Conexão Latina: Lefunders

por Leonardo Vinhas

Se nunca houve no mundo uma “febre” de surf music, também dá para dizer que, desde que surgiu, o gênero nunca saiu de cena. Sempre no underground (e quase sempre longe das praias), bandas adotaram a estética de imagem e som dos grandes nomes do gênero, notadamente The Ventures e Dick Dale and His Del-Tones e ampliaram seu imaginário, incluindo filmes de terror e ficção científica, contos estradeiros, femme fatales e serial killers entre os personagens que inspiravam os riffs e títulos das canções instrumentais.

Os Lefunders são uma banda argentina que milita no microcircuito surf latino-americano, mas dá para dizer que eles são um dos grupos mais “macros” nesse cenário – por sua ampla influência musical, que preserva a essência sessentista, mas acrescenta doses exatas de outros estilos – às vezes de forma explícita, às vezes como inspiração sutil – para fazer um som empolgante, que pede para ser revisitado e reouvido várias vezes.

Em um palco, o Lefunders é daquelas bandas que faz você esquecer o que quer que esteja te afligindo. É um clima de festa extremo, em que o fundador da banda, o guitarrista Cesar Azzaro, consegue a proeza de se revelar um frontman em uma banda instrumental, graças ao seu grande carisma e um gestual de palco intenso. O peso metaleiro que Miguel Nikolov coloca em suas batidas também se destaca, e Felipe Carey (baixo) e Ivo Rodriguez (guitarra) os acompanham, ajudando a garantir a singularidade da banda com variações nas dinâmicas e um ótimo gosto para timbres. Não há uma canção parecida com a outra, “pecado” normalmente associado a surf music (e eventualmente verdadeiro em um caso ou outro).

Pouco antes do segundo show no 92 Graus, em Curitiba – o primeiro foi tão bem recebido que a banda foi convidada para uma segunda data não prevista na tour – o Scream & Yell bateu um longo papo, sem gravador, com Miguel Nikolov, que serviu de base para a entrevista propriamente dita, conduzida por canais internéticos em meio a uma complicada agenda do baterista, que também é fotógrafo, sushi man e vendedor de sucos detox (!). E o resultado é uma das entrevistas mais bem-humoradas dos últimos tempos.

Quando conversamos em Curitiba, você me disse que o Cesar era o único que já ouvia surf music e que ele convidou aos demais integrantes para montar uma banda do estilo. Daí eu te pergunto: quais os argumentos musicais que ele usou para convencê-los? Devem ter sido argumentos muito contundentes! (risos)
Cesar era um Ramone perfeito: a roupa, o cabelo, a música, seu estilo de vida, tudo era baseado nos Ramones. A banda em que ele tocava, Afectados, era “la grán banda ramonera argentina” (risos). Inicialmente éramos três no Lefunders: Cesar na guitarra, eu na bateria e Dandi no baixo. Eu tocava com Dandi em outra banda, chamada Portelefono. E nessa banda estava a esposa de Cesar, Mechi. Deixamos de tocar com Portelefono, passaram-se uns anos e aí o Cesar nos ofereceu a surf music. Bom, não quero me alongar em detalhes, mas o lance é que um dia o Cesar apareceu com um topetinho, os “óclinhos” Buddy Holly… Era outro Cesar, um Ricardo Valenzuela (nota: vulgo Ritchie Valens) argentino. Ele nos apresentou a The Ventures e eu diria que isso nos marcou para toda a vida. “Wipeout”, “Rock Nuts”… E, lógico, já tínhamos escutado a trilha sonora de “Pulp Fiction”, ou seja, eu e Dandi conhecíamos o estilo, mas não sabíamos que era um estilo (risos). Então podemos dizer que valeram os argumentos do Cesar, ou seja, os Ventures. Argumentos extremos!

Bom, então dá para dizer que vocês fazem parte da geração que conheceu o surf não pela praia, mas pelas trilhas sonoras dos filmes do Tarantino, certo? (risos)
Claramente. Está comprovado!

Aliás, uma piada recorrente sobre a surf music é que os surfistas não a escutam e nunca a escutaram, e que quem ouve mesmo é um pessoal que não vai para a praia, que prefere ir a bares escuros vestindo jaquetas de couro ou camisetas de mangas longas (risos). Mas falando sério: para quem os Lefunders tocam? Quem é o público da banda?
Todo tipo de pessoa vai aos nossos shows. Jovens, adultos, velhos, bebês, homens mulheres, hermafroditas, bichas, travestis, negros, brancos, verdes, tudo e todos são mais que bem-vindos para pirar a cabeça com os Lefunders.

Na música de vocês é possível escutar influências que vão além da surf music, como garage, hardcore, noise e metal – esse especialmente no seu modo de tocar bateria. Isso aparece intencionalmente, para fugir da ortodoxia do estilo, ou não é assim tão consciente?
Eu acho que de início nada foi intencional, mas veja que já deixamos claro que o único que já conhecia o estilo era o Cesar. As influências estão presentes porque todos da banda somos muito abertos musicalmente e escutamos de tudo, mas não é exagero dizer que encontramos sem querer um estilo não-ortodoxo. Tem garage porque se relaciona [com a surf music], hardcore porque escutávamos muito quando éramos mais jovens, noise porque não sabemos o que é (risos) e metal, para mim em especial, porque é algo que me deixa louco. O primeiro CD que comprei, aos 13 anos, foi “Schizophrenia”, do Sepultura, e é um disco que até hoje não parei de escutar.

Assim como acontece no blues, o surf é um gênero que revisita seus clássicos. Vocês fazem isso – no disco estão “Comanche”, do The Revels, e “Nitrus”, de Dick Dale – mas dada a diversidade de influências de vocês fico pensando que poderia ser interessante se vocês “convertessem” uma canção de outro estilo ao surf. Já rolou algo assim?
Sim, a gente tá nessa pegada. Chegamos a tocar “One Step Beyond”, do Madness, que está gravada na nossa primeira demo. Aliás: em breve vai sair um K7 dos Lefunders em que estará nosso disco no Lado A e essa primeira demo no Lado B. Mas voltando aos covers que fizemos: já aconteceu de tocarmos “Walk Like Jayne Mansfield”, das The 5,6,7, 8’s, e outros tantos dos quais não me lembro agora. E a ideia é fazer mais disso.

Essa é a típica pergunta de jornalista preguiçoso, reconheço, mas a curiosidade é real: como é a cena de surf music na Argentina? Ela já tem história ou é uma movimentação recente?
Vou te ajudar com uma resposta preguiçosa: se é pela minha idade (tenho 32 anos), eu te diria que a cena surf é algo bastante novo. Na primeira leva temos Tormentos, Kahunas e Zorros Petardos; depois veio a segunda camada, que são Lefunders, Beach Breakers e mais algumas que eu não me lembro.

Em agosto vocês passaram pelo Brasil. Como foi a recepção por aqui?
Foi incrível! Dá para dizer que temos “pais postiços” aqui no Brasil, que são [os produtores] Fernanda e Deco! Obrigado, amigos! E obrigado ao gênio que é Neri (da banda The Mullet Monster Mafia, e também produtor de shows), que nos convidou e ajudou a organizar a turnê. Sem ele nunca teríamos conseguido.

Mas foi uma turnê um tanto quanto acidentada, não? Pelo que soube, poderia rolar até um livro do tipo “Como Fazer uma Turnê Independente – Aprendendo com Erros Práticos”.
Pois é, a real é que foi uma experiência e tanto. Não vamos te dizer se ganhamos ou perdemos grana, tampouco vamos dar nomes (risos). Vamos deixar que cada um descubra se aconteceu mesmo essa história de que alguns lugares não nos pagaram o que fora combinado (nota: relatos de fontes que preferem o anonimato dão conta de que a banda tomou pelo menos dois calotes, e teve um show cancelado de véspera). Também não esperávamos alguns gastos como taxa por excesso de bagagem, multas com o carro alugado, pneus destruídos de um jeito que pareciam terem sido agarrados por um T.Rex… (risos)

Para 2016, vocês vão continuar divulgando o álbum de estreia ou a prioridade é voltar ao estúdio?
A ideia é entrar em estúdio para gravar o novo disco, Já temos várias músicas, algumas já estamos tocando ao vivo: “El Terror de la Carretera”, “Cosa del Diablo”, “Uachilaun”, “El Presidente Está en Ohio” e outros tantos.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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