

Outro elemento comum aos discos de uma geração são as letras – inteligentes e que capturam o zeitgeist, o espírito de seu tempo. Mais uma vez, “Teens of Denial” cumpre a tarefa com honras. As letras de Toledo misturam um insight impressionante relativo aos dramas dos seus pares e uma introspecção voraz e autodestrutiva, e canções como “Vincent” soam exatamente como o grito de uma geração que normalizou ataques de pânico aos 12 anos, gastrite nervosa aos 14 anos, depressão aos 16. O Car Seat Headrest não faz músicas para quem tem com quem dançar na balada – faz para aquela pessoa que está na porta, chamando o Uber, pensando se aquela saída tapou, enfim, algum vazio necessário. Mas não é a lamentação de Morrissey pedindo aos céus por uma chance – a angústia de Toledo é auto-consciente demais, e ao invés de questionar sua sorte ou uma força maior, Toledo questiona suas escolhas.

O terceiro e último fator para um álbum de uma geração é que ele contenha canções inesquecíveis, pop, de fácil assimilação. Tudo aponta para a complexidade das referências e a duração das faixas de “Teens of Denial” nesse momento, mas talvez um dos seus maiores triunfos é exatamente o de transformar uma suite alternativa de 11 minutos em material radiofônico. Essa capacidade de fazer o tempo passar rápido foi observada pela última vez no mundo indie em “This is Happening” (2010), o (primeiro) adeus do LCD Soundsystem. A capacidade melódica do jovem americano em faixas como “Drunk Drivers/Killer Whales” é impressionante, e você logo pensa de onde um garoto tão apaixonado pelo ruído do rock de garagem e noventista tirou uma facilidade tão grande na construção de refrões grudentos e cantaroláveis e harmonias sutis. Bem, ele logo explica em uma das canções do disco.

“What happened to that chubby little kid who smiled so much and loved the Beach Boys?
What happened is I killed that fucker and I took his name and I got new glasses”

Agora, com os fundamentos bem firmes, a pergunta que está na sua mente pode ser respondida. “Teens of Denial” não será o disco de uma geração? Bem, essa geração não terá um disco, e a culpa é da tal da cauda longa. Você já ouviu falar dela, um dos conceitos mais populares do marketing atual. A cauda longa basicamente é o que acontece quando o acesso à cultura é tão fácil, e a oferta de produtos de todo canto do mundo é tão ampla, que o consumo se torna extremamente personalizado. Como a cauda longa afeta a existência de um disco de uma geração? Para que um disco ganhe esse título ele deve ser ouvido por TODOS – ou a quantidade mais próxima possível dessa totalidade – e álbuns de rock independente simplesmente não conseguem esse tipo de unanimidade de consumo. Se a geração não está ouvindo o material, ela não se relacionará com ele. E “Teens of Denial” está fadado a ser exatamente isso, um disco perdido de uma geração perdida, seu grande resumo, um dos seus melhores momentos musicais, ouvido apenas por aqueles que com ele trombarem.

– Ana Clara Matta (@_ana_c) é editora do Rock ‘n’ Beats e do Ovo de Fantasma

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2 thoughts on ““Teens of Denial”, Car Seat Headrest

  1. Eu conheci essa banda aos gradativamente, uma faixa aqui outra acolá, aos poucos fui gostando cada vez mais do trabalho do Will Toledo, foi das descobertas mais significante para mim nos últimos dias , daqueles sons que você escuta e corre para mostrar para seus amigos!

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