Titãs, Brian Wilson e Diego Medina

por Marcelo Costa

UM DVD
“Nheengatu Ao Vivo”, Titãs (2015)
Após chegar ao fundo do poço com o abominável “Sacos Plásticos”, de 2009, o Titãs fez algo que parecia impossível: lançou um grande álbum. E não só um grande álbum, “Nheengatu” (2014) é um dos melhores e mais concisos trabalhos do Titãs desde o redondinho “Domingo” (1995). Como se não bastasse, a banda se recriou ao vivo: agora como um quinteto (Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto mais o baterista agregado Mario Fabre), o grupo passou a subir ao palco mascarado para divulgar o novo repertório, e a indumentária (duvidosa) funcionou. Sim, porque o show começava com todos mascarados enfiando goela abaixo da plateia nada menos que seis porradas de “Nheengatu” (é isso que significa confiar no repertório!); as máscaras caiam na sétima canção e, dai pra frente, o show intercalava clássicos (“Desordem”, “Televisão”, “Lugar Nenhum”), favoritas dos fãs (“Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, “Pela Paz”) e mais faixas de “Nheengatu” totalizando de 10 a 12 canções do disco executadas por noite. Eleito melhor show de 2014 pela APCA, “Nheengatu Ao Vivo”, o DVD, derruba as máscaras mais cedo (agora na quinta música), mas ainda valoriza o bom último álbum somando nada menos que 9 canções das 23 registradas em abril de 2015 na Audio Club, em São Paulo. A filmagem é frenética e eficiente (nada que um câmera do Jools Holland não faça apenas com o dedo mindinho) e a banda continua afiada, mas, mais do que o DVD, este show é para ser visto ao vivo, na plateia. Fica a dica: não os perca de vista.

UM FILME
“Love & Mercy”, de Bill Pohlad (2014)
A história do gênio Brian Wilson já foi bastante esmiuçada neste novo século, principalmente na época do lançamento de “Smile” (2004), o disco que começou a ser produzido por Brian para os Beach Boys em 1967 e o levou a um esgotamento físico e emocional que quase pôs fim a sua vida. O período e os anos seguintes de depressão foram registrados no documentário “Beautiful Dreamer” (2004), de David Leaf, mas pouco se falava dos anos conturbados que Brian viveu ao lado do psicoterapeuta Eugene Landy, que começou a atendê-lo em 1975. Esse é o mote de “Love & Mercy”, ótimo filme de Bill Pohlad que deve chegar ao Brasil apenas em dezembro de 2015. Dois Brian são colocados em retrospecto na trama: o primeiro é o gênio adolescente criativo por trás dos Beach Boys nos anos 60 (interpretado muito bem por Paul Dano) e o capítulo “Pet Sounds” é simplesmente de chorar; o segundo é a estrela caída dos anos 80, incapaz de tomar um decisão sozinho e dominado por um psiquiatra violento e nada ético que o vigiava 24 horas por dia (John Cusack surpreende no papel de Brian ainda que Paul Giamatti roube todas as cenas em que está presente como Dr. Landy). Com roteiro respeitoso de Michael Alan Lerner e Oren Moverman, “Love & Mercy” narra a trajetória errática de Brian Wilson de forma delicada e comovente. Está tudo aqui: o início dos Beach Boys, o pai abusivo que o deixou surdo de um ouvido de tanto espanca-lo, a mudança sonora com “Pet Sounds”, os anos de reclusão e o retorno triunfal de um dos maiores gênios da música pop.

UM DISCO
“Ansiedade Song”, de Diego Medina (2015)
Doiseu Mindoseima, Os Desgraçados do Ritmo, Os Massa, Jesus Buceta, Senador Medinha, Projeto Daytona, The Medina Brothers Orteskra e Video Hits são todos projetos musicais que trazem um nome em comum: Diego Medina. Discos, EPs, demos, shows e o escambau de cada um destes trabalhos somam mais de 40 lançamentos que podem ser baixados gratuitamente no site da Suma! Discos, o selo pessoal do músico (e também ilustrador, que ganhou uma exposição este ano em Porto Alegre), mas “Ansiedade Song” chama a atenção por ser o primeiro álbum solo assinado unicamente por Diego. Gravado entre 2005 e 2006 por ele, Thomas Dreher e Berna Ceppas e masterizado por Kassin apenas em março de 2015, este brilhante “Ansiedade Song” reúne 14 músicas que se situam entre o pop e o esquizofrênico, territórios que Diego Medina transita com propriedade. Do lado esquizofrênico estão faixas psicodélicas como “Sorria” (com forte riff de guitarra), “Os 7 Passos da Felicidade” (com Thomas Dreher na bateria) e a loucaça “América” (com Berna no vocoder, Pedro Sá na guitarra solo e Domenico na bateria), entre outras. O lado pop reluz nas grudentas “Pode Ser?”, na faixa título e na hilária “Abocanharam o T” enquanto números como “Velho Song”, “Homem Bipolar”, “Penugem Solta” e “Lontra Song” chocam os dois lados na mesma canção – há ainda uma hilária entrevista numa rádio fictícia – num álbum que esbanja frescor, surrealidade, diversão e insanidade, adjetivos que andam fazendo muito falta no cenário musical brasileiro. Bora baixar esse disco já ou tá difícil?


– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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