Conexão Latina: Fargus

por Leonardo Vinhas

Ariel Migliorelli fala como um cavalheiro, e age e veste-se como tal. Esse comportamento, entre o dândi moderno e o “homem comum” do passado, se reflete em sua música, que aparece em diferentes projetos que vão do pop a trilhas para espetáculos de dança, mas que encontra melhor tradução nas suas aproximações com o pop, especialmente nos que grava sob o nome Fargus.

Do disco de estreia, “Real” (2005), ao álbum mais novo, o ainda não lançado “Pixel”, passaram-se mais de 10 anos, e o som da banda, que bebe tanto em Luis Alberto Spinetta como em Caetano Veloso (dois de seus heróis musicais), parece ter mutado de um pop plácido e contemplativo para um som mais luminoso e ambicioso, que olha também para o mundo fora da introspecção.

Paulatinamente, Migliorelli vem liberando algumas faixas desse disco vindouro em sua página no Soundcloud. Já em “Luz”, o tema de abertura, se nota a diferença: há guitarras cheias de power chords nos versos, levando a um refrão com elementos clássicos do pop argentino, da inflexão vocal ao andamento mais veloz. No meio disso, as estruturas mais jazzísticas e “quebradas” de “Real” parecem entrar apenas como uma ponte entre essas partes mais diretas e acessíveis.

Tal “acessibilidade pop”, aliás, já aparecia mais nítida no Aveimán, espécie de supergrupo do underground rosarino que Migliorelli montou com Sandra Corizzo e Javier Allende. O disco homônimo que a banda lançou em 2012 é uma pérola do pop argentino a ser descoberta, onde a estrutura intrincada não impede a abordagem direta e a imprevisibilidade dos arranjos funciona a favor da beleza e da sensualidade.

Pelo que Migliorelli vem mostrando e contando a respeito, “Pixel” promete entregar a mesma qualidade, ainda que com uma abordagem mais pessoal – já que o Fargus executa suas composições, enquanto o Aveimán tocava as de Sandra Corizzo. Para saber mais sobre o disco, a extensa e apaixonada relação do músico com o Brasil e o clipe “buena onda” que fizeram para a versão de “Tendo a Lua”, dos Paralamas do Sucesso (presente no tributo “Caleidoscópio“), leia a entrevista a seguir.

O Fargus nasceu como projeto solo ou é uma banda de fato?
É um projeto pessoal que em um momento da minha vida poderia ser definido como um vértice, que apareceu em 2004 e atravessou diferentes formações em busca de uma sonoridade própria. Precisava amadurecer essa energia, deixá-la se concentrar e então mantê-la. Felizmente foram quase 11 anos ininterruptos. Sempre superamos a nós mesmos e hoje estamos com um áudio bem compacto. É enorme meu agradecimento para cada um que deu sua dedicada contribuição [à banda]. Somos muitos os que crescemos com Fargus e continuaremos a fazê-lo Como tudo gira em torno de minhas canções é natural que a responsabilidade recaia sobre mim: o som nasce em minha cabeça, e o tornamos real com o aporte de cada integrante, nos ensaios e nos shows. É uma forma de criar que põe a espontaneidade em campo e a essência de cada músico é parte da “filosofía fargusiana”. Recentemente, venho sentindo a necessidade de um olhar mais introspectivo, e ainda que não me sinta confortável com a expressão “artista solo”, isso é algo que estou armando em Miglio, um set solista que tenho experimentado em diferentes palcos, como bares, mostras de arte, jams de dança, nos quais tudo é muito lúdico e pode acontecer de tudo.

Mas voltando ao Fargus: dá para sentir a ligação muito forte com o rock argentino clássico, mas não dá para ignorar que ali tem David Bowie, Elvis Costello, essa referência dos artesãos pop ingleses – mais que referências dos EUA, por exemplo. Então esse “olhar introspectivo” seu traz coisas de fora.
É que me sinto muito influenciado por essas coisas. Por Caetano [Veloso], Peter Gabriel, Bowie, Depeche Mode, Spinetta, as primeiras épocas de Charly [García] e Fito [Páez], Lenine. Esses, e tantos outros que admiro, são incansáveis buscadores. Para eles, não basta ficar com o que foi feito, eles sempre querem mais. Não por inconformismo, mas pela natureza de suas buscas, pela coerência com os processos criativos, que estão sempre além das diretrizes do mercado.

Aproveitando a menção à Bowie: dá para notar que você cuida muito da sua imagem: ternos, roupas de palco e de vídeo, penteados, é tudo bastante singular e cuidado. Você é dos que acreditam que o rock precisa de uma imagem bonita?
Minha imagem foi mudando com o passar dos anos e é reflexo da relevância que dou à música na qual cada detalhe conta – claro que sem perder a espontaneidade, a surpresa. Ela precisa desses mimos e não falo apenas do estético. O que o pop e o novo rock precisam é de coerência com sua função, que é sacudir a terra da nostalgia. Creio que existe muita “música nova” à qual temos que prestar atenção e que está a nossa frente a um clique de distância. Contamos com tantos meios e alternativas a nosso alcance que dedicar toda a energia em parecermo-nos a outros é uma pena. O estético ajuda a contar esta outra forma de pensar a nós mesmos, mas também precisamos de empresários e produtores mais comprometidos com o artístico e o humano, não somente com o econômico. Estamos em uma era na qual a música que escutamos não soa, em grande parte, nos meios massivos, e sim em festivais e encontros independentes, que aumentam cada vez mais, principalmente na América Latina. Ainda que não contemos com os melhores recursos, os latino-americanos sabemos, sim, de elegância.

Onde estava a principal diferença entre Aveimán e seu trabalho com o Fargus?
As canções são de outro compositor (nota: no caso, Sandra Corizzo), se nota claramente Foi um projeto com uma qualidade artística excepcional e não acho que pega mal dizer que Sandra é uma das compositoras mais prolíferas desses tempos, é uma máquina poderosa. Digo isso com conhecimento de causa: vimos trabalhando juntos há muitos anos, ao vivo e em estúdio. E contar com Javier Allende na bateria foi uma combinação perfeita. Encaramos a produção com muito tempo de ensaio e maturação. Não ficamos com vontade de fazer nada que não tivéssemos feito. No disco do Aveimán você encontra excelentes canções de atração celeste, letras e arranjos elaborados, climas eletrônicos, cordas, metais e convidados de luxo, como Claudio Cardone, Matías Sorokin e Adrián Schinoff, entre outros músicos rosarinos. Aliás, recomendo fuçar a web atrás do trabalho deles.

Sei que sua trajetória musical precede o Fargus, então acho que cabe uma breve recapitulação.
Comecei a estudar piano clássico já desde novinho, e assim quando cheguei à sexta série já tinha terminado o conservatório. No ano seguinte entrei na Escuela Nacional de Música. Já no ensino médio eu tocava com um amigo nas festas da escola e nas missas – quando nos deixavam, porque fazíamos muito barulho com a bateria (risos). Estudei Composição na universidade enquanto tocava em bandas e em 1995 começamos, eu e Fernando Laura (músico e produtor hoje radicado no México), a gravar em nosso estúdio. E os últimos tempos trouxeram muitos projetos simultâneos ao Fargus: a produção de um disco para crianças, a banda Aveimán, com Sandra Corizzo e Javier Allende; a direção musical da Comedia Municipal de Teatro de Rosario em 2014. Em 2015 ainda acompanhei Diego Drexler e Mariana Lucía nas turnês e participei do disco dela, “Mi Corazón Bombón”. Houve ainda outros trabalhos como músico e produtor.

O Fargus está em estúdio agora. O que podemos esperar para o próximo disco, 10 anos após o primeiro?
Luminosidade, sinceridade e sobretudo intensidade. “Real” (2005) era muito mais introspectivo, “Pixel” é mais direto e despojado, com atmosferas elétricas carregadas de adrenalina. Começa com uma canção na qual a letra é apenas a frase “no dejes de decirme que pare, no quiero olvidar que sigo” (não deixe de me dizer para parar, não quero esquecer que continuo). E é um disco conceitual, no qual os títulos das canções se entrelaçam em uma frase, que reza “Sigo Vivo, um Pixel Espera. Frágil Luz, Resplandor del Secreto. Persigo Sueños, son mi Antena de Sincronía con el Aire, mi Estrella, mi Cúmulo de Luz”.

As faixas estão aparecendo aos poucos no Soundcloud da banda. Isso não tira a força do disco e do conceito? Ou ao contrário?
Todos os recursos somam, e graças a essas ferramentas podemos escutarmos uns aos outros em segundos e compartilhar o que fazemos. Só que às vezes, por diversas questões (como as econômicas), os tempos se dilatam um pouco e pode ser que, como você diz, perca-se um pouco da força. Mas espero que o tempo saberá compensar essa perda.

Como foi gerado esse vídeo de “Tendo a Lua”?
Desde o primeiro momento nossa intenção era gravar juntos e tudo aconteceu muito naturalmente. Ocorreu-nos deixar uma câmera fixa, sem muitas expectativas. Começamos com o registro da base (Santiago Aguilera na bateria e Julián Acuña na guitarra) sobre umas vozes de referência. Isso do “ao vivo” nos permitiria conectar-nos com essa aura mântrica que queríamos imprimir à canção, e para nossa surpresa conseguimos no primeiro take. Isso nos motivou a continuar com o registro audiovisual. Adicionamos overdubs de guitarras, vozes complementarias e synths para fechar com o ukelele e as vozes definitivas, tendo Sandra Corizzo como convidada. Nessa etapa final chegou Cristian Bovina, o editor do vídeo, com uma câmera a mais. Foi daí que veio o frescor dessas imagens, que não fazem nada além de mostrar o quanto curtimos gravar essa versão, sem esconder nada.

O estúdio impressiona. Quando mostrei o vídeo para outros participantes do disco “Caleidoscópio”, todos ficaram surpresos com a amplitude da sala e os equipamentos. Como você conseguiu que o estúdio esteja em um padrão tão alto?
Chegamos a essa configuração que se vê no clipe depois de 20 anos de trabalho e o desenhamos para gravar a maior quantidade possível de instrumentos ao vivo. Foi construído “para a música”, já que se adapta a cada formação que toca ali e os músicos ficam sempre muito à vontade. Eu sei que isso parece óbvio, mas é algo que não ocorre com muita frequência, como sabe qualquer músico. Hoje são três salas de gravação com acústicas bem diferentes e personalizáveis, com uma excelente visibilidade entre elas e um espaçoso control room, que, de manera panóptica, se conecta com os demais espaços. A madeira natural predomina nos tetos, paredes e pisos. Foi assim que o imaginou a arquiteta, Ana Valderrama.

Quem já gravou aí?
Os músicos que passaram por aqui felizmente foram muitos e de estilos super diferentes. Jorge Fandermole, Sandra Corizzo, Carlos Aguirre, Juancho Perone, Aveimán, Rumble Fish, El Entrevero, El Fuego de la Semilla, Pasaje Noruega, Escolaso Guitarra Tango Trío, Joel Tortul, Mobyfreak, Orquesta Utópica, entre tantos que escuto frequentemente e com os quais tenho o prazer de participar de suas cirações, como músico ou produtor. Do tango ao rock, do instrumental à canção pop, passando por todos os rincões imaginados, já se realizaram 120 discos no Corcovado, além de cerca de 30 produções artísticas integrais. Acho maravilhoso que tantos tenham confiado no meu trabalho e me enche de orgulho tudo o que fizemos.

O nome tem a ver com o tempo que você viveu no Brasil, não?
Tem muito a ver com o Brasil, com o movimento, o dinâmico.

Você teve uma experiência longa na Brasil. Chegou a morar aqui, não foi?
É apaixonante conhecer lugares e seu povo, de modo que eu e minha família percorremos praticamente toda a costa e várias cidades do interior do Río e de São Paulo até o Sul, tudo em motorhome. Por isso, desde muito novo a música do Brasil ocupou uma cota importante da minha vida, e olha que não estou exagerando! Trazíamos cassetes e CDs de tudo o que tocava, coisas internacionais e uma lista interminável de música brasileira: MPB, bossa, samba-enredo, pagode, forró, jazz, pop, rock, Caetano, Hermeto Pascoal, Tom Jobim, Cássia Eller, Gilberto Gil, Elis Regina, Ratos de Porão, Daniela Mercury, Bebel Gilberto, Marcelo D2, Maria Rita, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Lenine, Vanessa Da Mata, Moska e muito mais. Até, claro, os Paralamas do Sucesso, que não podiam faltar. Essa versão de “Tendo a Lua” foi um reencontro com eles. “Os Grãos” foi o primeiro disco dos Paralamas que chegou às minhas mãos. Me disseram muitas vezes: “você escuta mais músicos daqui [do Brasil] do que eu, que vivo aqui, conheço”. Faz tempo que não volto ao país e realmente sinto muita falta, mas é que nesses últimos anos a música tem me levado para outros destinos. Hoje tenho certeza que muito em breve voltaremos a nos encontrar.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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