Boteco: da Bélgica, Petrus

por Marcelo Costa

Fundada em 1894 por Adolphe De Brabandere, um agricultor de Bavikhove, cidade belga de pouco menos de 5 ml habitantes nos Flanders Ocidentais (próxima de Gent), a Brouwerij De Brabandere segue na ativa como uma das maiores cervejarias independentes da Bélgica – atualmente sob o comando da quinta geração da família. No cardápio da casa mais de 50 cervejas, boa parte delas da linha Bavik (com destaque para a Dubbel Bavik Pilaarbijter Bruin), mas a grande estrela é a linha Petrus, dividida em duas séries: Sours (lambics que usam a base de uma cerveja que matura por 24 meses em barris de madeira) e Tradition. Abaixo, cinco Petrus que podem ser facilmente encontradas no Brasil.

Como uma boa Oud Bruin dos Flanders, essa versão da linha Petrus, produzida pela cervejaria Bavik-De Brabandere, de Harelbeke, resulta de um blend de 33% de uma Petrus Aged Pale, maturada por dois anos em barris de madeira, e 67% de uma cerveja jovem. Na receita, maltes Pale e Roasted mais lúpulo Saaz. De coloração marrom quase translucida com creme bege de ótima formação e longa permanência, a Petrus Oud Bruin exibe um aroma bastante frutado (ameixa, figo, pêssego) com sugestão de acidez, azedume e campo (roça, cavalo, estábulo). Há ainda leve doçura (caramelo e rapadura). Na boca, a textura é picante e avinagrada. O primeiro toque traz frutado seguido de avinagrado e acidez comportada. O amargor é baixo, com acidez e azedume presentes e eficientes, abrindo as portas para um conjunto delicioso, que ainda traz madeira em meio a sugestão de frutas, doçura, azedume e roça. No final, frutado suave. No retrogosto, leve sugestão de frutas escuras, acidez e azedume. Uma delícia.

Medalha de Ouro no World Beer Awards 2015 na categoria Belgian Dubbel (ela havia faturado uma medalha de ouro em 2011 na categoria Abadia), a Petrus Dubbel Bruin destaca em sua receita a utilização de caramelo natural e xarope de açúcar. De coloração marrom levemente turva com creme bege espesso de excelente formação e longa permanência, a Petrus Dubbel Bruin apresenta um aroma deliciosamente maltado, com caramelo em destaque, mas também toffee, melaço e chocolate. Ainda é possível perceber notas frutadas (ameixa, passas, doce de banana e figo) e suave sugestão de azedume. Na boca, a textura é sedosa e picante. O primeiro toque traz caramelo seguido de doçura frutada (ameixa e uva passa). O amargor é baixo, mais derivado dos 6,5% de álcool do que da lupulagem enquanto o conjunto, delicioso, equilibra notas frutadas, doçura maltada e caramelo, sem enjoar. O final exibe toffee incrível enquanto o retrogosto reforça com caramelo, álcool suave e ameixa. Palmas!

A Petrus Blond é a Blond Ale da casa, estilo criado para concorrer com as Pilseners da Boémia, que começavam a se popularizar. Nessa versão da Brouwerij De Brabandere ela apresenta uma coloração dourada com leve turbidez a frio e creme branco de ótima formação e média alta permanência. No nariz, um aroma deliciosamente maltado que remete a biscoito, caramelo, floral e frutado (banana suave). Há leve aceno de condimentação – derivada da levedura. Na boca, textura levemente picante (de álcool e levedura). O primeiro toque traz doçura maltada (biscoito e caramelo) seguida de sugestão cítrica (laranja!). O amargor é médio e alcoólico (são 6,6%) abrindo caminho para um conjunto saboroso que surpreende por seu acento frutado e cítrico (laranja e banana) combinando muito bem com as notas maltadas tradicionais (biscoito e caramelo). O final é levemente cítrico e maltado. No retrogosto, a mesma sensação. Gostei.

Receita base para outras cervejas da Brouwerij De Brabandere, a Petrus Aged Pale é uma Flanders Blond Ale que passa 24 meses em barricas de carvalho. Na receita, apenas um tipo de malte (Pale) e um de lúpulo (Saaz). De coloração dourada com creme branco de boa formação e média permanência, a Petrus Aged Pale apresenta um aroma acético, azedo e levemente avinagrado. Ainda é possível perceber uma suave doçura frutada na base (pêssego, damasco, caramelo), quase imperceptível frente à radicalização Sour. Na boca, a textura é frisante. O primeiro toque traz rápida doçura caramelada atropelada por acidez, azedume e avinagrado seguidos de cítrico passado (laranja mofada), tudo isso “cumprindo” a função de amargor. O conjunto delicioso que surge na sequencia combina azedume e acidez leves com esse gosto de laranja passada mais madeira e damasco. O final é acético e cítrico. No retrogosto, damasco, laranja, azedume, madeira e salgado. Vários corações.

Fechando o quinteto com a Petrus Gouden Tripel, uma Abbey Tripel de 7.5% de graduação alcoólica. De coloração dourada com creme branco de boa formação e média permanência, a Petrus Gouden Tripel exibe um aroma levemente maltado (caramelo e açúcar) com destaque para a sugestão frutada (banana, maçã e frutas cristalizadas) e floral, com nenhuma percepção de álcool. Na boca, a textura é sedosa e impressionantemente suave. O primeiro toque traz doçura caramelada seguida de frutado (novamente frutas cristalizadas e banana). O amargor é baixo com percepção suave de álcool (7,5% quase imperceptíveis). Dai pra frente surge uma Abbey Tripel que lembra bastante uma Blond Ale (não fosse o álcool muito bem escondido) maltadinha, com notas florais e frutadas. O final reafirma a pegada frutada. No retrogosto, mais frutado, floral e um tiquinho de calor alcoólico (ufa, enfim o álcool apareceu). Boa!

Balanço
Abrindo o passeio com a Petrus Oud Bruin, uma versão mais comportada do estilo arisco dos Flanders belgas, e que pode ser uma boa pedida para adentrar esse estilo polêmico, já que ela traz as principais características (azedume, acidez, roça) sem soar exagerada. Gostei. A Petrus Dubbel Bruin recebe caramelo e xarope de açúcar, o que pode fazer imaginar uma cerveja excessivamente doce, mas o resultado é brilhantemente equilibrado: o caramelo é a grande estrela do conjunto, mas ele surge muito bem combinado com notas frutadas e toffee. Muito boa! A Petrus Blond tem um cítrico interessante, mais perceptível no sabor do que no aroma, mas soa um tiquinho pesada alcoolicamente para um dia quente. É quase uma Blond Ale para o outono. A Petrus Aged Pale é a base de várias outras cervejas da casa, e é uma delícia azeda, salgada e acética. Assim como as outras da casa, ela se destaca por ser menos agressiva que outras do estilo, conseguindo oferecer um conjunto arisco, mas muito interessante. A Petrus Gouden Tripel me lembrou bastante uma Blond Ale alcoólica, doce e frutada. É boazinha, mas há melhores na própria casa.

Petrus Oud Bruin
– Estilo: Flanders Red Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,47/5

Petrus Dubbel Bruin
– Estilo: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,58/5

Petrus Blond
– Estilo: Belgian Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,6%
– Nota: 3,21/5

Petrus Aged Pale
– Estilo: Flanders Blond Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,3%
– Nota: 3,72/5

Petrus Gouden Tripel
– Estilo: Abbey Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,27/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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