Boteco: Seis cervejas canadenses

por Marcelo Costa

De Brossard, uma cidade da província canadense de Quebec, surge a Les Trois Mousquetaires, uma cervejaria aberta em 2004 que decidiu apostar na recriação de estilos ariscos alemães. Essa Gose (estilo que quase desapareceu, mas vem ganhando sobrevida) é da série Hors e a receita utiliza malte Pilsner, trigo, aveia, sal e semente de coentro. De coloração amarela turva com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Les Trois Mousquetaires Gose exibe um aroma delicioso e levemente cítrico sugerindo limão e uva verde. Há leve percepção de acidez tanto quanto de doçura de trigo. Na boca, a textura é levemente frisante. O primeiro toque traz rápido cítrico seguido de salgado e acidez, que faz a função de amargor, baixíssimo. Na sequencia, cítrico, salgado, acidez e o coentro de mãos dadas num conjunto delicioso. O final é levemente salgado e cítrico. No retrogosto, um pouco de sal, refrescancia e amor.

Da série Signature da casa canadense, a Les Trois Mousquetaires Hopfenweisse propõe chocar maltes alemães com lúpulos norte-americanos (incluindo dry-hoping com lúpulo Summit) na busca por um equilíbrio especial. De coloração amarela turva (mas mais clara que a Gose) com creme branco de boa formação e alta permanência, a Les Trois Mousquetaires Hopfenweisse apresenta um aroma provocante, com frutas tropicais (laranja, abacaxi e manga) unindo-se a tradicional sugestão de banana numa salada de frutas alcoólica, que ainda abre espaço para acidez, condimentação (cravo), floral e leve herbal. Na boca, a textura é cremosa e arisca, com leve picância. O primeiro toque traz frutado cítrico seguido de acidez e amargor marcante, mas não exagerado, abrindo as portas para um conjunto arisco e bem interessante. No final, acidez forte e amargor cítrico. No retrogosto, manga, banana, acidez e amargor. Baita experiência.

Também da série Signature, a Les Trois Mousquetaires Sticke Alt faturou a medalha de ouro no World Beer Awards 2010 (e bronze em 2014) com uma receita de Altbier, estilo de Düsseldorf, caprichada, que destaca um dry hopped do lúpulo alemão Hallertau. De coloração entre o castanho e o vermelho com creme bege espesso de boa formação e média alta permanência, a Les Trois Mousquetaires Sticke Alt exibe um perfil aromático envolvente com notas maltadas sugerindo doçura de caramelo, açúcar queimado, frutas escuras e vermelhas (ameixa, cereja), toffee e xerez. Na boca, a textura é sedosa e levemente picante. O primeiro toque já adianta um pouco da rebeldia que vem pela frente com amargor, frutado e amadeirado compondo um perfil provocante que ainda traz algo de açúcar queimado, toffee e xerez. O final é amargo. No retrogosto, mais amargor (suave), toffee e sugestão de madeira e xerez. Uau.

Também da província canadense de Quebec, aberta em 2005 em Shawinigan, cidade de cerca de 50 mil habitantes, a Le Trou Du Diable marca presença com sua La Blanche de Shawi, que, como o nome adianta, é uma Witbier em homenagem a cidade natal da cervejaria. De coloração dourada com leve turbidez e creme branco de média formação e rápida dispersão, a Blanche de Shawi apresenta um aroma bastante interessante porque junta a tradicional nota de banana derivada das Weiss alemãs com o tradicional cítrico de uma wit belga. Há, ainda, leve doçura melada, trigo, condimentação e laranja. Na boca, a textura é levemente frisante. O primeiro toque traz doçura caramelada cítrica, rememorando algo de roça, fazenda (o que a aproxima de uma Saison). O amargor é baixo, 12 de IBU, mas a acidez suave faz parecer um pouquinho mais. Dai pra frente, um conjunto bastante agradável e muito mais alemão do que belga, mas nem por isso menos saboroso. No final, condimentado e doçura. No retrogosto, leve adstringência, caramelo, trigo, laranja e, claro, banana. Gostosa.

A segunda da Le Trou du Diable é a Le Sangd’encre, uma caprichada Dry Stout de coloração marrom escura (mais clara nas bordas) e creme bege claro de boa formação e média retenção. No nariz, o delicioso aroma sugere notas derivadas da torra do malte: café, chocolate ao leite, cappuccino e caramelo. Na boca, a textura é sedosa com leve picancia. O primeiro toque traz doçura caramelada atropelada no segundo seguinte por café torrado e amargor exemplar (45 de IBU presentes!), que sugere equilíbrio em um conjunto que, dai em diante, tem na doçura achocolatada um destaque interessante ao lado da presença láctea, ambos combinando muito bem com o café, que não perde de vista a atenção do bebedor em nenhum momento, ainda que amacie vez em quando. O final é suave, um leve cappuccino. O retrogosto reforça essa sugestão com capricho, numa Dry Stout perfeita para iniciantes.

Fechando o trio canadense com uma medalhista de ouro da casa: Le Trou du Diable Saison du Tracteur, ouro no World Beer Awards 2013 na categoria American Best Bière de Garde, Saison. De coloração dourada com leve turbidez e creme branco de ótima formação e longa retenção, a Saison du Tracteur honra o estilo com um aroma caprichado de frutas cítricas (maracujá e pêssego), feno, muito herbal (grama, ervas) e condimentos. Na boca, a textura frisante faz uma festa sobre a língua. O primeiro toque, porém, traz rápida doçura melada atropelada por cítrico envolvente e amargor caprichado (45 de IBU eficientes), que abre as portas para um conjunto altamente refrescante que junta frutas cítricas, feno, campo, roça, floral, herbal e condimentação adorável. O final é herbal e levemente cítrico. No retrogosto, uma pitada de amargor mais herbal e cítrico suave. Delícia.

Balanço
E quem diria que uma Gose canadense iria conquistar meu coração? A Les Trois Mousquetaires foi uma belíssima surpresa, meio cítrica, meio salgada e totalmente apaixonante. Se essa Gose toma o posto de favorita do estilo na minha lista pessoal, a Hopfenweisse dos canadenses não consegue arranhar a colocação da Schneider Weisse TAP 5 Mein Hopfenweisse, muito mais equilibrada na junção de EUA com Alemanha. Ainda assim, esse exemplar da Les Trois Mousquetaires merece confiança por não apostar na facilidade e manter o norte da radicalização à vista. Fechando o trio, a Sticke Alt é uma bela recriação do estilo Altbier feito pela Les Trois Mousquetaires, que busca os estilos alemães mais radicais, e se dá bem. Já a Le Trou Du Diable La Blanche de Shawi é uma Belgian Witbier que poderia ter nascido em Munique, devido a sútil presença de notas de banana que aparece tanto no aroma quanto no paladar. No meio do caminho entre uma Wit e uma Weiss, é uma cerveja bem agradável. A Le Sangd’encre é uma Dry Stout perfeita para quem quer se iniciar no estilo, pois seu conjunto balança entre café e chocolate ao leite remetendo a cappuccino e sem provocar demais o paladar neófito. É uma cerveja suave, pra degustar com prazer. E para prestar atenção no belíssimo rótulo. Fechando a sequencia de canadenses, a Saison du Tracteur honra o melhor do arisco estilo belga, e, não a toa, os canadenses não inserem frutas ou outras coisas para amacia-la: ou seja, eis uma cerveja rústica como deve ser. <3

Les Trois Mousquetaires Gose
– Estilo: Gose
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 3,8%
– Nota: 3,54/5

Les Trois Mousquetaires Hopfenweisse
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,51/5

Les Trois Mousquetaires Sticke Alt
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,53/5

Le Trou Du Diable La Blanche de Shawi
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,31/5

Le Trou Du Diable Sangd’encre
– Estilo: Dry Stout
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,31/5

Le Trou Du Diable Saison du Tracteur
– Estilo: Saison
– Nacionalidade: Canadá
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,58/5

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