Boteco: Duas Pyramid, Duas SNAB

por Marcelo Costa

A Pyramid Breweries é uma cervejaria fundada em Seattle, em 1984, que logo se colocou entre as cinco maiores micro cervejarias dos EUA, o que chamou a atenção de grandes companhias, iniciando um processo de aquisições: primeiro foi Portland Brewing Company, que a adquiriu em 2004, passando a Pyramid para as mãos da Magic Hat em 2008. Em 2010, todo o catálogo da Magic Hat (incluindo a Pyramid) foi para as mãos da North American Breweries, que vendeu a Pyramid para a Cerveceria Costa Rica em dezembro de 2012. Já a holandesa SNAB é de 1991, e sua abreviatura diz tudo: Fundação de Cervejeiros Alternativos Norte-Holandeses. Grande parte do catálogo de cervejas da casa é produzida na fábrica da De Proefbrouwerij, na Bélgica. Abaixo, duas norte-americanas da Pyramid e duas norte-holandesas da SNAB.

A Pyramid Apricot Ale é uma Fruit Beer não filtrada produzida com 50% de malte de trigo e 50% de malte Pale Ale mais lúpulo Nugget e adição de, como adianta o nome, damasco. De coloração amarela turva (puxada pra escola wheat norte-americana, leia-se Blue Moon) com creme branco de boa formação e média alta permanência, a Pyramid Apricot Ale apresenta um aroma notadamente frutado, com sugestão de damasco pulando para fora da taça e trazendo consigo pêssego. Ainda é perceptível leve doçura e acidez baixa. Na boca, a textura é suave e aveludada (lembrando a fruta) enquanto o primeiro toque reforça a sugestão de damasco e pêssego, adiantados pelo aroma. O amargor é inexistente, mas há uma leve acidez que não inibe a doçura frutada, mas dá um colorido interessante ao conjunto. Final e retrogosto reforçam a presença do damasco numa cerveja perfeita pra acompanhar pratos de entrada.

A Pyramid Hefeweizen, por sua vez, resulta do blend de 39% de malte 2 Row Pale Barley, 60% de trigo e 1% de malte Caramel mais os lúpulos Nugget e Liberty. Assim como a Apricot Ale (e as tradicionais German Weizen alemãs), essa Pyramid Hefeweizen não é filtrada e apresenta uma coloração entre o amarelo e o âmbar. O creme é branco de média formação e retenção. No nariz, leve toque cítrico toma o lugar da tradicional sugestão de banana (bastante tímida) seguido de pão e suave caramelo. Na boca, textura cremosa. O primeiro toque surge trazendo frutado (cítrico e leve presença de banana) e suave acidez. O amargor é baixo. Dai pra frente, um conjunto que se equilibra entre sugestões frutadas (cítrico e banana distante), presença de trigo (pão, biscoito) e leve condimentação. O final é levemente frutado e picante enquanto o retrogosto combina frutado (novamente cítrico e banana), especiarias e trigo. Interessante.

A SNAB Czaar Peter é uma Russian Imperial Stout cuja receita une maltes Caramünich, Pils, Chocolate e Black, lúpulo Challenger, levedura, água e cacau da cidade de Zaandam. Medalha de bronze no Australian Beer International Awards 2009, a SNAB Czaar Peter exibe uma coloração marrom bastante escura com creme bege de baixa formação e rápida dispersão. No nariz, a primeira coisa que chama a atenção é uma interessante sugestão de frutas vermelhas, que em alguns momentos se sobrepõe ao café tradicional do estilo. Há ainda leve baunilha, toffee, ameixa, passas e suave defumado. Na boca, textura sedosa com leve picância de álcool. O primeiro toque traz rápido torrado (café) seguido de frutas vermelhas. O amargor alcoólico (8.5%) é médio, e abre o caminho para um conjunto que sugestiona café e bolo Floresta Negra. O final traz suave chocolate amargo. No retrogosto, chocolate, álcool e frutado. Uma surpresa.

Produzida para comemorar os 10 anos da casa, em 2001, a SNAB Maelstrøm é uma American Barley Wine que usa maltes Pale, Crystal e Munich mais levedura e lúpulos norte-americanos (do Oregon e Washington, respectivamente). De coloração acobreada e turva com creme bege de baixa formação e média permanência, a SNAB Maelstrøm apresenta ao nariz um perfume bastante adocicado (caramelo, açúcar mascavo), com leve sugestão herbal, frutada (banana, ameixa, frutas cristalizadas e… laranja!) e alcoólica (9.2% de graduação). No paladar, a textura é levemente licorosa com picância de álcool. O primeiro toque traz doçura caramelada seguida de leve cítrico e álcool, que potencializa o amargor, e esquenta. Dai pra frente, um conjunto que consegue unir a contento o tradicional de uma Barley Wine (doçura, álcool) com o cítrico dos lúpulos USA. O final traz leve doce. No retrogosto, caramelo, cítrico e açúcar mascavo. Boa e diferente.

Balanço
Essa Pyramid Apricot Ale é daqueles que muito cervejeiro iniciante dirá (erroneamente) que não é cerveja, ainda que malte, lúpulo, água, levedura e os 5,1% de álcool ultrapassem todas as Premium American Lager que ele conhece. Tudo isso porque a estrela é o damasco, que a transforma quase em um suco de cevada e trigo. Perfeita para acompanhar uma salada ou mesmo para refrescar em um dia quente. A Pyramid Hefeweizen é uma releitura do estilo alemão, que acrescenta mais cítrico do que banana no conjunto, mas mantém a picancia das especiarias e as derivações do trigo (pão, biscoito). Ainda assim me soa bastante inferior ao modo tradicional de Hefeweizen. Não deixa de ser interessante, mas prefiro as da Baviera. Minha primeira SNAB, a Czaar Peter soou como se fosse um adorável bolo Floresta Negra alcoólico, com muita sugestão de frutas vermelhas casando com o chocolate amargo. Uma delícia que faz sonhar. Já a SNAB Maelstrøm, por sua vez, também é uma American Barley Wine fora da curva, com doçura e álcool presentes, mas acrescida de um toque cítrico adorável – sugerindo compota de abacaxi. As duas demonstram muita personalidade, e merecem serem provadas.

Pyramid Apricot Ale
– Estilo: Fruit Beer
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5,1%
– Nota: 2,98/5

Pyramid Hefeweizen
– Estilo: Wheat Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 2,84/5

SNAB Czaar Peter
– Estilo: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 8,5%
– Nota: 3,71/5

SNAB Maelstrøm
– Estilo: American Barley Wine
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 9,2%
– Nota: 3,71/5

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