Entrevista: Wado (2015)

por Marcelo Costa
colaborou
Adriano Mello Costa

Wado quer voltar a ser esquisito, e o start para esta nova fase é “1977”, seu oitavo disco, disponibilizado para download gratuito em seu próprio site (http://wado.com.br/) e que rompe com o repertório contemplativo dos dois álbuns anteriores (“Samba 808” / “Vazio Tropical”) através de uma aproximação com o rock atual. “A minha vontade era dialogar com Vampire Weekend, Fleet Foxes, Phoenix, coisas que gosto dessa cena mais nova. Não era fazer um disco saudoso do rock and roll”, explica entre copos de cerveja.

Lançado em março, “1977” se distancia dos dois álbuns anteriores na sonoridade mais pop, pegada, mas mantém o modus operandi das participações especiais, ou melhor, o amplia promovendo um interessante passeio ibero-americano com participações de Lucas Silveira (Fresno), João Paulo (Mopho), Samuel Úria e O Martim (Portugal), Gonzalo Deniz (Franny Glass, do Uruguai), Graciela Maria (México) e Belen Natali (Mateo de la Luna en Compañía Terrestrial, da Argentina), entre outros.

“1977” é aberto por três rocks e depois traz “Galo”, que mesmo mais lenta abre espaço para riffs de guitarra e a bela voz de Graciela. “Condensa” (Brasil + Portugal + Argentina) recupera o clima dos primeiros discos de Wado enquanto a delicada “Mundo Hostil” conta com Gonzalo Deniz, que havia colaborado em “Vazio Tropical”. O disco ainda traz parcerias com Zeca Baleiro (“Palavra Escondida”), Dinho Zampier, do Figueroas (“Menino Velho”) e uma bela regravação de “Um Lindo Dia de Sol”, do segundo disco do Mopho, “Sine Diabolo Nullus Deus” (2014).

Na conversa abaixo, realizada num agradável começo de tarde ensolarado na Rua Augusta (e antes de uma bela feijoada), Wado fala sobre a produção de “1977” (“Sou eu voltando a tomar as rédeas”), sua aproximação com Portugal (“Dar voz para esses caras é muito importante”), a versão de O Martim para “Rosa” (“Ele fez uma ‘Rosa’ meio Hot Chip”) e planos futuros, que incluem um disco inteiro de axés (“Sou eu tentando ser a Ivete”) e o distanciamento da zona de conforto: “Quero voltar a ter a coragem do Wado dos primeiros discos”, avisa. Papo bom.

“1977” é seu oitavo disco, certo?
Sim. E é chão, né?

Bota chão nisso (risos). São oito discos em 15 anos…
Isso. E eu estava pensando: o que leva a gente a ouvir o oitavo disco de alguém? Me colocando no papel do outro: um cara como Arnaldo Antunes, um artista pertinente, gosto da obra dele, mas provavelmente eu não vá escutar o oitavo disco dele… são reflexões que precisam ser feitas…

Mas não há muito como fugir, né?
Não, porque eu tenho que continuar fazendo o meu trabalho, e eu gosto de fazer (sorriso). E a partir disso é preciso circunstanciar as coisas dentro dessa perspectiva de que eu já sou um cara de uma geração anterior. Acho que o próximo passo é, no meu novo site, disponibilizar todos os meus discos para download, mas me colocar em primeiro plano, antes dos discos…

Para a pessoa encontrar o Wado…
Porque o que vincula é você ver um show de coisas que eu já fiz e que necessariamente não estão focadas no disco do momento.

Exato, porque quando o artista tem apenas um disco, você sabe que ao ir ao show, a chance de ouvir todas as músicas desse disco é enorme. Já de um artista que tem oito discos, ficam músicas de fora, inevitavelmente. “Será que o Wado vai tocar ‘Deserto de Sal’ nessa turnê?” (risos).
Tem um amigo meu que diz que existe o “set list” e o “dezessete list”, com as 17 músicas que o cara sempre toca (risos). Mas o bom é sempre tentar fugir desse “dezessete list”. No (show do) “1977” a gente buscou coisas que são relacionadas a ele. Tentei fazer um show mais espiritual e menos carnal. Então entrou “Pendurado” (“Terceiro Mundo Festivo”, 2008), “Vai Querer” (“A Farsa do Samba Nublado”, 2004)… músicas que são menos gafieira e mais para a alma.

Que era algo que estava explicito no show do “Vazio Tropical”, que é um disco espiritual…
É um disco para o belo. A gente buscou um pouco disso no “77”. O que você achou dele?

Gostei muito nas primeiras audições. Ele começa muito forte com “Lar” e “Cadafalso”, que são rocks que trazem um peso que há tempos você não tinha…
Sim, as três primeiras dão essa porrada: “Lar”, “Cadafalso”, que é uma versão mais roqueira da música que fiz com o MoMo (e que dá título ao último disco dele), e “Deita”, que é uma homenagem descarada a “Lisztomania”, do Phoenix. Se você pegar o andamento, o desenho da batera, é a minha paixão pelo rock contemporâneo declarada ali. A minha vontade de fazer um disco de rock era dialogar com Vampire Weekend, Fleet Foxes, Phoenix, as coisas que eu gosto dessa cena mais nova. Não era fazer um disco saudoso do rock and roll.

Ainda assim, achei que a quantidade de participações desequilibrou um pouco o disco…
Pareceu excessivo?

Não sei, me pareceu que dá uma quebrada no ritmo…
É muita gente…

Por outro lado, eu o acho mais ganchudo, mais pegado do que o “Vazio”…
Ele é mais pop. E tem uma coisa: eu chamei o João Paulo, (guitarra e voz) do Mopho, e ele ajudou a fazer com que o disco fosse muito bem cantado. O João faz comigo todos os refrãos abrindo terças, quintas e sétimas. A voz do João é linda e ficou muito pop. A minha voz tem uma linha, o João chega com a dele e abre, ele tem esse cuidado estético.

Foi natural o disco trazer diversos representantes da música ibero-americana?
“1977” não tem a força dos convidados do “Samba 808” (2011) e do “Vazio Tropical” (2013), apesar de que o Samuel Úria é muito grande em Portugal…

E tem o Lucas (Fresno) Silveira…
É, ele é grande aqui. Eu tinha ido a Portugal recentemente e passei 10 dias lá gravando um disco, “O Clube” (com Cícero, Momo e os portugueses Diego Armés, Bernardo Barata, Alexandre Bernardo e Fred Ferreira – download gratuito aqui), e criei um diálogo lá. Dai no processo de feitura, eu queria um disco que refletisse a nossa postura de consumo no mundo hoje, da gente ouvir uma banda francesa que canta em inglês, beber uma cerveja que pode ser belga ou de Blumenau… eu gosto muito da Mayra Andrade, por exemplo, que é uma cantora cabo-verdiana que ora canta em inglês, ora canta em português, ora canta em creole… e eu queria que esse disco tivesse esse viés transnacional. Manu Chao e Rodrigo Amarante já fizeram experimentos assim… E a partir disso eu fui convidando pessoas, então quando a letra ia repetir, eu pensava: por que não jogar uma novidade aqui?

Como você conheceu esse pessoal que participa do disco? Por exemplo, a mexicana Graciela Maria (que divide letra e vocais em “Galo”)?
Foi um amigo que mora em Berlim que me mostrou uns clipes bem bonitos dela, e eu gostei da voz. A argentina Belen Natali (do grupo Mateo de la Luna en Compañía Terrestrial, que participa da faixa “Condensa”), que hoje em dia mora no Espanha, já morou em Maceió, e eu a conhecia. O Samuel Úria eu conheci na viagem a Portugal. O Lucas Silveira era meu amigo de internet, e gosto mesmo da onda dele. Ele é um dos que tem mais figura de linguagem nisso que dizem ser “emotional hardcore”. E canta pra caralho. Bota pra quebrar mesmo. E é um cara muito legal. Das coisas que tocam no rádio, é uma das coisas mais bacanas. Então pra mim é valido ter o cara junto.

E é difícil chegar ao rádio, hein…
Porra, eu nunca cheguei (risos)

Mas suas músicas tocam no rádio em Belém…
Tocam?

Na Cultura, na UNAMA, que é uma rádio universitária…
Belém é foda!

Como está a sua relação com a carreira hoje?
2015 desconstruiu um pouco (o que eu vinha fazendo) porque eu já estava há quatro, cinco anos, vivendo de música, batalhando muito, mas vivendo, e esse ano deu uma apertada. Em 2014 eu vim 8 vezes para São Paulo fazer show, foi muito bom, era o segundo ano do “Vazio Tropical”. Esse disco novo (“1977”) passou por uma digestão um pouco mais lenta, teve problemas na divulgação (o selo prometeu algo e não fez), então o disco foi chegando meio por acaso, mas realmente está um ano difícil. Entrei na crise junto com o Brasil, mas a crise é importante para tirar você da zona de conforto, fazer você rebolar…

Acho estranha essa digestão mais lenta porque, como você disse, o “1977” é um disco muito mais pop do que o “Vazio Tropical”, que era um disco mais contemplativo.
Às vezes me pergunto: será que fiz alguma coisa errada? Dai coloco o “77” pra ouvir e chego a conclusão de que era o que eu queria fazer naquele momento. É sincero. E para mim é muito mais confortável ouvir a minha voz no “77” do que no “Vazio”, que é um disco muito frágil, nu de arranjos.

No texto que escrevi sobre o show do “Vazio Tropical” falei que a produção era bonita, mas soava como uma camisa de força, porque você não foi feito para o banquinho e violão…
É legal ver como essas músicas do “Vazio” estão soando hoje no show, elas não estão mais sentadas, estão em pé (risos). A gente faz “Flores do Bem”, “Rosa”, “Primavera Árabe”…

Você curtiu a versão d’O Martim para “Rosa” (presente no álbum “Projeto Visto 2”, lançado pelo Scream & Yell)?
Pra caralho! Achei melhor do que a minha. Chamei-o pra gravar no disco por isso (Martim participa de “Condensa”). Ele fez uma “Rosa” meio Hot Chip. O engraçado é que a gente não tem a referencia da aura da pessoa, escolhe porque gosta. Dai chego a Portugal e as pessoas me perguntam: “Por que você colocou o Martim no disco?”. Ele é muito famoso lá na TV como um ancora engraçado, e as pessoas não conhecem esse viés poético e compositor dele. Por outro lado, chegam e dizem: “Pô, você conseguiu o Samuel Úria para o seu disco”. E o Martim bota pra quebrar igual ou até mais que o Samuel no resultado da voz. Pra mim não importa, são dois caras de que eu gosto muito, não tem essa diferença que as pessoas lá veem.

Como foi para você essa aproximação com a cena portuguesa?
Ter ido lá e ficar gravando um disco com eles refletiu nessa minha vontade de ter duas vozes (portuguesas) no “1977”, retribuir, não ficar só no oba oba de ir lá e gravar, mas também trazer os caras pra cá. Dar voz para esses caras é muito importante. A música do Samuel com a Márcia (“Eu Seguro”) é um hit, um hino. E o Samuel cantou comigo no show lá. Ele é um performer, dança, canta muito. E quase me fudeu o show (risos) porque me levou num botequinho e eles têm uma cachaça lá chamada Bagaceira, dai ele colocou um copo cheio, um pra mim, outro pra ele (risos)… Fiz o show meio torto… (mais risos)

Como está Alagoas agora?
Está massa. O Figueroas estourou e a melhor coisa que podia ter acontecido para Alagoas era o Figueroas chegar, porque não tem vinculo nenhum com Los Hermanos, que é o ranço Brasil de desdobramentos da música. Acredito que a gente está na fronteira de achar um novo caminho para a música do Brasil, algo meio stoner rock, virulento, e ao mesmo tempo meio mutante…

A gente vive um momento (lindo – risos) de, cada vez mais, aceitar diferenças e questionar quem não as aceita. Antigamente havia a coisa bruta do rock and roll, que tendia a ser uma coisa bem machista, enquanto hoje você tem um Figueroas, com um figurino rock, mas dançando lambada, o que cada vez mais amplia o leque…
O Figueroas tem uma sacada, uma quebra de linguagem, uma inteligência pós-Twitter, pós-Instagram: pra que música com A, com B, com C? É só A. A música é “Fofinha”, só essa palavra. Ele leva isso adiante. A letra das músicas do Figueroas é uma palavra, duas. É uma coisa maluca.

Você não imagina fazer nada assim?
Às vezes faço músicas com letras muito curtas, e quando vejo que não há necessidade de alongar, deixo assim. E é ótimo quando isso acontece porque… é tanto disco que pra sair desse charco de informação tão grande, o disco tem que ter apenas o necessário. Não adianta ficar colocando frou-frou. A gente precisa das ancoras pra saber o que ouvir e, por isso, não dá pra fazer um disco com mais de 10 músicas hoje, por exemplo. 10 músicas é o mínimo e o máximo.

Num primeiro momento do CD, a galera pirou, né. “É possível gravar mais de 70 minutos em um CD? Bora ocupar todo o espaço!!! (risos)”. E dai vem o Metallica, com o “Black Album” (1991), e tasca 62 minutos de música! Imagina, uma hora ininterrupta! Como alguém consegue parar no mundo de hoje e ouvir até o final??!! (risos)
E o Charlie Brown Jr, que lançava disco com 20 e tantas músicas?

Voltando ao “1977”, você diz que o ouve e se dá por satisfeito, é o que você queria fazer. Com todos os seus discos é assim?
Acredito em todos eles enquanto obra de arte. Tenho uma benção no meu trabalho que foi nunca ter dado certo o suficiente para precisar me repetir (risos). As coisas nunca deram certo ao ponto de ter que faze-las de novo. Ela dá certo no ponto em que pago minhas contas, mas não ao ponto de eu “precisar” fazer, por exemplo, outro “Vazio Tropical”. E isso é massa, te dá uma liberdade, mas tenho dois discos que me incomodam muito pra ouvir: o primeiro, “Manifesto da Arte Periférica” (2001) e o “Vazio Tropical” (2013). Não pelo conteúdo deles, mas sim pelos aspectos físicos, pela colocação da voz, a maneira com que você traz a ideia para o mundo e ela é executada de outra forma. O conceito do meu primeiro disco era assim: eu queria uma obra de arte, mas como eu não tinha um bom estúdio pra fazer, não adiantava tentar simular um estúdio grande, porque iria ficar brega, então fui atrás da sonoridade do estúdio fuleiro em que eu estava. Dai colocava a música para o cara tocar, e dizia: “eu quero o teu primeiro take, com erro ou sem erro”. E tem erros! Às vezes a música tinha que ter um bumbo, e não tem. Hoje em dia você vai e corrige isso no computador. Mas aquilo ali é 2001…

Foi mais fácil gravar o “1977”?
Foi um exercício bem legal, prazeroso. Como eu tinha saído do “Vazio Tropical”, que foi produzido pelo Marcelo Camelo, e o Marcelo é um cara maravilhoso, mas ele mergulha de certa forma naquilo ali (na produção)… ele se entrega mesmo. A gente foi tocar em Portugal por causa dele! Os outros caras me disseram, quando estive lá, que depois de um show lotado no Coliseu dos Recreios, todo mundo no restaurante comemorando, ele se desculpava e dizia: “Galera, tenho que ir. Preciso gravar os baixos do disco do Wado”. E o pessoal: “Quem caralho é Wado?” (risos). Fui parar lá por conta desse compromisso dele! “Quem é esse cara que o Camelo não para mais em lugar nenhum porque está produzindo o disco dele?”. E o “Vazio Tropical” é resultado do choque dos nossos universos. Já o “1977” sou eu voltando a tomar as rédeas. Fiz o disco durante um ano, toda semana ia e fazia algo num estúdio bacana, o norte dele estava claro para mim. Não sofri muito pra fazer.

Você não chegou a rodar com esse disco na América Latina, chegou? Porque você tinha aquele plano do disco em Buenos Aires…
Não, porque o “1977” ainda está bem encolhido, mas esse disco em Buenos Aires ainda pode ser um plano futuro. Acontece que agora estou com uma ideia maluca (risos), que nem sei se é legal soltar já… mas bora lá: a minha ideia é gravar um disco inteiro de axé, e ele vai se chamar “Ivete”…

Sensacional (risos)
Sou eu tentando ser a Ivete! Já tenho alguns axés compostos. Acho que “1977” será um disco que as pessoas vão voltar depois… pela maneira que ele foi lançado e também por ser uma ressaca após dois discos (“Samba 808” e “Vazio Tropical”) que traziam agregados muita gente de nome forte para o Brasil, mas ele ainda pode render… (pensativo) eu preciso ter coragem para o próximo disco porque meu compromisso com o belo já deu: eu fiz dois discos em que, de certa forma, eu flertei com o belo, e eu quero voltar a ser o Wado estranho, que te tira da zona de conforto. A ideia do disco “Ivete” é isso. Eu quero voltar a ser esquisito.

Legal isso!
Outra coisa: existe uma cena musical ai que eu preciso conversar mais, de coisas interessantes acontecendo. Já sou colocado como veterano nessa cena, indie, mas veterano. E tem uma galera, Cícero, Silva, Tim Bernardes… muitas cabeças inteligentes nessa nova cena pra dialogar.

Na última entrevista sua para o Scream & Yell, na época do “Vazio Tropical”, você disse algo que gerou polêmica, e que acredito que faltou tato para nós, que deveríamos ter aprofundado a questão ali na hora para tentar entender. Era um trecho em que você dizia: “A gente está longe de estar no primeiro mundo! Por que a música está assim horrível? Porque as classes D e E subiram e trouxeram consigo uma música muito imatura, que acabou sendo comprada pela classe média”…
Realmente, fui bem atacado por isso. Esse lance sobre classe D e E é terminologia de mercado publicitário, e eu não concordo com isso, mas o contexto era sobre um posicionamento de mercado da dita música alternativa, era onde a conversa estava inserida. Acho essa classificação uma coisa horrorosa. O ponto em que eu queria chegar, e talvez por não ter chegado, fui mal interpretado, é que o Brasil vivia um momento de crescimento econômico, mas estava se vendendo como Primeiro Mundo oco. Por que “Passarinho”, do Curumin, não foi a música do ano no Brasil inteiro dois anos atrás? É a música mais linda sei lá desde quando. Quem ouviu “Passarinho” pensou: é o Lulu Santos de 2015, mas não foi massivo. Dai o sertanejo vem e diz: “Eu fui pro barzinho e peguei a mulher”. Tudo na cara, e faz sucesso. (Ou seja, a diferença é que) é preciso ter ferramentas para ler uma metáfora, de entender uma figura de linguagem. A gente ainda tem um longo caminho de estudo, e está construindo as ferramentas para isso. Os 12 anos de PT, para mim, foram muito válidos, e os resultados a gente vai ver… na verdade já está vendo! “Que Horas Ela Volta?”, aquilo ali é o Bolsa Família funcionando, o Bolsa Família deveria se chamar Bolsa Escola. Não tem nada a ver com elitismo. Pô, meus discos são arte periférica, gravo axé, gravo funk carioca, gravo reggaeton, e não faço isso de forma jocosa, respeito muito esses gêneros. Sério mesmo. Não brinco com isso. Tentaram deslocar o meu depoimento prum lugar que não tem nada a ver comigo. Sem contar que, ainda assim, nós temos um Marcelo Jeneci, uma Tulipa, uma Vanessa da Mata, que, de certa forma, são massivos. É um assunto muito delicado, e eu fui mal interpretado.

O que a paternidade pode mudar na sua música? (risos)
A paternidade me fez melhorar como ser-humano, de fato. O fato de pensar que eu tenho que viver mais 30 anos para pagar as contas e cuidar dele (risos). Os abusos que cometo agora são muito menores. Eu era um cara muito boêmio… Agora, quatro e meia da tarde pego ele no colo. Mas, na música, acho que tende a me tornar careta. E esse é o desafio porque o meu plano é não ser careta, é voltar a ter a coragem do Wado dos primeiros discos, de fazer o que eu tenho vontade de fazer acreditando que as pessoas vão me entender. Vamos ver.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

Leia mais:
– Wado (2001): “Não tenho medo do pop. Ele que me aceite do jeito que eu sou” (aqui)
– Wado (2004): “Não tenho nenhum problema com o pop. Talvez ele tenha comigo” (aqui)
– Wado ao vivo (2006): “Batidas fortes, aproximando o samba torto da eletrônica” (aqui)
– Wado ao vivo (2007): “Seus sambas tortos estão cada vez mais densos/tensos” (aqui)
– “Terceiro Mundo Festivo” (2008): “Inspiração terceiro-mundista e vocação cosmopolita” (aqui)
– Wado (2009): “A partir do primeiro navio negreiro você não tem mais uma raiz original” (aqui)
– Wado ao vivo (2009): “Desta vez ele seguiu a linha afoxé de “Atlântico Negro” (aqui)
– Melhores da Década: “A Farsa do Samba Nublado” aparece na 15ª posição (aqui)
– Wado (2011): “Sou um sambista, mas acho que só eu acho isso – risos” (aqui)
– Wado ao vivo (2011): “Wado talvez esteja próximo de atingir seu ponto mais alto” (aqui)
– “Vazio Tropical” (2013): um disco bonito que, quanto mais se cala, mais fala (aqui)
– Vídeos: Wado lança “Vazio Tropical” em SP com Camelo, Cícero, Momo e Fafá (aqui)
– Wado ao vivo (2013): “Wado ainda está admirando o filho recém-nascido” (aqui)
– Wado (2013): “Você tem que pagar contas, e viver do jeito que você gosta de viver” (aqui)
– “Ano da Serpente” (2014): ” Lá se vão 13 anos e seis discos depois…” (aqui)
– Wado ao vivo (2015): “Wado conquistou a audiência com a sua musicalidade inata” (aqui)

MAIS SOBRE MÚSICA NO SCREAM & YELL

14 thoughts on “Entrevista: Wado (2015)

  1. Acho o Wado engraçado. Assim, eu não curtia as musicas e os discos dele, mas resolvi dar uma chance pro cara e a partir do Samba 808 comecei a gostar, apesar de já gostar de algo da Farsa do Samba Nublado. Mas eu acho engraçado ele e a sua luta pra viver de musica. Pô, eu sei que é complicado, complicado é pra todo mundo, mas ele vai ficar reclamando (nessa entrevista até que nem tanto) disso sempre? Acho que vai virar uma anedota isso, todo mundo vive no indie, menos ele.

  2. Pra mim o Wado continua sendo um dos artistas em atividade mais relevantes da música brasileira. Toda a obra do cara é cheia de acertos, alguns geniais.

  3. Ah, mas não dá nada reclamar um pouquinho. Até porque o cara tá há uma cara na correria. E esse lance que ele falou sobre o Curumim é muito real: esse cara (Curumim), com os três discos que tem, deveria ter estourado, tocar em rádio, nos carros, nos assobios nas ruas. Mas existe uma mediocridade tamanha que, obrigatoriamente, pra ser POP, pra fazer sucesso, tem que ser muito ruim. Eu sempre falo pros meus amigos: se isso aqui fosse um lugar um pouquinho mais decente, Curumim (e outros também) seria obrigatoriamente rei.

  4. Bem bacana a entrevista, como conterrâneo alagoano do Wado e habitués de seus shows, torço bastante por ele. Acho massa a parceria com o João Paulo e os patrícios d’além mar.

    Reclamação de fã: acho que ele deveria valorizar mais Atlântico Negro nos shows, seu melhor disco na minha opinião.
    E desde já na expectativa por ‘Ivete’.

  5. Wado nunca decepciona, já fui em mtos shows em Maceió, é sempre mto animado, gosto do fato de ele nunca se repetir em seus discos, esse é o charme dele, Wado é um artista como poucos nesse nosso mercado musical tão confuso. Vida longa ao Wado, que venham novas experiencias sonoras, recomendo o show que ele faz, chamado Bloco dos Bairros Distantes, projeto que ele põe em pratica essa paixão dele pelo axé!

  6. O que não muda nessa cena é a brodagem. Sempre os mesmos artistas fazendo média com os mesmos artistas. Cícero e Silva para mim são mais chatos que ver a grama crescer mas sempre estão aí sendo citados e citando Tulipa, Karina Burh, Tata Aeroplano, Romulo Froes, Jeneci, etc. Pelo menos no caso do Curumim ele é bom mesmo, o disco “Japan Pop Show” é excelente.

  7. Ah, Wado, tava esperando esse disco de Axé como a sequência do “Atlântico Negro” 🙂 hahaha…

    Eu tinha uma baita expectativa pelo “Samba 808”, mas pra mim ele tem o mesmo ponto do “1977”: ambos tem excelentes músicas, mas o álbum como um todo não flui tão legal como os demais. Pode ser o lance da quantidade de convidados, como foi citado pelo Mac, mas não tenho certeza.

    O “Vazio Tropical” é que foi uma quebra, na minha cabeça por causa do encantamento de “Com a Ponta dos Dedos”, uma tentativa de partir dali pra fazer um disco, ramificações dela, pelo menos em estética e arranjos. Fui no show de lançamento no SESC e lembro depois de concordar muito com a crítica do Mac, que era um disco/show teatro. Em alguns momentos parecia que o Wado queria que as batidas aumentassem, que o som pegasse fogo, animasse, e a música acabava.

    É muito papo… então chega… Resumindo, boa sorte Wado! Um brinde à volta das “esquisitices”, do toque axé… abs!

  8. Comecei a gostar de ouvir o Wado recentemente, por meio do disco “‘1977”. Já havia ouvido alguma coisa dos demais álbuns, apenas de passagem, mas não bateu. Depois de digerir o “1977”, retornei aos discos anteriores, e a compreensão foi outra…

  9. Wado é show. Tenho os 8 discos. Escutei todos eles nestes 15 anos. E cada disco que ele lança é diferente e melhor que os outros. Wado, parabéns!

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