1985/2015 – Rock Brasil, 10 Discos, 30 Anos

por Marcelo Costa

1985 foi um ano decisivo para o rock brasileiro. Blitz, Barão Vermelho, Lulu Santos, Lobão e os Ronaldos, Os Paralamas do Sucesso, Eduardo Dusek e Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens já vinham cravando sucessos nas paradas desde o começo da década, mas é em 1985 que a praga roqueira se prolifera, com álbuns de estreia tomando as rádios, cravando hits e preparando o terreno para a consolidação do ano (de discos de ouro) seguinte.

E não só: 1985 também foi o ano do primeiro Rock in Rio (com várias novas bandas brasileiras disputando a atenção do público e da mídia com medalhões gringos) e do lançamento da revista Bizz, publicação que acompanharia essa primeira geração do BRock (termo cunhado pelo jornalista Arthur Dapieve) com entrevistas, resenhas de discos, shows e um grande debate (em 1986), e até tentará sepulta-la em 1991, mas isso é assunto para outro dia.

Abaixo, uma lista de 10 discos importantes do rock nacional, lançados em 1985.

– “Legião Urbana”, Legião Urbana
Antes mesmo do Rock in Rio, que iria concentrar todas as atenções roqueiras entre 11 e 20 de janeiro de 1985, a Legião Urbana colocaria seu álbum de estreia nas ruas no primeiro dia útil do ano, 02 de janeiro, uma quarta-feira, e ainda que “Legião Urbana” tenha terminado 1985 com vendagens modestas e nenhum grande hit (“Será” e “Ainda é Cedo” chegaram a tocar bastante nas rádios, mas foram eclipsadas por outros grandes sucessos), o álbum (eleito Disco do Ano pelos críticos da Bizz) flagrava um grupo com resquícios punks e letras politizadas, que viria a ser “a grande banda da história do rock nacional”. E tudo começa aqui.

– “Revoluções por Minuto”, RPM
O grupo que elevaria o rock nacional a um patamar impensável de vendas em 1986 (com o disco “Rádio Pirata ao Vivo”) estreia também em maio de 1985 com um álbum poderoso, radiofônico (“Rádio Pirata”, “A Cruz e a Espada”, “Olhar 43”, “Louras Geladas”) e, ao mesmo tempo, dark (“Juvenília”, “Liberdade/Guerra Fria”, “Pr’esse Vício”). 10 das 11 canções do álbum são parcerias entre Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, que assinam também “Sob a Luz do Sol”, essa em parceria com o guitarrista Fernando Deluqui. O baterista Paulo P.A. Pagni assumiria o banquinho durante as gravações disco, e, por isso, não aparece na capa do álbum.

– “Mudança de Comportamento”, Ira!
Três grandes discos do rock nacional chegaram ao mercado em maio de 1985, e um deles era a estreia em álbum de uma banda apaixonadamente paulista, que havia lançado um compacto em 1983 com duas canções e pouca repercussão (ainda contando com o baterista Charles Gavin na formação), mas encontrava aqui sua sonoridade. “Mudança de Comportamento”, o debute do Ira!, cravou o hit “Núcleo Base” nas rádios e canções como “Tolices” e a faixa título no coração dos fãs. O álbum somou 60 mil cópias vendidas em 1985, um número modesto que seria batido no ano seguinte com o álbum “Vivendo e Não Aprendendo”.

– “Educação Sentimental”, Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens
Também lançado em maio, o segundo disco do Kid Abelha ampliava o alcance sonoro da formação clássica da banda, ainda com o baixista e compositor Leoni, que assina as 10 canções do álbum, duas sozinho (uma delas o hit “Os Outros”), outras duas em parceria com Leo Jaime (“Uniformes” e “A Fórmula do Amor”), uma com o saxofonista George Israel (a subestimada “Amor Por Retribuição) e quatro com a vocalista Paula Toller. O álbum vendeu 200 mil cópias ancorado em dois grandes hits: “Lágrimas e Chuva” e “Educação Sentimental II”, com abertura “emprestada” de “London Calling”, clássico do The Clash.

– “Televisão”, Titãs
Do primeiro álbum, “Titãs”, lançado em agosto de 1984, para “Televisão”, que chegou às lojas em junho de 1985, o Titãs sofreu uma mudança marcante: o baterista André Jung foi demitido (e dois dias depois assumiria as baquetas do Ira!) e Charles Gavin, que pouco tempo antes era baterista do Ira! e vinha ensaiando com o RPM, assumiu o seu lugar. Com produção assinada por Lulu Santos (que toca guitarra na faixa “Pra Dizer Adeus” e baixo em “Dona Nenê”) e dois grandes hits de rádio (a faixa título e “Insensível”), o álbum bateu a marca das 100 mil cópias vendidas e sedimentou a força ao vivo do grupo paulista.

– “Nós Vamos Invadir sua Praia”, Ultraje a Rigor
Lançado em julho, o disco de estreia do Ultraje a Rigor é constantemente apontando como um “Greatest Hits” em potencial: das 11 canções do álbum, 9 foram sucesso em rádio (apenas “Se Você Sabia” e “Jesse Go” ficaram de fora dos charts), o que alavancou as vendagens do disco para mais de 250 mil cópias, transformando o quarteto em um dos maiores sucessos daquele ano. Lançada inicialmente como single em 1983 (tendo “Mim Quer Tocar” no lado B), “Inútil” encontrou simpatizantes entre o movimento Diretas Já, e foi tocada pelos Paralamas do Sucesso em sua apresentação no primeiro Rock in Rio.

– “O Concreto Já Rachou”, Plebe Rude
Para dar conta da crescente oferta de boas bandas que estavam surgindo no cenário (algumas delas na ativa desde o final dos anos 70), a gravadora EMI planejou o lançamento de uma série de (o que ela chamava de) “Mini-LPs”, Extended Plays com menos faixas que, apesar de ter o mesmo formato 12 polegadas do vinil tradicional, deveria ser vendido mais barato. Nessa leva saíram discos da Zero (“Passos no Escuro”) e este poderoso álbum de estreia da Plebe Rude, de Brasília, produzido por Herbert Vianna e com participação de Fernanda Abreu (então Blitz) e George Israel (Kid Abelha) e hits como “Até Quando Esperar” e “Proteção”.

– “Exagerado”, Cazuza
Cazuza vivia um período de sucesso com “Maior Abandonado” (1984), terceiro disco do Barão Vermelho, um hit na trilha de um filme (“Bete Balanço”) e uma boa apresentação no Rock in Rio quando decidiu sair da banda. Para a estreia solo, ele levou consigo três parcerias com Frejat que entrariam no próximo disco do Barão (“Boa Vida”, “Rock da Descerebração” e “Só as Mães São Felizes), mas os dois grandes sucessos do disco foram parcerias com Ezequiel Neves: “Exagerado” (que ainda traz assinatura de Leoni) e “Codinome Beija Flor” (também com Arias). Ainda que “Exagerado” tenha vendido apenas 15 mil cópias em 1985 (hoje já soma mais de 750 mil), tornou a carreira solo de Cazuza uma realidade.

– “Mais Podres do Que Nunca”, Garotos Podres
Se o cenário mainstream ia de vento em popa, o independente também aprontava as suas. “Mais Podres do que Nunca”, disco de estreia do quarteto do ABC Paulista, vendeu cerca de 50 mil cópias na época (ou seja, três vezes mais do que o disco de Cazuza, ancorado no marketing da gravadora Som Livre). Gravado e mixado em 12 horas numa mesa de som de 8 canais com a produção de Redson, vocalista e guitarrista do Cólera, “Mais Podres do que Nunca” traz os hinos “Johnny” (proibida pela Censura Federal), “Papai Noel Velho Batuta” e “Vou Fazer Cocô” em 22 minutos empolgantes (o relançamento em CD traz uma faixa bônus, “Meu Bem”).

– “Bestial Devastation”, Sepultura
Fechando o ano, um Split lançado em dezembro de 1985 que trazia de um lado o EP “Século XX”, da banda Overdose, e do outro “Bestial Devastation”, a estreia oficial do Sepultura, que futuramente se tornaria uma das bandas brasileiras mais importantes e influentes no cenário mundial. Lançado pelo selo mineiro Cogumelo Records, “Bestial Devastation” foi gravado e mixado em dois dias em uma mesa de 8 canais, e vendeu cerca de 8 mil cópias. Na época da gravação, os integrantes do Sepultura ainda eram todos adolescentes: Max Cavalera, Jairo Guedez e Paulo Jr. tinham 16 anos; Igor Cavalera tinha apenas 14.

Leia também:
– 10 pérolas raras do Rock Brasil anos 80 (DeFalla, Nau, Black Future) (leia aqui)
– O rock nacional anos 80 e a Censura Federal (Blitz, Lobão, Ultraje) (leia aqui)
– Assista ao documentário sobre o disco “Rock Grande do Sul, 30 Anos” (leia aqui)

3 thoughts on “1985/2015 – Rock Brasil, 10 Discos, 30 Anos

  1. O Zé Emílio fez a produção executiva do debute da Legião Urbana (a produção mesmo ficou com o Mayrton Bahia). No caso da Plebe, O Herbert produz não só “O Concreto Já Rachou” como também o “Nunca Fomos Tão Brasileiros”.

  2. Todas bandas e artistas com significado, se não comercial pelo menos social e cultural. Hoje o rock brasileiro produz musica com qualidade mas não significa tanto para as pessoas. Dos citados o meu favorito é o do Ira! e o da Legião.

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