Boteco: cinco cervejas brasileiras

por Marcelo Costa

Em 2016, o Canal Brasil alcança a maioridade, e, por isso, pensaram em uma maneira bacana de marcar a data: lançando uma cerveja própria, que teve sua estreia de luxo no Festival de Cinema do Rio do ano passado, e deverá marcar presença em outros festivais. O bonito rótulo não traz informação de quem produz a cerveja, mas o resultado é caprichado. A Cerveja do Canal Brasil é uma Bohemian Pilsener de coloração dourada e creme branco de boa formação e média permanência. No nariz, aroma suave de malte sugerindo pão, biscoito, trigo e cereais, com base leve de caramelo. Na boca, textura cremosa. O primeiro toque traz mel e doçura caramelada suave seguida de um amargor baixo, mas eficiente, que abre as portas para um conjunto que reforça a pegada maltada (puxando mais para cereais do que para caramelo). O final é maltadinho e refrescante. No retrogosto, cereais, caramelo e mais refrescancia. Boa!

De Socorro, no interior de São Paulo, surge a Quinta do Malte, micro cervejaria que em agosto de 2015 lançou sua nova linha de cervejas. Essa Rubra Orange Wheat Ale foi comprada no Mercado Municipal de Uberaba, Minas Gerais, e é apresentada como uma Fruit Beer, unindo o malte de trigo com laranja. De coloração dourada levemente turva com creme branco de boa formação e média permanência, a Rubra Orange Wheat Ale apresenta um aroma levemente cítrico, remetendo a suco de laranja artificial (kisuco e Tang) e também Fanta Laranja. Na boca, a textura é levemente picante (cítrica) enquanto o primeiro toque reforça o predomínio da laranja no conjunto, com inicio cítrico, amargor baixo, mas eficiente, e mais suco de laranja pela frente, com amargor cítrico buscando equilibrar o conjunto. O final é levemente cítrico. No retrogosto, suco de laranja artificial e Fanta Laranja. Lembra uma Radler…

De Belém, Pará, mais uma exótica proposta da Amazon Beer, desta vez invadindo território norte-americano para resgatar três lúpulos (Galaxy, Centennial e Citra) e choca-lo com Erva Chama (na maturação), erva de característica cítrica usada pelos indígenas para atrais bons fluidos. De coloração âmbar caramelada com creme espesso levemente alaranjado de boa formação e alta retenção, a Erva Chama Imperial IPA exibe um aroma notadamente cítrico. Há sugestões de maracujá e tangerina, percepção herbal e de resina sob uma base suave de mel e caramelo. Na boca, textura melada e levemente picante. O primeiro toque traz doçura cítrica seguida de herbal e amargor marcante, mas não tão potente quanto se espera de 73 IBU – ao menos, ele tem extensão, e permanece em meio ao maracujá, pinho e resina. No final, herbal e amargor médio. No retrogosto, mais pinho em meio a maracujá e suave resina. Boa!

Parceria paranaense entre a Cervejaria Providencia (de Cascavel) e a Bodebrown (de Curitiba), essa Session IPA (produzida pela primeira) é a primeira colaborativa entre ambas, resultando em uma cerveja de coloração dourada caminhando para o âmbar com creme branco de ótima formação e longa permanência. No aroma, uma paleta bastante agradável de notas cítricas (laranja e maracujá) e herbais (pinho), com a base maltada fazendo a cama de forma suave, com leve presença de caramelo. Na boca, a textura é cremosa e levemente picante. O primeiro toque traz lúpulo no comando oferecendo cítrico e herbal acompanhado de doçura maltada, tudo isso cortado por um amargor caprichado, 40 de IBU muito bem distribuídos (tem cerveja de 80 de IBU que não chega aos pés dessa clareza de amargor). Na sequencia, maracujá, pinho, laranja, caramelo, amargor suave e muita refrescancia. O final é mais herbal que cítrico e, claro, amarguinho. No retrogosto, pinho, maracujá e amargor suave. Delícia.

A Way Brett IPA une uma trinca de lúpulos norte-americanos (Galaxy, Columbus e Citra) com fermentação 100% com a levedura selvagem belga Brettanomyces. De coloração dourada, meio amarelo palha com turbidez a frio, e creme branco de boa formação e longa retenção, a Way Brett IPA apresenta um aroma típico (e maravilhoso) de levedura selvagem aproximando o conjunto de uma rústica Saison com traços cítricos: muito abacaxi, limão azedinho, maracujá, grama, leve anis, couro, celeiro suave e sugestão comportada de acidez. Na boca, a textura é frisante. O primeiro toque traz rápido doçura caramelada seguida por amargor envolvendo e acidez potente, jogando o bebedor no território arisco (e apaixonante) das Brett. Há bastante cítrico (frutas variadas, mas com destaque para acidez de abacaxi, limão amargo e maracujá), herbal (grama) mais acidez e azedinho. O final traz azedume suave e anis. No retrogosto, mais azedinho, leve cítrico, herbal e anis. Que delicia.

Balanço
Começando com uma boa surpresa: a Cerveja do Canal Brasil é uma Bohemian Pilsener correta e refrescante, oferecendo bastante sugestão de cereais e descendo fácil. Em dias quentes eu beberia um caminhão pipa. A Rubra Orange Wheat Ale, da Quinta do Malte, apresenta forte sugestão de aroma artificial de laranja, mas isso não atrapalha o conjunto, leve e refrescante. Ela até lembra uma Radler, ainda que seus 4% de álcool sejam “excessivos” para o estilo. A nova aposta exótica da Amazon Beer funciona a contento: gosto da Witbier Taperebá, da River Lager e da Bacuri, e ainda assim nenhuma delas alcançou nota para figurar no ranking de 1001. Desta forma, essa Erva Chama Imperial IPA debuta no ranking levando o nome da interessante cervejaria, ainda que a erva adicionada não seja marcante no conjunto. Ou seja, essa Imperial IPA é boa porque soa uma Imperial IPA norte-americana (muito próxima da linha mafiosa da Backer), e não por ter um ingrediente amazônico. Ponto pra cerveja na taça, mas espera-se um pouco mais da proposta. A Providencia Bodebrown Session IPA se mostrou uma cerveja de sessão mais “pesada” do que o tradicional, mas não por isso ruim, muito pelo contrário. Uma das melhores cervejas que bebi em 2015, a Way Brett IPA consegue equilibrar muito bem a proposta de uma IPA com a aridez da levedura Brett. Agora, com o lúpulo mais cansado, a levedura pula a frente, e o conjunto fica irrepreensível (para fãs de Brett). Um sonho.

Cerveja do Canal Brasil
– Estilo: Bohemian Pilsener
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,93/5

Quinta do Malte Rubra Orange Wheat Ale
– Estilo: Fruit Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 2,94/5

Amazon Imperial IPA Erva Chama
– Estilo: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8,6%
– Nota: 3,38/5

Providencia Bodebrown Session IPA
– Estilo: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,41/5

Way Brett IPA
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,9%
– Nota: 4,29/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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