Boteco: 10 países, 10 cervejas

por Marcelo Costa

De Montreal, no Canadá, minha primeira Dieu du Ciel!, uma cervejaria que vem recebendo muitos elogios. Essa Disco Soleil é uma American IPA que recebe adição de Kumquat, uma fruta também conhecida como Cunquate, Fortunella e Citrus Japonica – ou seja, é da família das frutas cítricas. No de coloração alaranjada com creme branco levemente alaranjado de boa formação e média alta permanência, a Dieu du Ciel! Disco Soleil apresenta um aroma cítrico agradável (que remete a toranja) abrindo espaço, ainda, para herbal (pinho) e leve resina. Na boca, a textura é suavemente picante. O primeiro toque pra forte caráter cítrico reforçando a impressão de toranja. O amargor é caprichado, mas não excessivo, abrindo as portas para um conjunto bastante refrescante e de pegada cítrica, com herbal e amargor na cola. O final é amarguinho e o retrogosto, cítrico, herbal e refrescante. Uma ótima American IPA.

De Ettal, na Baviera alemã, a segunda Benediktiner a passar por este blog, desta vez a German Dunkelweizen da casa (Benediktiner Weissbier é facilmente encontrável), uma cerveja de coloração âmbar avermelhada translucida com creme bege de boa formação e média permanência. No nariz, a Benediktiner Weissbier Dunkel exibe um aroma alemão tradicional, com doçura de caramelo, trigo e banana caramelada. Há ainda leve percepção frutada (ameixa) e toffee. Na boca, textura sedosa. O primeiro toque confirma o que o aroma adianta com caramelo seguido de banana e ameixa. O amargor é bastante baixo, e dai pra frente surge uma Dunkelweizen agradável, mas que soa excessivamente doce – caramelo, banana, ameixa e toffee bastante presentes e absolutamente nada de amargor. O final é traz trigo, banana e caramelo. No retrogosto, trigo, banana e caramelo. A Weissbier tradicional deles é melhor.

De Borgorose, cidade a cerca de uma hora de Roma, minha décima terceira cerveja da Birra Del Borgo, e mais uma boa surpresa destes italianos: Genziana, uma Spice Herb sazonal feita na primavera cuja particularidade é a infusão de raízes da planta genziana nos últimos estágios da fervura. O resultado é uma cerveja de coloração amarelo turva com creme branco de baixa formação e rápida dispersão. No nariz, sugestão suave herbal (raízes) e campestre com doçura de mel, terroso, marshmallow e tutti-fruti. Na boca, a textura é cremosa e levemente picante. O primeiro toque traz doçura de mel seguida de herbal intenso mais terroso suave. O amargor é mediano, mas bastante eficiente, com um traço herbal que remete a raízes (trazendo algo de hortelã, bem distante) e dá um colorido especial ao conjunto, dominado pelo mel – sem soar excessivamente doce. O final é maltado e herbal. No retrogosto, mel, herbal e pêssego. Adorei.

De Portland, no Maine norte-americano, minha décima Shipyard é uma Fruit Beer cuja base é de uma cerveja cuja receita une os maltes 2-Row British Pale Ale e Light Munich com trigo e lúpulos Willamette e Hallertau mais infusão de maçã. O resultado é uma cerveja de coloração ambar alaranjada com creme branco de baixa formação e rápida dispersão. No nariz, muita sugestão de maçã seguida por canela e cravo remetendo a tortinha de maçã do McDonalds (como antecipou um amigo). Na boca, a textura começa suave e via ficando suavemente ácida. O primeiro toque não mantém o brilho que o aroma adianta sobrepondo os temperos ao sabor da maçã. Um leve toque de acidez surge na sequencia e o amargor aparentemente não existe, com a doçura e a acidez da fruta, levemente acompanhada por especiarias, concentrando a atenção. O final sugere maçã e canela. No retrogosto, mais maçã, mais canela. Esperava mais.

De São Petersburgo, na Rússia, uma cerveja da Пивоваренная компания “Балтика”, a maior cervejaria russa (também conhecida por Baltika Breweries), que abriu as portas em 1990 para dominar o mercado do país, e em 2008 passar para as mãos da Carlsberg Group, que levou a marca para todos os cantos do planeta (Brasil inclusivo). A Baltika Number 8 é a Wheat Ale dos russos, muito mais alemã do que belga. De coloração âmbar caramelada com turbidez média e creme branco de boa formação e média alta permanência, a Baltika Number 8 apresenta um aroma tradicional de banana e cravo, típico do estilo. Na boca, textura cremosa e picante. O primeiro toque, como se espera, traz doçura de caramelo seguida de banana e cravo, trio que irá dominar o conjunto, bastante equilibrado dentro na tradição do estilo alemão. O final traz caramelo e picância. No retrogosto, cravo primeiro, banana depois e, então caramelo. Boa!

De Silly, município de 8 mil habitantes na Valônia belga, surge a Brasserie de Silly, cuja história remonta a 1850 e é aqui representada pela Abbaye de Forest, uma Blond Ale lançada em 2005 em homenagem a uma abadia que existiu entre 1106 e 1764, quando foi destruída por um incêndio. Na taça, uma cerveja de coloração amarela com suave turbidez apresenta um creme branco de boa formação e permanência. No nariz, um aroma agradabilíssimo de frutas cítricas (limão e abacaxi), ervas (capim limão), floral e especiarias além de suava base de mel e trigo. Na boca, textura frisante e picante. O primeiro toque junta acidez suave com frutas cítricas e capim limão, tudo isso atropelado pelo amargor, eficiente (com auxilio da acidez), que abre as portas para um conjunto refrescante, que sugere mais doçura que o aroma percebe, mas não esconde as deliciosas sugestões de frutas cítricas, trigo e capim limão. No final, suave herbal. Já o retrogosto exibe leve adstringência, cítrico, herbal e trigo. Delicinha.

Da Cidade do México, no México, o Grupo Modelo, cervejaria fundada em 1922 e comprada em sua totalidade pela Inbev em 2012, marca presença com o carro chefe da casa, e uma das cervejas mexicanas mais conhecidas mundo afora: Negra Modelo Vienna Lager, produzida pela primeira vez em 1926. De coloração âmbar acobreada com creme bege claro de boa formação e média permanência, a Negra Modelo apresenta um aroma dominado pelo malte, que sugere doçura de caramelo e frutado de banana. Há ainda sugestão de madeira e discreto herbal. Na boca, textura levemente picante trazendo consigo sugestão metálica. O primeiro toque traz doçura caramelada seguida de frutado (banana e um tiquinho de ameixa) e leve acidez, que se une ao amargor, médio. Dai pra frente um conjunto discreto com um final levemente doce e metálico. No retrogosto, caramelo distante e… só.

Do Leblon, no Rio de Janeiro, a Jeffrey surge agora com seu segundo rótulo, após a excelente acolhida recebida pela estreante Nina. Desta vez, os cariocas apostam na receita de uma Red Pilsen, uma sugestão de variação do estilo Red Ale que se encaixa melhor no estilo Bohemian Pilsener. A receita une malte alemão com lúpulo tcheco resultado em um líquido de coloração âmbar avermelhada com creme bege de alta formação (inclusive com um pouco de gushing) e média retenção. No nariz, o malte tostado distribui notas carameladas tanto quanto sugere pão e leve frutas escuras. Há, ainda, suave herbal. Na boca, textura sedosa. O primeiro toque traz doçura caramelada com leve sugestão de nozes. O amargor é baixo e traz consigo notas herbais suaves abrindo as portas para um conjunto que mantém um traço de doçura sem soar doce demais. O final traz frutas escuras. No retrogosto, caramelo e ameixa vermelha.

Minha segunda cerveja da Wychwood (a primeira foi a boa Hobgoblin), cervejaria de Witney, cidade a oeste de Oxford, na Inglaterra, a King Goblin é uma English Strong Ale (de 6.6% de álcool, o que para britânico é “Strong”) cuja receita une três maltes (Pale, Crystal e Chocolate) com os lúpulos Fuggles e Styrians e é produzida, segundo a Wychwood, somente em noites de lua cheia. De coloração âmbar acastanhada com creme bege de ótima formação e média alta retenção, a Wychwood King Goblin exibe um aroma que sugere de forma suave tanto doçura de açúcar queimado e baunilha quanto frutas escuras (ameixa). Na boca, a textura é sedosa com leve picância alcoólica. O primeiro toque traz mais frutado que doçura, acrescendo suave sugestão de marmelada. O amargor é baixo, mas consegue equilibrar um conjunto que parecia tender a doçura, mas ganha pontos por ser mais frutado e “amadeirado”. O final traz algo de casca de ameixa. No retrogosto, mais ameixa, leve terroso e doçura distante. Gostei.

De Faxe, cidade de 4 mil habitantes a cerca de uma hora da capital Copenhague, surge a Faxe Bryggeri, cervejaria fundada em 1901 que perde em vendas em casa para a Harboes Bryggeri (Bear Beer), mas ganha no quesito exportação (as duas brigam para ver quem faz a Malt Liquor mais sem graça do mundo). Essa Faxe Witbier é vendida em latões de um litro (!), mas não se assuste, porque apesar de estarem próximos da Bélgica, eles não tem a mínima ideia do que é uma “Biere Blanche de Style Belge”. De coloração amarela levem ente turva com creme branco espesso de boa formação e média alta permanência, a Faxe Witbier apresenta um aroma com intensas notas frutadas sugerindo… banana e cravo. Sim, eles erraram a fronteira e a levedura. Na boca, a textura é suave com leve picância. O primeiro toque oferece banana e cravo e na sequencia um amargor suave, que abre as portas para um conjunto interessante de German Weizen. O final traz banana e cravo enquanto o retrogosto reforça essas sugestões. Apenas ok.

Balanço
A canadense Dieu du Ciel! Disco Soleil se mostrou uma ótima American IPA, com o perfil dominado pela fruta adicionada, a tal de Kumquat, que acrescenta percepção de toranja ao conjunto, e a diferencia. Muito boa. Já a Benediktiner Weissbier Dunkel soou doce demais, o que atrapalha um pouco o drinkability (ainda mais em uma cerveja de 500 ml). Sugere trigo, banana, caramelo e até ameixa, mas no final o que vence é a doçura. Esperava mais dela. Do mesmo jeito, eu sempre espero coisas boas da Birra Del Borgo, e a Genziana não decepcionou, muito pelo contrário: me arrependi de ter apenas uma garrafa dela em casa. Me soou uma Cream Ale com forte presença herbal e algo de tutti-frutti. Baita. Quero outra. Minha décima Shipyard, sozinha na taça, soou uma decepção: Applehead, uma cerveja que recebe infusão de maçã, e mais parece uma tortinha de maçã do McDonaldas líquida. Talvez acompanhando um prato seu perfil consiga brilhar, mas sozinha parece um suco de maçã com tempero de canela. Muito pouco. Fechando esse primeiro quinteto, uma Weiss russa de São Petersburgo que segue o padrão bávaro de boas cervejas de trigo. Nada revolucionário, nada de novo, mas fiel ao estilo clássico.

Abrindo o segundo quinteto com uma ótima Blond belga da Valônia, Abbaye de Forest, que equilibra bem notas cítricas e herbais com doçura de mel e trigo. O que mais impressiona e conquista o paladar é a percepção de capim limão no conjunto. Uma delícia. Bastante popular por sua garrafinha esbelta, a Negra Modelo Vienna Lager deixa a desejar em relação ao estilo, mas precisa ser encarada como uma cerveja simples que oferece nuances (simplistas) que vão além do imperialismo Premium American Lager. Ou seja, ela está um pouco acima de suas companheiras louras, mas nem tanto assim. A carioca Jeffrey Red Pilsen não me impressionou tanto quanto a Nina, a witbier que foi um dos destaques do Mondial de La Biere Rio 2014, mas é uma cerveja interessante que traz algo de ameixa vermelha e caramelo. A britânica King Goblin fez bonito com um conjunto levemente terroso e puxado pra ameixa, com um azedume arisco leve marcando presença. Curti. Fechando a lista de 10 cervejas, 10 países, a Dinamarca é representada pela Faxe, especialista em Malt Liquor decepcionantes (muito álcool, nada de sabor), que aqui confunde a fronteira (e a levedura) e entrega uma German Weizen alemã no lugar de Witbier belga.

Dieu du Ciel! Disco Soleil
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,31/5

Benediktiner Weissbier Dunkel
– Produto: German Dunkelweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,4%
– Nota: 2,92/5

Birra Del Borgo Genziana
– Produto: Spice Herb
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 3,53/5

Shipyard Applehead
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,75/5

Baltika Number 8
– Produto: Wheat Ale
– Nacionalidade: Rússia
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,08/5

Abbaye de Forest
– Produto: Blond Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,33/5

Negra Modelo Vienna Lager
– Produto: Vienna Lager
– Nacionalidade: México
– Graduação alcoólica: 5,4%
– Nota: 2,76/5

Jeffrey Red Pilsen
– Produto: Red Pilsen
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,92/5

Wychwood King Goblin
– Produto: English Strong Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 6,6%
– Nota: 3,31/5

Faxe Witbier
– Produto: German Weizen
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 2,80/5

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