Entrevista: Vitor Cafaggi (2015)

por Bruno Capelas

Um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros na atualidade, Vitor Cafaggi é o contraponto perfeito para quem acredita que as HQs vivem apenas de super-heróis e histórias cheias de ação, sangue e violência. Seja em sua tira “Valente” ou nas ótimas releituras da Turma da Mônica que fez com a irmã Lu Cafaggi em “Laços” e na recém-lançada “Lições”, o mineiro de 37 anos se destaca pelo visual fofo de suas criações. Cafaggi, no entanto, alega que o estilo não é de propósito: “É o jeito que eu me sinto bem desenhando. São crianças e animais peludos… é difícil eles não serem fofos!”, brinca ele, em entrevista ao Scream & Yell.

Em 2015, Vitor vive um dos momentos mais movimentados de sua carreira: além de ser professor da Casa dos Quadrinhos, em Belo Horizonte (uma das principais capitais das HQs no país, graças ao Festival Internacional de Quadrinhos de BH), ele percorre o país divulgando “Lições”, novo volume da Graphic MSP, coleção que traz as criações de Mauricio de Sousa em uma roupagem adulta. Se “Laços” tinha um tom de aventura ao modo de “Goonies”, em “Licões” é a hora de ver Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali em seus primeiros dias de aula, em algo que lembra muito “De Volta Para o Futuro” e os filmes de John Hughes.

Vitor iniciou a carreira em 2008 com a publicação na web de “Puny Parker”, uma releitura das histórias do Homem-Aranha que mostravam a infância de Peter Parker de um jeito muito bem-humorado. Dois anos depois, o quadrinista ganharia um espaço na seção de tiras no jornal O Globo com o cãozinho Valente, personagem que já rendeu quatro livros e valeram ao autor dois troféus HQ Mix. Na entrevista a seguir, Cafaggi comenta a criação de “Lições”, apresenta o Valente, fala sobre o impacto da Graphic MSP e do surgimento de eventos específicos de quadrinhos no mercado brasileiro da área, entre outras coisas. Confira.

“Laços” era basicamente uma história de aventura e descoberta, com toques dos anos 1970 (Roberto Carlos) e dos anos 1980 (sempre me lembro de “Goonies” quando leio). O que é “Lições”? Pelas primeiras imagens, consigo imaginar que seja algo próximo a um “high school movie” com a Turma da Mônica. É por aí?
É por aí sim. Quando tivemos a ideia de “Laços”, Lu e eu pensamos como seria um filme da Turma da Mônica, por isso ficou uma aventura com essa cara de “Goonies”. Para “Lições”, a gente acabou buscando referências da nossa infância na hora de criar a história. E boa parte das lembranças de infância que tenho são da escola.

Como foi retornar a desenhar a Turma da Mônica? E como é dar nova vida a personagens tão marcantes? (Ou, como o Sidão [Sidney Gusman, diretor editorial da Graphic MSP] diz, “pegar emprestado os brinquedos do Mauricio”?)
Uma das melhores partes de fazer “Lições” foi desenhar a Turma de novo. Foi legal pensar o que aconteceu com eles nos meses entre “Laços” e “Lições”. Quem cortou o cabelo, quem não cortou.. quantos centímetros cada um cresceu.. Acredito que o visual de cada um evoluiu e ficou mais distinto entre eles. A Mônica tá com o rosto mais redondinho, o Cascão tá mais anguloso – e também ganhou uma cicatriz no lado direito da cabeça por causa de um ferimento que ele teve em “Laços”! Pode conferir na história! Sempre aparece um risquinho na cabeça dele.

A capa de Lições mostra a turma toda cabisbaixa — algo diferente para personagens que estão sempre sendo mostrados com sorrisos no rosto (ou no máximo, um olho roxo por uma coelhada). Por que isso?
Eles passam por maus bocados na história. E em determinados momentos, não tem onde, e nem em quem, se apoiarem. Acho que a capa reflete um pouco isso…

Imagino que você e sua irmã devem ter sido companheiros de brincadeiras de infância. Como é dividir o trabalho com ela justamente em uma história que tem como um de seus temas a infância?
Na verdade, sou 10 anos mais velho do que a Lu. Acho que isso sempre ajudou na nossa convivência e amizade. Graças a essa diferença de idade, pude acompanhar com atenção a infância dela e, em alguns momentos, relembrar e prolongar a minha. Quando eu tinha 16, 17 anos, tinha dias que eu pegava meus playmobils e ficava brincando com a Lu.

Em uma entrevista recente, o Sidney Gusman afirmou que a Graphic MSP fez o Brasil prestar atenção em quadrinistas independentes – e esse parece ser o seu caso. O que mudou para você desde a publicação do “Laços”?
Desde a publicação de “Laços”, recebi vários convites de trabalho. Até fora dos quadrinhos. Convites pra escrever livros e roteiros de cinema. O meu quadrinho independente, o “Valente”, passou a ser publicado pela Panini. Tenho trabalhado muito desde então, sem parar.

O “Valente” é uma tira sequenciada, que acaba sendo reunida em um álbum. O “Puny Parker”, teu primeiro trabalho, é uma tira também. Já o “Laços” e o “Lições” são duas novelas gráficas com conceito, meio e fim. O que é mais fácil de ser feito? O que leva mais tempo?
Eu acho mais fácil fazer essas tirinhas sequenciadas. Muito por causa do tempo. Quando termino uma tirinha do Valente, tenho a sensação de dever cumprido. Quando termino uma página de uma graphic novel, não: parece que terminei uma parte do trabalho. Fora que o desenho nas graphic é mais elaborado. O das tirinhas é bem mais simples, mais rápido de fazer.

Como você vê hoje o cenário de quadrinhos brasileiro? O surgimento de um evento como a Comic Con Xperience e a proliferação de feiras e festivais pode mudar o mercado?
Muda sim. Os eventos de quadrinhos são ótimos para os leitores conhecerem coisas novas e para os quadrinistas mostrarem seu trabalho. Quanto mais eventos, e quanto maiores eles forem, melhor para o mercado como um todo – sejam leitores ou quadrinistas. E eu sempre me divirto muito em eventos de quadrinhos. Me comporto muito mais como fã do que como autor.

Além de fazer os álbuns da Graphic MSP, você tem um trabalho autoral com o “Valente”. Para quem não conhece o personagem, ia te pedir para fazer uma pequena apresentação dele.
“Valente” conta a história de um tímido jovem à procura do amor da sua vida. A série de tiras narra o dia a dia do personagem e seus constantes encontros e desencontros com diferentes garotas. “Valente” mostra, de forma descontraída, como os diferentes parceiros que encontramos pelo caminho e todas as experiências que passamos ao lado deles, influenciam quem somos nós. Sucessos e fracassos, alegrias e decepções, “Valente” é sobre as garotas que encontramos em nossas vidas antes de encontrarmos “a garota” de nossas vidas.

O “Valente” vive coisas que acontecem com quase todo adolescente de classe média/média-alta no Brasil – e parece ter uma boa inspiração autobiográfica. O que há de Vitor Cafaggi no “Valente” (e o que não)?
O Valente é quase uma autobiografia! Tudo nele é inspirado em minha vida. As situações, todos os personagens… O jeito do Valente ver o mundo é muito o Vitor adolescente, entrando para a faculdade.

O “Valente”, “Laços” e “Lições” compartilham uma característica marcante: os três são trabalhos que podem ser reconhecidos à primeira vista como “fofos”. Como você se sente quanto a isso? É de propósito?
Acho que não é de propósito. É o jeito que eu me sinto bem desenhando. São crianças e animais peludos. É difícil eles não serem fofos!

Ainda sobre a pegada de ser um quadrinista “fofo”: você tem planos de criar algo que fuja dessa estética? O que borbulha na tua cabeça nesse momento além de seguir fazendo o “Valente”?
Tenho umas ideias que sairiam um pouco disso, do fofo. Algumas sairiam bastante. Outras se encaixam nisso. Não sei o que vai vir primeiro. Minha ideia é parar um pouco nos próximos meses, para planejar os próximos anos.

Tanto o “Valente” como os álbuns da Graphic MSP saem tanto em livraria como em banca. Como é isso para você? Você acha hoje que o quadrinho no Brasil é uma coisa de livraria, e sente falta da pegada de ir trocar ideia com o jornaleiro?
Eu adoro ver meus quadrinhos na banca! Na minha infância e adolescência eu comprei quadrinhos em banca, e sempre na mesma banca. Ver meus quadrinhos nessa banca, hoje, tem um significado maior. Não sou de comprar muito quadrinho em livrarias. Hoje, minha alegria é esperar chegarem meus quadrinhos pelo correio.

Sempre há trabalhos bacanas e novos aparecendo nos quadrinhos brasileiros. Se a Graphic MSP te apresentou para muita gente, agora é a sua vez: queria indicações de gente nova que está fazendo coisas legais 🙂
Vamos lá. De novidade, tem o Gustavo Borges, que acabou de lançar um quadrinho chamado “Pétalas”. E tem muita gente nova que vale a pena dar uma olhada. Vou falar só alguns nomes aqui. Tem a Bianca Pinheiro, O Guilherme Petreca, a Rebeca Prado, Camilo Solano, Felipe Nunes, Pedro Cobiaco.. tem muita gente! Esses são alguns que estão lançando quadrinhos novos esse ano.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop. Foto do site Um Triz, que publicou a entrevista em vídeo acima no mês de abril

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