Três CDs: Judas, Supervão, Rei Zula

por Leonardo Vinhas

“Casa de Tolerância no 1”, Judas (Martelo)
Quem conhece o Judas de seu álbum de estreia, “Nonada” (2014), pode tomar um susto ao ouvir esse recém-lançado EP (quase um single, na verdade). “Oroboro” tem se tornado uma das favoritas dos shows, mas, em vez da estética da música caipira baseada no rock, essa faixa bebe direta e assumidamente do lado mais romântico de Fagner e de Roberto Carlos. A faixa-título também é alimentada por fontes setentistas, só que as águas são bem mais psicodélicas – algum ponto entre Guimarães Rosa, Geraldo Azevedo e Led Zeppelin. Só “Cada Cidade, Um Porto” guarda semelhanças com o disco anterior, mesmo assim vem com surpresas, como a voz de Maria Sabrina (da banda Maria Sabrina & a Pêia) em dueto com Adalberto e os coros quase cabrocheiros. Com este EP, o Judas – de Brasília – ainda não atingiu o apelo pop que talvez esteja em suas ambições, mas não apenas sinalizou que caminha nesse sentido como também confirmou sua vocação para correr riscos e entregar música que surpreende o ouvinte.

Nota: 6,5 (Ouça no Soundcloud)

“Lua Degradê EP”, Supervão (Honey Bomb Records / Lezma Records)
Pense numa molecada que cresceu ouvindo coisas feitas antes de eles nascerem e agora procuram trazer isso para o presente…. Calma, não estamos falando de garotos de 15 anos tocando classic rock. Mario Arruda (voz e programações), Leonardo Serafini (guitarra) e José Fonseca (baixo) não são tão jovens assim, tampouco estão inspirados por clichês desgastados. O imaginário do trio é habitado por paisagens urbanas enevoadas onde o pós-punk cai como trilha de romance, trip drogada ou uma bem-vinda tarde vazia. Dá para identificar referências de The Cure, Jesus & Mary Chain (o visual parece diretamente inspirado pelos irmãos Reid) e Siouxsie & The Banshees, mas a pretensão (nem sempre atingida) de fazer dançar e conseguir certa “tropicalidade” em meio à névoa garante a personalidade da banda. “Vitória Pós-Humana” pega firme já na primeira audição, “Cadilac Olodum” ganha o prêmio de “melhor título esdrúxulo do mês”, “Degradê” é uma festa, “Lua em Gêmeos” é o Violeta de Outono com aspirações clubber, e ainda tem a algo anódina “O Imperdível Momento da Semana”. Quando a banda conseguir casar as batidas que estão em sua cabeça com as sequências de seus computadores, perigam ficar grandes. Por ora, entregam “só” um bom começo.

Nota; 6,5 (Ouça no Soundcloud)

“Jamaichianas Brasileiras”, Esperando Rei Zula (independente)
Recriar clássicos de determinado gênero em outro estilo que nada lembra o original não é novidade e, de Dread Zeppelin a Easy Star All-Stars, é possível perceber que a música da Jamaica tem carinho entre os versionistas. Ainda assim, o resultado final do EP de estreia dos brasilienses Esperando Rei Zula surpreende. Formado por integrantes (ou ex-integrantes) do Móveis Coloniais de Acaju, Bois de Gerião e Prot(o), o quinteto pega seis composições das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, e as refazem em versões que trazem elementos de reggae, rock steady, dub e ska. É uma “perversão” justa, aliás, já que o compositor erudito se apropriou as formas pré-clássicas de Bach para dar sua leitura de ritmos regionais do Brasil. Assim, “O Trenzinho do Caipira” faz uma nova escala de sua viagem, que começou na Europa, passou pelas salas de concerto das metrópoles brazucas e agora dá um rolê ensolarado pela Jamaica, e a “Embolada”, das Bachianas Brasileiras no1, fica ainda “bolada”. Porém, é com “Cantilena” e “Fantasia” em que eles mostram que a abordagem erudita da música caipira pode desembocar em psicodelia de alto potencial, dando tragadas precisas na fumaça dub. Um dado interessante: o disco foi gravado com recurso do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, e como contrapartida, a banda está fazendo shows em escolas da rede pública, onde também distribui algumas cópias físicas. Educação é isso aí.

Nota: 8 (Download gratuito)

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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