Cinema: Ninguém Ama Ninguém…

por Marcelo Costa

Primeiro longa-metragem de Clovis Mello, diretor premiado em publicidade que começou a carreira no início dos anos 1980 como editor na Rede Globo, onde trabalhou em novelas e seriados, “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos” estreou na Mostra de Cinema de São Paulo e agora entra em cartaz apresentando uma trama que se inspira em cinco contos (interligados) do genial (e genioso) Nelson Rodrigues, com roteiro muito bem adaptado a seis mãos por Paula Santos, Marina Meira e Rodrigo Vasconcellos.

Inevitavelmente, pelo currículo do diretor, “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos” carrega um jeitão de programa especial da Rede Globo, e antes que o leitor erga uma sobrancelha de desconfiança (ok, já ergueu), é bom dizer que a adaptação de Clovis Mello é das melhores safras da emissora como “A Vida Como Ela É”, “Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados” e “Comédias da Vida Privada”, não à toa duas adaptações também derivadas de obras do próprio Nelson Rodrigues – a terceira é de Luís Fernando Veríssimo.

De repertório vasto e constantemente adaptado, o polêmico Nelson Rodrigues volta às telas com cinco contos ainda inéditos no visual (o que é incrível, visto que alguns deles são clássicos da literatura do homem) num momento em que o politicamente correto soa como o 11° mandamento da Bíblia, e talvez essa seja uma das grandes virtudes do filme: oferecer o texto provocante e impagável de Nelson Rodrigues numa adaptação caprichada que enfrenta, agora, uma nova moral e bons costumes, muito diferente da época em que foram escritos.

Seguindo o bordão do filme – “Se você nunca foi traído, é comédia; Se já foi, é drama”, a história tem como cenário um boteco chique no Rio dos anos 50/60. É lá que vários amigos se encontram. Numa mesa, por exemplo, um pobre rapaz afoga as mágoas. Ele se chama Euzébio (Michel Melamed) e seu melhor amigo, Orozimbo (Pedro Brício), se casou com uma bela mulher (Gabriela Duarte, que já havia estrelado um episódio de “A Vida Como Ela É” na TV, “O Anjo, ou melhor, A Cunhada“, novamente brilha), não muito bem falada na vizinhança (para desespero dele, Euzébio, e do amigo marido). O episódio tem um final espetacular.

Outro personagem é Asdrúbal (Marcelo Faria), um rapaz sem grandes posses que após se casar com uma garota rica e mimada, muda-se para uma mansão, e descobre que todas as empregadas são afrodescendentes. “Claro, ou você pensa que sou boba? Criada branca não entra aqui. Só preta e olhe lá. Não acredito em homem nenhum”, argumenta Teresinha, a esposa chata (e racista). Porém, uma das empregadas, Mariana, que desfilou no carnaval como Rainha de Sabá, é absolutamente maravilhosa, e colocará a fidelidade do maridão a prova.

Pouca coisa escapa a verve afiada de Nelson Rodrigues, e ainda que a adaptação seja fiel em recriar o clima e o visual dos anos 50/60, o texto vez por outra encaixa uma gíria atual, algo que acelera o ritmo da trama e funciona muito bem. Em outra história, “Despeito”, a esposa Marlene (Branca Messina) é convencida pelas amigas que fidelidade é coisa fora de moda. “Menina, ninguém ama ninguém por mais de dois anos”, diz uma. Ela então espera o marido viajar e, inexperiente, tenta conquistar o melhor amigo do esposo, que não cede tão fácil.

Outras duas histórias flagram, assim como as três anteriores, a vitória (ora cômica, ora trágica, ora tragicômica) do sexo feminino sobre o masculino. Em “Vendida”, que remete ao episódio de Luchino Visconti com Romy Schneider em “Bocaccio 70”, o maridão metido a esperto “aluga” a esposa para um amigo, mas será surpreendido. Em um dos melhores contos de Nelson, o fiel marido “trabalhado sim sinhô” entra em desespero quando descobre que sua amada e pura esposa, agora morta, recebeu uma caríssima coroa de orquídeas de um amante no enterro.

Há dezenas (talvez centenas) de TCCs por ai analisando o papel do sexo, das mulheres, dos homens e da traição na obra de Nelson Rodrigues, o que merece um olhar aprofundado. Em “Ninguém Ama Ninguém… Por Mais de Dois Anos”, porém, Clovis Mello não busca essa análise crítica, mas sim oferece 87 minutos de diversão – embalados por uma arte caprichada de divulgação – para que o espectador ria (e também sofra) da imperfeição do ser humano e das peças que a vida prega em cada um, pensando: será que a vida continua sendo assim?

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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