Boteco: Três Witbier e Duas Saison Nacionais

por Marcelo Costa

De Pinhas, na região metropolitana de Curitiba, a Way apresenta sua Witbier com uma receita que traz limão siciliano, capim limão e camomila. De coloração dourada com leve turbidez e creme branco de boa formação e média retenção, a Way Witbier valoriza no aroma notas dos itens adicionados, com predomínio das ervas e leve sugestão de acidez. Há doçura de trigo na base e excessiva presença de capim limão e camomila. Na boca, textura levemente frisante. O primeiro toque ainda traz presença de trigo, com suave e rápida doçura atropela pelas notas cítricas e, principalmente, pelo herbal derivado do capim limão e da camomila, que tomam a frente do conjunto, e não largam. O amargor é baixo e, dai em diante, permanece a impressão de uma cerveja bastante refrescante, mas excessivamente “temperada”. O final é cítrico e herbal. No retrogosto, refrescancia, suave acidez, capim limão e camomila.

Mantendo-se em território paranaense com a Cervejaria Tormenta, de Piraquara, que também integra a grande Curitiba, com a Wit Bear, uma Belgian White que segue na mão contrária da Way, pagando tributo ao benchmarking do estilo nos EUA, a Blue Moon, com adição de casca de laranja e sementes de coentro. De coloração amarelo palha com média turbidez e creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Tormenta Wit Bear exibe um aroma suave com delicadas notas cítricas, condimentação leve e percepção da levedura. Na boca, a textura é levemente frisante. O primeiro toque traz logo picância de acidez carregada em notas cítricas (muito mais limão do que laranja) seguida de amargor baixo (apenas 15 de IBU). Dai em diante, uma cerveja leve e refrescante, com notas cítricas e condimentadas que pagam tributo a escola tradicional. O final é suavemente doce. No retrogosto, azedinho, trigo e refrescancia.

Saindo das witbiers para o estilo Saison com a Condessa d’Augusta, da Cervejaria Noturna, de São Paulo (produzida pela Blondine em Itupeva). Na receita, que homenageia os 140 anos da Rua Augusta (1875/2015), adição de sálvia, tomilho e alecrim. De coloração alaranjada com creme branco levemente puxado para o bege de média formação e permanência, a Condessa d’Augusta exibe um aroma exótico, com forte apelo dos itens adicionados sugerindo alecrim, manjericão, coentro e tomilho com acidez de levedura na base, tentando se destacar nessa horta líquida. Na boca, textura picante. O que era sugestão no aroma se amplifica no paladar de tal forma que pode tanto intimidar o bebedor quanto faze-lo se apaixonar ao primeiro gole. Há intensa presença de condimentos, o que só permite destaque para a acidez, ainda assim em segundo plano. O final é terroso e condimentado, sensações que retornam no retrogosto acompanhadas de adstringência. Difícil, mas interessante (ao menos para provar uma vez).

Voltando ao território das belgians wits brasileiras com a recém-lançada Mea Culpa Preguiça, quarto rótulo da cervejaria paulistana (os outros três são Vaidade, Gula e Ira), cuja receita une camomila, coentro e dry hoping do lúpulo japonês Sorachi Ace. De coloração amarelo palha levemente turva com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Mea Culpa Preguiça exibe no aroma as notas personais (e deliciosas) do lúpulo japonês Sorachi Ace sugerindo cítrico (limão e abacaxi), floral e herbal (capim limão), este último acentuado pelo uso de camomila e coentro. Na boca, textura levemente frisante. O primeiro toque traz notas cítricas e herbais suaves (remetendo ao poder do Sorachi Ace) seguidas de amargor baixo, que abre as portas para uma cerveja refrescante e saborosa, com notas cítricas, herbais e florais em sintonia. O final é levemente herbal. No retrogosto, refrescancia, herbal e cítrico. Boa!

Fechando o quinteto com a segunda Saison da série: de Gramado, a Gram Bier marca presença com a Saison de Physalis, que recebe adição da fruta exótica que dá nome à cerveja numa bela garrafa rolhada. Na taça, uma cerveja de coloração âmbar caramelada levemente alaranjada com creme bege clarinho de média formação e rápida dispersão. No nariz, doçura de caramelo e mel mais suave frutado cítrico tanto de Physalis quanto de pêssego. Há uma percepção distante de acidez. Na boca, a textura é sedosa e levemente frisante. O primeiro toque traz mais frutado do que doçura, que siga em segundo plano. O amargor é baixo (26 de IBU) e, dai pra frente, surge um conjunto que exibe bastante presença da fruta, caramelado comportado e quase nada da acidez tradicional da levedura do estilo. O final é levemente doce e cítrico. No retrogosto, um pouco de pêssego, physalis, caramelo e campo. Interessante.

Balanço
Abrindo o passeio Witbier com a curitibana Way, que encantou o Festival de Blumenau 2013 com uma Wit que passava por barris de Chardonnay, e aqui decepciona um tiquinho com uma receita temperada demais: quase impossível desconectar do capim limão e camomila, o que reduz drasticamente a receita. Talvez funcione melhor acompanhada de salada e petiscos do mar, mas, sozinha, é um chazinho gelado com 5% de álcool. Eu esperava mais. A Tormenta Wit Bear destaca um rótulo divertido para uma cerveja que respeita a tradição. O conjunto me soou um pouco apagado, mas ainda assim prefiro essa segunda em relação à primeira (e também à terceira) por entregar o bom sabor do estilo sem exagerar no tempero. A Condessa d’Augusta foi uma surpresa provocante no meu estilo favorito, o Saison, que no fim das contas perde espaço para o exagero: sabe quando você deveria colocar uma pitada de algum condimento em algo, mas o pacote vira inteiro? É mais ou menos isso que parece acontecer com a sálvia, o tomilho e o alecrim nesta receita com o conjunto sugerindo o fundo de um velho cinzeiro de balada na Augusta. Essa é daquelas “ame ou odeie”. A Mea Culpa Preguiça é poderia ser chamada de Single Hop Wit, já que o lúpulo Sorachi é o grande destaque de seu conjunto, que ainda tem na camomila um ótimo parceiro, resultando numa wit meio torta, mas agradável. Fechando o quinteto com uma cerveja de Gramado, a Gram Bier Saison de Physalis, que trouxe pouca coisa de Saison, mas se mostrou interessante pela adição da fruta, que merece carinho e pesquisa, pois pode vir a se tornar em uma grande receita. Do jeito que está, está ok, com doçura e frutado equilibrados e quase nada do estilo belga que batiza a cerveja. Mas pode ir além.

Way Witbier
– Estilo: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,91/5

Tormenta Wit Bear
– Estilo: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,92/5

Noturna Condessa d’Augusta
– Estilo: Belgian Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 2,73/5

Mea Culpa Preguiça
– Estilo: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,01/5

Gram Bier Saison de Physalis
– Estilo: Belgian Saison
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5,6%
– Nota: 3,01/5

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