Scream & Yell recomenda: Di Souza

por Bruno Lisboa

Natural de Piedade de Ponte Nova, cidade de pouco mais de 4 mil habitantes na Zona da Mata mineira, Di Souza é mais uma grata surpresa do cenário musical belo-horizontino. Radicado na capital mineira desde os 15 anos, o compositor traz em seu vasto currículo as funções de multi-instrumentista, arranjador, maestro de carnaval (do “Bloco, Então Brilha!”) e educador social.

Seu disco de estreia, o vanguardista “Não Devo Nada Pra Ninguém” (2015), aborda de maneira irônica e poética o cotidiano do artista independente. Produzido pelo próprio músico com colaboração de Maurício Ribeiro, o álbum conta com as participações especiais de José Luiz Braga e Luiz Gabriel Lopes (Graveola), Gustavito, Coletivo Ana, Lucas Telles, Juventino Dias e Jennifer Souza (Transmissor).

Em entrevista concedida por e-mail, Di Souza fala do vagaroso processo de composição do álbum (“Não faria sentido gravar às pressas um disco que levanta a bandeira da leveza, da ludicidade e da poesia”), influências (“Raul Seixas + Tom Zé + Luiz Tattit”), e o fortalecimento do cenário mineiro (“O Brasil ainda irá enxergar Minas Gerais para além dos clubes e das esquinas”). Com você, Di Souza!

Em “Não Devo Nada Pra Ninguém” você promove um olhar irônico e poético para com o cotidiano. Como foi o processo de gravação do disco?
Para além do período de dois anos de produção musical, considero esse trabalho o fruto de uma vivência maior. Tendo vivido em três diferentes espaços urbanos (roça, favela e asfalto), o resultado sonoro nasce da turbulência ‘geo-cultural’ que deságua no artista que sou. Assim nasceram as músicas e o conceito do trabalho. Dentro do estúdio pude contar com a colaboração de 36 músicos independentes da cena belo-horizontina, companheiros de bandas e encontros. Além disso, é resultado também de tudo que já vivi e que o universo me possibilitou transformar em música. O processo de gravação foi propositalmente lento, pois não faria sentido gravar às pressas um disco que levanta a bandeira da leveza, da ludicidade e da poesia.

No disco, de certa forma, você “desglamouriza” a profissão de músico. Quais são as alegrias e os percalços ligados à área?
Ser músico é um paradoxo né? Um lugar de prestígio que, ao mesmo tempo, é desvalorizado na sociedade. Em algum tempo da história, onde havia impérios, reis e rainhas, os músicos trabalhavam dentro dos castelos, limpando lixo e compondo privado para os seus superiores. Este lugar que ocupamos é muito esquisito, pois o cidadão (nós, músicos) que pertence a uma classe formadora de opiniões é o mesmo que às vezes nem recebe dignamente pelo trabalho que faz.

A música popular brasileira, em suas mais variadas vertentes, é a força motriz do seu trabalho. Quem são os seus pares?
Talvez eu seja um filho subjetivo vindo do encontro de três grandes representantes da MPB: Raul Seixas + Tom Zé + Luiz Tattit. Essa fusão, no mínimo lúdica, de São Paulo com Bahia, tornou-se minha referência na hora de compor aqui em Minas. Por aqui, tenho a sorte de habitar uma cidade de efervescência cultural gigantesca, onde muito convivo e aprendo com meus colegas de produção musical local, representados por: Gustavito, Graveola e o Lixo Polifônico, Luiza Brina, Urucum na Cara, Dead Lovers, Hugo da Silva, Rafael Dutra, entre outros.

Falando em Tom Zé, recentemente você se apresentou ao lado dele. Como foi o encontro?
Uma história pra contextualizar a emoção que foi esse encontro: eu era criança, morador de uma favela e aluno da ONG do grupo Corpo onde fazia aulas de dança. O professor botou a música “Xique Xique” do espetáculo “Parabelo” (espetáculo do Grupo Corpo) pra tocar e eu não consegui fazer a aula. Fiquei paralisado, ouvindo o arranjo. Sentei da pista de dança enquanto os colegas dançavam e eu só conseguia escutar, quieto! Ali, um novo mundo musical se abria para mim, que na época só escutava as musicas que tocavam na rádio. A partir disso minha visão de mundo se modificou e desde então eu escuto diariamente todos os discos do Tom Zé! Conhecê-lo foi um sonho realizado! Tocar junto dele foi algo que não tem nome ainda pra dar!

Em paralelo a sua carreira solo você dedica tempo a outros sete projetos. Como conciliar tantos trabalhos?
Participo de diversos movimentos culturais na cidade. Além das sete bandas independentes transito por seis Blocos de Carnaval onde atuo como maestro em três deles (Então Brilha, Pisa na Fulô e recentemente o Pena de Pavão de Krishna). Também trabalho como educador musical já tendo passado por diversas escolas e ONG’s. Me sinto bem em movimento, na verdade só sei viver se for assim. Considero-me um operário cultural a serviço da cidade, talvez para conseguir sobreviver nesse mundo tão caótico, talvez pelo medo de estar sozinho, talvez pela hiperatividade diagnosticada já na infância, talvez porque seja fã de Ayrton Senna, ou talvez porque só o Freud explica.

Atualmente BH tem vivido tempos de efervescência musical graças a um grande número de artistas e a produção prolífica de discos. Como você vê este momento?
Temos hoje em Belo Horizonte um cenário forte e diverso. Difícil conseguir acompanhar tudo que vem sendo feito, pois a cada mês surge um disco novo que transborda criatividade e aponta novos rumos, novos sons. A força da produção independente se torna consistente, cada vez mais, com os estúdios amadores feitos em quartos de casa, com os coletivos que encontram nesse fazer uma solução para conseguirem espaço e nos movimentos sociais que reivindicam uma cidade mais justa para se viver. A nossa geração certamente será lembrada por outras gerações. O Brasil ainda irá enxergar Minas Gerais para além dos clubes e das esquinas. O que se faz hoje musicalmente em Minas vai muito além dos rótulos.

Como ativista cultural você acredita que há, nos tempos atuais, alguma fórmula de sobrevivência artística?
Acredito que fui contemplado pelo universo em poder fazer parte de tantos trabalhos legais na cidade. Mas às vezes me falta tempo para cuidar de outros campos da vida que também são importantes. Nesse sentido, sobrevivência se torna algo relativo né? Pois a gente acaba matando um lado para sobreviver o outro.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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