Boteco: Três cervejas da Rodenbach

por Marcelo Costa

A Rodenbach Brewery é uma cervejaria de Roeselare, cidade belga de quase 60 mil habitantes na região flamenga do país, a cerca de meia hora de Bruges. Foi fundada em 1821 por quatro irmãos, Pedro, Alexander, Ferdinand e Constantijn Rodenbach, mas a grande marca da casa foi impressa apenas quando Eugene, neto de Pedro, assumiu a cervejaria em 1878 e, após estudos na Inglaterra, dominou a arte de maturar cervejas em barris de carvalho e preparar blends entre cervejas novas e velhas: nascia a Rodenbach que todos conhecem hoje. Em 1998, a Rodenbach Brewery foi vendida para a Palm Brewery, de Steenhuffel (cidade ao lado da capital Bruxelas), que continua investindo na mítica cerveja azeda de Flanders que fez tanto a fama da casa. Abaixo, três Rodenbach que podem ser encontradas com facilidade no Brasil.

Lançada no verão de 2014 na Bélgica, a Rodenbach Rosso é uma Fruit Beer que nasce de um blend entre a Rodenbach Flanders Brown Oud Ale (envelhecida em barris de carvalho por dois anos) e uma Rodenbach jovem (sem envelhecimento), depois macerada com cranberries, framboesas e cerejas. O resultado é uma cerveja de coloração avermelhada com creme branco e vermelho de média formação e rápida dispersão. No nariz, um aroma delicioso de frutas vermelhas (com cereja em destaque), amadeirado bastante suave na base e leve percepção de acidez. Na boca, textura suavemente frisante. O primeiro toque traz doçura frutada (cereja, morango e maçã vermelha) acompanhada de leve acidez, que cumpre a função do amargor e abre as portas para uma Fruit Beer doce, mas nem um pouco enjoativa, muito pelo contrário, com um azedinho marcando presença e valorizando o conjunto, que finaliza frutado e traz, no retrogosto, mais cereja, adstringência suave e azedinho agradável. Uma delícia.

A Rodenbach Classic também surge de um blend: 1/4 da Flanders Brown Oud Ale envelhecida por dois anos em barris de carvalho mais 3/4 de cerveja jovem, sem adição de frutas. De cor acobreada, meio rubi, como creme bege de média formação e retenção, a Rodenbach Classic apresenta um aroma que combina notas avinagradas com doçura frutada (ameixa, cereja e casca de uva vermelha), madeira, couro, melaço e terroso. Na boca, textura áspera. O primeiro toque é uma pancadinha suave (e gostosa) de vinagre, frutas vermelhas e azedume. Dai pra frente, um conjunto que tem no avinagrado sua principal distinção, equilibrando-se muito bem sobre uma base melada de malte. Há, ainda, reforço de couro, casca de uva, frutas vermelhas e leve ameixa além de madeira e terroso. No final, couro, terroso e frutas vermelhas. Já o retrogosto traz candy sugar, azedinho, leve adstringência e frutas vermelhas. Uma delícia.

Fechando o trio com a estrela da casa, Rodenbach Grand Cru, resultante de outro blend: 3/4 da Flanders Brown Oud Ale envelhecida por dois anos em barris de carvalho mais 1/4 de cerveja jovem, sem adição de frutas. De coloração marrom clara com traços avermelhados, creme bege de boa formação e média permanência, a Rodenbach Grand Cru apresenta um aroma com notas azedas, frutadas (frutas vermelhas, uva passa e casca de uva, ameixa), menos vinagre do que o esperado (mas há, e muito), candi sugar, terroso, couro, acético, salgado, sugestão de vinho do Porto e leve amadeirado. Na boca, textura frisante com acidez marcante. O primeiro toque reforça a força da acidez, que traz consigo avinagrado, frutado, leve doçura melada e salgado, sensações que dividem espaço na sequencia com suave amadeirado, terroso, casca de uva e vinho do Porto. O final é suavemente acético, avinagrado e frutado, uma delícia que consegue exibir equilíbrio em meio a tantas sugestões radicais.

Balanço
Logo que assumiu a Rodenbach em 1998, a Palm Brewery encerrou a linha de cervejas com sabor de cereja, mas voltou a produzi-la em 2014 lançando a Rosso, uma Fruit Beer agradável, adocicada, azedinha e bastante refrescante. A Rodenbach Classic, por sua vez, começa a levar o bebedor pelo território arisco das cervejas do Flanders belga, combinando notas avinagradas com doçura frutada, couro, terroso e madeira. É uma baita experiência, e o cartão da visitas para a estrela da linha, a Rodenbach Grand Cru, que consegue exibir mais profundidade que a Classic, ainda que as duas não mantenham uma distância tão grande entre aroma e paladar. Todas muito deliciosas e provocantes. Recomendo.

Rodenbach Rosso
– Estilo: Fruit Beer
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3,14/5
Preço pago em São Paulo: R$ 18 – 330 ml

Robenbach Classic
– Estilo: Sour Red
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,53/5
Preço pago em São Paulo: R$ 19 – 330 ml

Rodenbach Grand Cru
– Estilo: Sour Red
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,85/5
Preço pago em São Paulo: R$ 21 – 330 ml

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