Entrevista: Magabarat

por Leonardo Vinhas

A música do Magabarat estimula a cintura e a mente em iguais proporções. Guilherme Santin (sintetizadores e programações), Felipe Girotto (bateria e percussão) e Guido Bracagioli (baixo e flauta transversal) promovem uma sonoridade sim, bem cerebral, fugindo das estruturas fáceis e buscando a excelência na execução instrumental. Mas também é dançante pra valer – não é nada de “mexer o pezinho”, faixas como “Tupã e Araci” e “Canta Compay” são para perder a vergonha e a dureza do gingado.

O trio de Caxias do Sul (RS) existe desde 2009 (inicialmente com o nome Mahabarata), porém só lançou seu primeiro álbum, homônimo, no fim de 2015. O lançamento teve uma miniturnê com cinco shows: em Porto Alegre, Galópolis e em sua cidade de origem. O disco é produzido pelo conterrâneo Luciano Balen, uma das metades do Projeto Ccoma, outra banda que tem a proposta de congregar influências musicais e imagéticas de várias partes do mundo para criar uma música orgânica dançante, que combina instrumentos mais tradicionais e exploração do potencial das novas tecnologias.

Porém, os caminhos que o Magarabat percorre passam mais pelo jazz funk e pelo fusion. Por mais que se escutem elementos de chamamé, milonga, salsa e outros, é perceptível que em algum momento da vida dos integrantes Azymuth, Weather Report e congêneres bateram forte. Mas como o pessoal também parece ter ouvido Medeski, Martin & Wood, soul brasileiro e outras malemolências, a receita final nunca desanda para o simples exercício virtuosístico.

O Scream & Yell entrevistou a banda por e-mail, e o trio preferiu responder coletivamente às questões enviadas.

O groove é um elemento essencial na música do Magarabat, mas dá para ver que ele não é só um groove do funk e do jazz, mas que também passeia pelo afro beat, pelo fusion, pela música eletrônica, por ritmos caribenhos. Então gostaria que vocês contassem como essas influências todas foram parar no som de vocês.
A maioria dos ritmos são parte da evolução natural das influencias dos músicos. Todos crescemos escutando rock, funk, jazz e fusion. Alguns ritmos diferentes são provenientes de experiências pessoais, o Guilherme trabalha com música eletrônica há oito anos, por exemplo. Além disso, nos propusemos a realizar uma pesquisa de ritmos que não faziam parte de nosso repertório conjunto até então, como o tango, a salsa e o chamamé. Esse conceito era um desejo antigo e floresceu em conversas na pré-produção, fosse por sugestão dos produtores ou de desejos pessoais de criar uma proposta que agregasse às nossas influências anteriores, a fim de criar uma identidade sonora particular.

O som é instrumental, uma opção que sempre dificulta chegar a um público maior. A banda já nasceu com essa proposta, ou aos poucos vocês foram descartando a voz como elemento musical?
A banda nasceu instrumental, autoral, e também experimental, já que essa era a primeira experiência desse tipo de todos os integrantes. Começamos como uma brincadeira: o Guilherme tinha um estúdio em casa, com equipamento montado, pronto para tocar, e acabávamos nos reunindo como um passatempo. Aconteceu de marcarmos bastantes shows em bares da cidade, principalmente pela curiosidade do pessoal em assistir uma banda instrumental com formação inusitada, e fomos tocando adiante esse projeto, até chegarmos com a formação e ideia sonora que temos hoje. O público de música instrumental no Brasil é pequeno se comparado à musica popular, mas certamente existe. É um público interessante de se dialogar, pois são em maioria pessoas de bastante conhecimento musical, o que os torna muito exigentes.

A amplitude musical que o Magabarat abre – bem como o uso da eletrônica – dialoga com o Projeto Ccoma, embora a distinção entre ambas seja clara. Foi por isso que escolheram o Luciano Balen como produtor?
De certa forma sim. A produção do Projeto Ccoma tem muito a ver com o que queríamos para o som do nosso disco, principalmente em misturas rítmicas e na utilização de programações nos shows, mas a proposta da Magabarat difere do Projeto Ccoma em diversos aspectos, nos levando a criar um produto único, através do diálogo entre produtor e banda.

Caxias do Sul tem produzido uma grande quantidade de música com os olhos voltados para o mundo. A que você atribui essa “internacionalidade” crescente dos artistas caxienses?
Temos acompanhado bem de perto o Festival Brasileiro de Musica de Rua, responsável por trazer todo ano artistas de diversos países e Estados brasileiros a Caxias do Sul. Essa é uma grande oportunidade para termos contato direto com artistas que possuem conhecimentos diversos. Além disso também mantemos a Incubadora da Musica {nota: grupo de discussões e estudos organizados pela mesma equipe responsável pelo citado festival), que é local para trocar ideias com outros artistas do cenário caxiense. Outro marco importante para a cena é a Casa Paralela, reduto de criação e troca de ideias bastante frequentado por músicos e artistas de diversas áreas culturais. Estamos inseridos no meio de uma cena crescente em Caxias do Sul, em busca de uma identidade, algo que consolide a movimentação caxiense. A região da Serra Gaúcha tem muita diversidade cultural, e vive um momento muito bom, principalmente na música, o que certamente influencia diretamente a produção daqui. Estamos muito contentes por fazer parte desse momento.

“Música étnica” ou “world music” é um nome criado pela indústria para se referir a tudo que é pop mas não é feito nos EUA e Inglaterra. Pelas influências de ritmos latinos e brasileiros, pode acontecer que a Magabarat seja colocada nesse saco de gatos. Se rolar isso, seria um problema, ou pode ajudar a banda a chegar a mais pessoas, que já estão acostumadas com o rótulo?
Acreditamos que este nome em específico não chega a ser algo problemático, pois é um termo muito abrangente. Este é na verdade um problema que temos, pois é difícil classificar de forma precisa nossa música. Nossa proposta é justamente quebrar rótulos, juntando ritmos inusitados para criar algo diferente, uma linguagem pessoal apropriando-se de outras linguagens. Gostamos de pensar na Música Universal, termo proposto por Hermeto Pascoal, e não nos preocupamos em manter o tradicional, mas ir além dele.

O que vocês já têm planejado para este ano em termos de divulgação do disco?
Terminamos a miniturnê de lançamento do disco, foram 5 shows em Caxias e em Porto Alegre. Com o ano começando temos algumas coisas em vista, participações em festivais, há planos para uma turnê e talvez um clipe até o fim do ano, mas nada definido ainda. Reservamos janeiro para criar o planejamento de 2016.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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