Cinema: Chatô – O Rei do Brasil

por Marcelo Costa

“Cada povo tem o ‘Chinese Democracy’ que merece”, comentou um amigo no Facebook ao ver o pôster de “Chatô – O Rei do Brasil” (2015), o já lendário filme de Guilherme Fontes. Outro amigo interveio de modo divertidamente certeiro: “Nenhum povo merece o ‘Chinese Democracy’” (risos). Permanecendo na comparação com armas e rosas, é reconfortante perceber que o “nosso Chinese Democracy” é muito melhor do que o deles, mas, para isso, é preciso baixar a guarda: 20 anos após o projeto ter sido iniciado, “Chatô – O Rei do Brasil” finalmente chega aos cinemas, e surpreende como um grande filme.

O imbróglio extra produção daria um outro filme (oferecendo material tão vasto quanto) e é recomendável assistir a entrevista que Alexandre Matias, do Trabalho Sujo, fez com o ator e diretor Guilherme Fontes para a Trip TV (linkada no final deste texto) em fevereiro, já que há tanta coisa envolvida, falada, repercutida e, segundo o próprio Guilherme, não provada na história desde que o projeto foi iniciado que fica difícil opinar com segurança sem soar vazio. Se a produção (iniciada em 1995, mas com filmagens realizadas apenas em 1999 e 2004) foi conturbada, o resultado final é cinema dos bons.

A primeira coisa a se falar da versão final de “Chatô – O Rei do Brasil” é que a estética do filme não pertence ao cinema brasileiro atual, muito menos dos anos 90, quando começou a ser filmado. O roteiro parte de um ponto de vista lisérgico: devido a uma trombose, Assis Chateaubriand entra em um estado vegetativo e começa a relembrar fatos importantes de sua vida, e esse estado conturbado de saúde “contamina” suas memórias de tal forma que tudo no filme soa exagerado, o que, de certa forma, cria uma versão totalmente Guilherme Fontes do personagem Chatô (a família não se sentiu tão lisonjeada e tentou impedir o filme de estrear).

Ou seja, a trama é inspirada na excelente biografia homônima de Fernando Morais, sucesso de vendas e crítica em 1994. Porém, o roteiro desenvolvido por Guilherme Fontes com auxilio de Matthew Robbins (indicado por Francis Coppola, que também deu pitacos) se liberta de contar uma história tradicional de biografado (“em 1930 ele fez isso, em 1940 fez aquilo”) sugerindo um novo tempo / espaço para o personagem, que ao mesmo tempo é o do livro de Fernando Morais e também outro, a visão pessoal de Guilherme Fontes do próprio Chatô numa recriação (tão) pós-tropicalista (quanto os discos do Boogarins). É outra época, e também é o agora.

Magnata das comunicações (apelidado por muitos de “O Cidadão Kane” brasileiro), Chatô é desenhado no filme como um homem de extremos, grosso no trato com as pessoas e visionário em relação ao futuro, um jagunço de peixeira na mão e grandes ideias na cabeça. Em uma cena divertida, Chatô está em Nova York participando de um leilão de arte quando o leiloeiro apresenta um quadro: “As pessoas estão pagando 25 mil dólares nesse homem magricela?”, no que comenta sua companhia: “É um Modigliani, Chatô”. Ele arremata a obra (“Retrato de Leopold Zborowski”, hoje exposta no MASP, museu criado por ele) por US$ 70 mil.

Todos os desvios de caráter a que Assis Chateaubriand é constantemente acusado marcam presença no filme, o que faz Carlos Imperial parecer um coroinha (o picareta mor da Jovem Guarda foi muito bem retratado no denso/tenso documentário “Eu Sou Carlos Imperial”). “De que adianta ser dono de 26 jornais, 14 rádios, 4 revistas e 2 estações de televisão se está endividado até a alma”, comenta um subalterno, no que responde Chatô: “O importante não é ter dinheiro, é ter crédito”. E há várias maneiras de conseguir crédito, ensina o magnata, seja caluniando anunciantes, seja pressionando milionários, seja sendo amigo do presidente.

Uma aula psicodélica sobre o início da comunicação de massa na Terra de Santa Cruz, a estreia de “Chatô – O Rei do Brasil” em 2015 não poderia ser mais oportuna, já que escancara o modo de jornalismo direcionado a interesses de conglomerados em voga no país, e que se ampliou logo após Chatô decair. Num momento simbólico do filme, Chatô argumenta: “Se você fosse dono de um jornal e eu estivesse comendo sua mulher, você me chamaria de que? Sim, de corrupto”. Se Getúlio era realmente corrupto e se a tal mulher, até então, não passava de uma paixão platônica, pouco importa. O que fica para o povo é a manchete, é a “verdade”.

Com um grupo inspirado de atores (Marco Ricca está excelente como Chatô, e o mesmo vale para Paulo Betti como Getúlio, Gabriel Braga Nunes com Carlos Rosemberg – uma junção de Carlos Lacerda com Samuel Wainer – Letícia Sabatella como a primeira esposa e Leandra Leal como a segunda, além dos geniais e lendários falecidos Walmor Chagas e José Lewgoy), um roteiro esperto e um personagem rico em polêmicas, “Chatô – O Rei do Brasil” se prova um filme imperdível, que, sim, demorou 20 anos para chegar às telas, mas foi lançado no momento certo. Em alguns pontos, o Brasil permanece o mesmo de 60 anos atrás.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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5 thoughts on “Cinema: Chatô – O Rei do Brasil

  1. O filme é sensacional. Só não sei se Guilherme Fontes é mesmo um ótimo diretor ou se, na pressão pra lançar o filme, juntou como pôde o material que tinha e acabou acertando sem querer…

  2. Assisti ao filme ontem e é muito bom mesmo! Valeu a pena esperar tantos anos pelo resultado final. A estrutura narrativa caótica é interessantíssima, deixando o espectador atordoado (principalmente nos primeiros minutos de “Chatô”). Também gostei muito das atuações (Marco Ricca foi impecável, Paulo Betti fez um Vargas até melhor que o de Tony Ramos), das alusões a “Cidadão Kane”, do tom irreverente e anárquico, os delírios do “Julgamento”, a montagem propositalmente insana…

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