Boteco: Seis IPAs Gaúchas

por Marcelo Costa

De Nova Prata, cidade de pouco mais de 22 mil habitantes no Nordeste Rio-grandense, surge a autodenominada “única cervejaria artesanal” da cidade, a Solerun, nascida em 2015 com um cuidado especial no trabalho gráfico e uma American IPA respeitável de 6.5% de álcool e 68 IBUs. Na taça, uma cerveja de coloração âmbar alaranjada turva apresenta um creme espesso e branquinho, de ótima formação e longa retenção. No nariz, as notas derivadas da lupulagem saltam à frente oferecendo cítrico (toranja) herbal (pinho) e resinoso caprichados, sem, contato, esconder a base caramelada, que cria um excelente perfil sensorial. Na boca, a textura é sedosa com leve picância. O primeiro toque traz rápido caramelo atropelado no segundo seguinte por herbal, cítrico e resina potentes, impulsionando o amargor, que chega impressionantemente suave, mérito da base de caramelo, que faz um belo serviço de equilíbrio. O final traz mais amargor (ele se arrasta caprichosamente garganta abaixo) cítrico e herbal. No retrogosto, um resumo caprichado do conjunto: herbal, cítrico, resinoso com leve toque de caramelo. Baita!

De Nova Prata, seguimos 35 quilômetros na Serra Gaúcha até Paraí, município de cerca de 7 mil habitantes que abriga a fábrica da MoocaBeer, que surgiu em 2011 e hoje já conta com sete rótulos no cardápio (incluindo uma Medalha de Ouro em Blumenau). De coloração âmbar alaranjada turva, ainda que mais clara que a Solerun IPA, e creme branco espesso de ótima formação e longa retenção, a MoocaBeer India exibe um aroma com maior presença herbal (pinho), ainda que o cítrico (acerola) marca presença com fácil reconhecimento. Não há notas resinosas, mas é possível perceber uma sútil (e agradabilíssima) presença de café. Na boca, a textura é cremosa e levemente picante. No primeiro toque, doçura cítrica seguida de amargor herbal (40 de IBU convincentes). Dai pra frente, uma ótima IPA que soa mais American que English (talvez mais lupulada do que um britânico curtiria e menos do que um californiano iria desejar). O final é comportado, meio cítrico e herbal. No retrogosto, suavidade cítrica, herbal e com leve caramelo. Muito boa.

Partindo para a capital Porto Alegre com a Malvadeza IPAFú, um dos sete rótulos da cervejaria que começou com brewpub em 2007, e em 2014 passou a engarrafar e distribuir a produção país afora defendendo o lema já na arte do rótulo: “amar a cerveja sobre todas as coisas”. De coloração âmbar acobreada com creme bege claro de boa formação e média permanência, a Malvadeza IPAFú apresenta um aroma lupulado com notas cítricas em destaque (maracujá) e leve resinoso acompanhado de notas herbais suaves (pinho) e caramelo na base. Na boca, a textura é suave. O primeiro toque traz rápido caramelo seguido de herbal (pinho) e cítrico (maracujá) e amargor mediano abrindo as portas para um conjunto mais suave, que remete mais a escola inglesa do que a norte-americana. O final traz um pouco de caramelado e de amarguinho. No retrogosto, caramelo, cítrico e herbal, suaves.

Também da capital, a CaturrIPA é minha primeira cerveja dos elogiados Irmãos Ferraro, que abriram a cervejaria em 2009, e já colecionam algumas medalhas em festivais. É uma American IPA com cinco lúpulos Made in USA (Amarillo, Mosaic, Citra, Columbus e Bravo) na fervura e no dry hopping elevando o IBU da criança até 67 com 6.7% de álcool. De coloração dourada com creme branco espesso de boa formação e permanência, a Irmãos Ferraro CaturrIPA apresenta um aroma intensamente lupulado com notas cítricas (maracujá, abacaxi e casca de laranja) e herbais (pinho) abundantes. Na boca, a textura é cremosa e suavemente picante. O primeiro toque reafirma a potencia dos lúpulos adiantada pelo aroma com muito cítrico seguido de leve herbal e de amargor potente, mas não exagerado, descortinando um conjunto provocante e bastante saboroso. O final é amarguinho e cítrico. No retrogosto, mais cítrico e herbal suaves. Boa!

A quinta desta série de IPAs gaúchas já é lendária no meio cervejeiro: também de Porto Alegre, a Green Cow, uma das estrelas da obrigatória cervejaria Seasons, antecipa no rótulo o lema de todo hophead, “De doce já basta a vida”, e avisa na receita: “água, malte, lúpulo, lúpulo e mais lúpulo e fermento”. Surpreende (além de ser não pasteurizada) o fato de ser uma Single Hop (100% Centennial) n com maltes Pilsen e Munich, provando que uma grande cerveja não necessita de misturas mirabolantes. De coloração âmbar acobreada com creme branquíssimo de boa formação e retenção, a Green Cow apresenta um aroma que une, com capricho, notas cítricas (maracujá e abacaxi), herbais (grama cortada) e florais sob uma base delicadamente caramelada. A textura é suave e o primeiro toque traz rápido caramelo atropelado no segundo seguinte por uma pancada porreta de amargor (62 IBUs reais), que abre caminho para um belo conjunto, amargo (cítrico e herbal), mas com dulçor caramelado buscando o equilíbrio. O final é levemente cítrico, amargo e caramelado. No retrogosto, tudo isso e mais sorrisos. Baita!

Fechando a sequencia com um novíssimo rótulo da Tupiniquim, outra da capital Porto Alegre: a Tornado é apresenta como Triple IPA (Imperial IPA tá valendo) por receber três vezes mais lúpulo que uma IPA tradicional e duplo dry hopping alcançando (exageradíssimos) 200 IBUs e 11% de álcool. De coloração âmbar alaranjada com creme branco levemente alaranjado de boa formação e permanência, a Tupiniquim Tornado apresenta um aroma com caprichadas notas cítricas (abacaxi, manga e maracujá) e herbais sobre uma base de doçura caramelada. Na boca, a textura é sedosa e picante. O primeiro toque oferece rápido caramelo atropelado no segundo seguinte por uma pancada de amargor (cítrico e herbal) não tão violenta quanto o rótulo avisa: 200 IBUs? 50 e olhe lá. Tirando essa grande decepção, a Tupiniquim Tormenta oferece um conjunto interessante cujo maior mérito é esconder 11% de álcool atrás de cítrico, caramelo e herbal. O final é amarguinho, cítrico e caramelado. No retrogosto, tudo isso. E sorriso.

Balanço
Abrindo o quinteto IPA gaúcho com o pé direito e uma bela representante do estilo vinda de Nova Prata, a Solerun IPA, com amargor potente e longo e caramelo lutando bravamente para equilibrar a contenda – e conseguindo em alguns momentos. Muito boa! A MoocaBeer India (vale lembrar que Mooca é uma designação indígena para ‘construir casas’) não enfia o pé no lúpulo como as American IPAs tradicionais, mas o usa com um capricho interessante que soa o meio do caminho entre a escola (tímida) inglesa e a (exagerada) norte-americana. Muito boa. A Malvadeza IPAFú é, o que chamo, uma IPA do Atlântico, que não parte com vontade para os exageros da escola norte-americana nem mantém o padrão clássico das IPAs inglesas, ficando no meio do caminho. É interessante, principalmente para quem está descobrindo o estilo. Já a Irmãos Ferraro CaturrIPA é uma American IPA de respeito e bem californiana, com lúpulos marcantes e boa refrescancia. Curti a cerveja e a história de que em frente à cervejaria há uma praça com caturritas que adoram lúpulo. Bem legal. A próxima é um ícone cervejeiro nacional: Seasons Green Cow, uma American IPA espetacular, dentre as cinco melhores do país (pode escolher outras quatro). Como não é pasteurizada, “viaja” em cadeia fria, de geladeira pra geladeira, o que encarece o produto final e é seu único empecilho. Mas é daquelas pra beber e se ajoelhar frente a vaquinha verde. <3 Fechando o sexteto com a terceira porto-alegrense da série, a Tupiniquim Tornado decepciona em relação ao amargor, que é, no mínimo, quatro vezes menor do que a rótulo anuncia, mas, ainda assim, surpreenda por ser uma Imperial IPA correta e que esconde forma surpreendente 11% de álcool. Menos marketing, mais cerveja.

Solerun IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,41/5

MoocaBeer India
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,13/5

Malvadeza IPAFú
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,05/5

Irmãos Ferraro CaturrIPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,7%
– Nota: 3,40/5

Seasons Green Cow
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 3,79/5

Tupiniquim Tornado
– Estilo: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,39/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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