Preste atenção no BaianaSystem

por Marcelo Costa

Em fevereiro deste ano, Ana Freitas, do Nexo Jornal, explicava porque o BaianaSystem era a grande banda do Carnaval 2016: “Letras politizadas e raízes musicais misturadas ao rap, rock e música jamaicana são a base do fenômeno baiano deste ano”, ela descreveu. Naquele momento, o quarteto ainda não tinha colocado na praça seu segundo álbum, “Duas Cidades”, lançado no mês seguinte, sucedendo o EP “Pirata” lançado em 2013 e o bom disco de estreia de 2010. Por isso já é possível atualizar a defesa da Ana: o BaianaSystem é a grande banda brasileira de 2016.

Antes, porém, teve a confirmação do efeito pré-Carnaval e Carnaval, e quem teve a chance de assistir a algum dos vários vídeos que circularam pela web do BaianaSystem agitando uma multidão em Salvador descobriu algo que vem tomando de assalto a capital soteropolitana nos últimos anos em proporções gigantescas: hoje em dia, uma apresentação do BaianaSystem é um mega evento que une tribos numa massa que dança uma música vibrante, que incentiva as pernas a chacoalharem, mas não ignora o cérebro, com letras críticas que observam o mundo transformando ditados populares em poderosos manifestos.

“Duas Cidades”, o novo álbum, conta com Daniel Ganjaman na produção e está disponível nos principais players de streaming e, ainda, no Soundcloud e no Youtube (play no fim da página). São 40 minutos de, como adianta o release, “Ijexá, Afoxé, Dancehall, Pagodão, Sambareggae, Cumbia, Chula, Dub, Cabula, Kuduro, Samba Duro, Cantiga de Roda, Eletrônica” divididos em 10 canções (uma delas a instrumental “Cigano”) e mais duas vinhetas (três na verdade) num disco que conta com participação de Siba, das Ganhadeiras de Itapuã e de um trio percussivo de respeito: Ícaro Sá (Orquestra Rumpillez), Japa System (Timbalada) e Márcio Vitor (vocalista e fundador do Psirico).

No BaianaSystem, SekoBass é o responsável pelos graves e pelas batidas eletrônicas; Filipe Cartaxo assina as máscaras e a arte marcante do quarteto; idealizador do BaianaSystem, Roberto Barreto é responsável pela guitarra baiana, reverenciando os mestres Dodô & Osmar, uma marca registrada da sonoridade do grupo; à frente, Russo Passapusso na voz, responsável por um dos grandes discos de 2014, “Paraiso da Miragem”, e desde já integrante de um dos grandes discos nacionais de 2016.

“Jah Jah Revolta Pt 2” abre o álbum recuperando o tema suave ‘made in Jamaica’ (grifo de BNegão) presente no disco de estreia e o amplia misturando “feijão, farinha e dendê” com muita ginga. “Bala na Agulha” é mais agitada enquanto passeia (observando da janela do ônibus) por bairros e atrações de Salvador. “Dance devagar dentro do meu peito”, canta Russo. Nascida de um riff do músico argentino, radicado em Salvador, Mintcho Garrammone, “Lucro (Descomprimindo)” exige: “Tire as construções da minha praia / Não consigo respirar (…) Especulação imobiliária e o petróleo em alto mar / Subiu prédio eu ouço vaia”. O refrão reforça: “Lucro, maquina de louco / você pra mim é lucro”.

A faixa título critica a segregação e a divisão de classes usando espertamente o desenho da capital baiana para passar sua mensagem: “Divi-dividir Salvador / Diz em que cidade você se encaixa / Cidade Alta, Cidade Baixa / Diz em que cidade você”. A faixa seguinte, “Playsom”, é a única canção brasileira no game “Fifa 2016”, e já é um dos grandes momentos do show. A África ecoa no refrão pungente de “Dia da Caça”, com acompanhamento de Ganhadeiras de Itapuã e uma realidade atual: “A polícia violenta vai ditar política” (na estrofe seguinte, Passapusso “equilibra” o olhar com a resposta violenta do povo: “Tem buzun pegando fogo / o jogo de atrocidade”).

O trecho final do álbum é aberto com a acelerada “Panela” seguida de “Calamatraca”, um olhar sobre o mega evento mundial que se tornou o carnaval baiano, em primeiro plano, e os shows do BaianaSystem, em particular. Se o disco começa com a parte 2 de uma canção do primeiro álbum, o álbum fecha da mesma forma, com “Barra Avenida Pt 2”, que une samba reggae baiano, Fela Kuti e batidas eletrônicas. Antes da cortina se fechar, uma terceira faixa instrumental chamada “Azul”, escondida, surge suave sugerindo um lounge praieiro. A viagem (de ônibus com fones de ouvindo) pela capital soteropolitana está completa. Bora começar tudo de novo.

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