Boteco: cinco cervejas, cinco países

por Marcelo Costa

Produzida até março de 2015 pela Thwaites, uma cervejaria de Blackburn fundada em 1807, a Thwaites Lancaster Bomber foi adquirida pela Marstons Brewery, de Wolverhampton, que também passou a produzir outro sucesso da Thwaites, a Wainwright. Essa Lancaster Bomber ainda é da produção original da Thwaites e é uma Bitter de coloração âmbar acastanhada com creme bege de média formação e rápida dispersão. No nariz, aroma tímido de malte sugerindo doçura caramelada e leve toffee. Na boca, textura suave com leve percepção metálica. O primeiro toque é mais interessante que o aroma, ainda que apenas reforce sugestões básicas do estilo: caramelo e toffee. O amargor é baixo e o conjunto bastante simples, aparentemente buscando criar uma cerveja de fácil degustação, sem muitas arestas. O final é maltadinho enquanto o retrogosto insiste no caramelo e no toffee, acrescentando suave amargor. Ok.

Do Inglaterra para a República Tcheca com a Merlin Černý, cerveja da Pivovar Protivín, da família Lobkowicz, perseguida durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, que os expulsaram do território e confiscaram a cervejaria em 1939. Emigrados para os EUA no mesmo ano, os Lobkowicz voltaram para a pequena Protivín, cidade de 5 mil habitantes localizada na região da Boêmia do Sul, em 1992, quando o país voltou a ser livre, continuando a saga cervejeira. Esta Merlin Černý é uma das estrelas da casa, uma Schwarzbier de coloração preta com creme bege espesso de boa formação e permanência. No nariz, aroma caprichado de malte torrado (caramelo, baunilha, cappuccino) com leve toque lácteo e herbal. A textura é cremosa. No primeiro toque traz café e chocolate, que irão dominar o conjunto saboroso, com o amargor pontual e eficiente marcando presença e equilibrando o conjunto, que termina suavemente amargo. No retrogosto, mais amargor, café e leve caramelo. Muito boa!

Da República Tcheca para o Japão, mais propriamente para Naka, casa da Kiuchi Brewery, responsável pelas cervejas Hitachino. Nona cerveja deles que experimento, a Dai Dai é uma Orange IPA que recebe adição de laranja Mandarin, conhecida como Fukure Mikan, a “laranja da fortuna e felicidade”. De coloração ambar levemente turva com creme alaranjado de boa formação e curta retenção, a Hitachino Dai Dai apresenta um aroma que destaca notas cítricas, mas de forma suave, sem exageros, com sugestão de tangerina e laranja lima. A base maltada oferece caramelo e ainda é possível perceber leve condimentação. Na boca, a textura é suavamente frisante. O primeiro toque reafirma a sugestão cítrica com acento em tangerina enquanto o amargor subsequente é médio e eficiente. Dai pra frente, uma cerveja que não parte para os exageros da escola American IPA nem baixa tanto a guarda com os ingleses. O final é cítrico e maltado. No retrogosto, mais cítrico e refrescancia.

Do Japão para Bellegem, cidade de menos de 4 mil habitantes nos Flanders Ocidentais belgas, casa da Brouwerij Omer Vander Ghinste, cervejaria fundada em 1892 que tem como estrelas a belíssima Cuvée des Jacobins e essa VanderGhinste Oud Bruin, uma das mais antigas do estilo, e que até 2012 era vendida como Bellegems Bruin. De coloração vermelho acastanhada com creme bege de boa formação e permanência, a VanderGhinste Oud Bruin exibe um aroma que combina notas azedas com doçura maltada (ameixa, caramelo, açúcar mascavo) e madeira (como toda boa Flanders Red Ale, ela resulta do blend de uma cerveja maturada por 18 meses em barris de madeira com outra cerveja jovem). Na boca, a textura é arisca. O primeiro toque traz frutado caprichado e sugestão de vinho do Porto. O amargor é baixo, mas a acidez é alta – o azedume também. Dai pra frente, uma cerveja complexa e deliciosa, com azedume e acidez médios, mas presentes, acompanhados de doçura maltada e amadeirado. O final é levemente acético. No retrogosto, madeira, ameixa, vinho do Porto e doçura. Ótima.

Da Bélgica para Brooklyn nova-iorquino com a Sixpoint Abigale ((A-BIG-ALE), uma Belgian Ale com levedura belga, candy sugar e uma tonelada de lúpulos norte-americanos. De coloração âmbar alaranjada com creme branco levemente alaranjado de ótima formação e média alta permanência, a Sixpoint Abigale exibe um aroma que combina uma salada de frutas tropicais (grapefruit, goiaba, pera, laranja, mamão) com condimentação derivada da levedura belga e notas resinosas (tradicionais da Sixpoint). Na boca, a textura é textura é bastante picante. O primeiro toque traz sugestão de salada de frutas tropicais logo atropelada por uma porrada de amargor resinoso, 52 de IBUs bastante marcantes, com profundidade e longitude. Porém, o interessante é que a levedura belga se infiltra em meio ao amargor trazendo à tona um leve toque de azedume, que eleva o conjunto alguns belos degraus, transformando a Abigale numa baita cerveja de final amargo e azedinho. No retrogosto, resina suave, frutas, azedo e amargor. Baita!

Balanço
Começando pela representante inglesa, a Thwaites Lancaster Bomber é uma Bitter bastante tímida, produzida para não dificultar/provocar o paladar do bebedor. Ainda assim, oferece leve doçura maltada e toffee com um acenozinho amargo. Há umas cinco dezenas de inglesas melhores, mas ela bate qualquer uma das tímidas cervejas de balcão brasileiras. A Merlin Černý é uma caprichada Schwarzbier tcheca, com todos os detalhes do estilo muito bem representados. A Hitachino Dai Dai é uma IPA japonesa que fica no meio do Atlântico: não parte para os exageros made in USA e nem baixa tanto a guarda quanto os ingleses. O resultado é uma cerveja agradável, bastante cítrica, o que valoriza a laranja Mandarin adicionada. A VanderGhinste Oud Bruin é uma Flanders Red Ale deliciosa, com um equilíbrio interessante entre azedume, acidez, frutado e doçura maltada. O conjunto é complexo e delicioso. Fechando com uma bela cerveja nova-iorquina, a Sixpoint Abigale, uma Belgian Ale com levedura belga e uma tonelada de lúpulos norte-americanos resultando em um conjunto altamente provocante, uma salada de frutas alcoólica, amarga e levemente azeda. Delícia.

Thwaites Lancaster Bomber
– Estilo: Bitter
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4,4%
– Nota: 2,85/5

Merlin Černý
– Estilo: Schwarzbier
– Nacionalidade: República Tcheca
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 3,30/5

Hitachino Dai Dai
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Japão
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 3,31/5

VanderGhinste Oud Bruin
– Estilo: Flanders Red Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,45/5

Sixpoint Abigale
– Estilo: American Belgian Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,78/5

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