Entrevista: The September Guests

por Leonardo Vinhas

Na primeira vez que Fernando Lalli falou ao Scream & Yell, há 10 anos, ele integrava a banda Seamus, que então lançava um EP incipientemente produzido e executado, incoerente com o potencial que a banda mostrava ao vivo. O disco tinha um ar notadamente indie, e as letras eram escancaradamente confessionais. Hoje, Fernando grava sozinho sob o nome The September Guests, e é possível dizer que uma década transforma estilos, propostas e execuções, mas também que há situações em que vale o ditado francês de que “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas”…

O registro em estúdio já é uma mudança inegável: por mais que Lalli tenha apreço ao lo-fi, “Beningo Street Again”, o primeiro álbum com o novo nome (download gratuito aqui), soa muito bem, graças à produção de Sergio Ugeda (ex-Diagonal e ex-Debate). As composições continuam remetendo ao underground norte-americano, mas se antes as guitarras altas predominavam, agora é a inspiração mais folk que toma conta – ainda que seu autor faça questão de frisar sempre que possível que sua intenção (bem-sucedida, diga-se) era passar longe do que ele chama de “folk pão-de-açúcar”, referindo-se àquele som fofinho e inócuo com vocação para samambaia musical que proliferou nos últimos anos.

”Benigno Street Again” compila canções que haviam sido gravadas em casa e lançadas digitalmente nos EPs “Songs From Benigno Street, pt.1 e pt.2”, de 2011 e 2012, respectivamente. Nele, o instrumental fica todo a cargo do autor, à exceção de uma guitarra barítono tocada pelo produtor Ugeda. A densidade dos arranjos não contrasta com a voz quase frágil; ao contrário, complementa-a, levando a um som que remete a Sebadoh, The Skating Club, Buffalo Tom e Dinosaur Jr. em diferentes momentos de sua carreira – uma estética que já havia sido apresentada com a devida clareza de estúdio na versão de “Té para Tres”, do Soda Stereo, registrada no álbum “Somos Todos Latinos”, lançado pelo Scream & Yell em março.

Aliás, “Té para Tres” é uma das canções mais melancólicas da banda argentina, composta quando o vocalista Gustavo Cerati foi comunicado de que seu pai estava com câncer em estágio avançado. E como se disse no começo desse texto, algumas coisas mudam para permanecerem iguais: por mais que Fernando Lalli tenha trocado de banda, de formato e até de gênero, o estilo confessional de escrever, presente desde suas primeiras gravações caseiras, muito anteriores ao Seamus, no começo da década passada, continua. Na verdade, em “Benigno Street Again”, elas estão mais tristes que nunca. Então é natural que a entrevista aborde, acima de tudo, essa que parece ser a característica mais forte de suas composições.

Vamos entender um pouco a questão da formação: é uma one man band que virou banda que virou one man band de novo, é isso?
O September surgiu em 2008. Era uma época em que eu ouvia muito Mojave 3, Low, Midlake, e senti que meu modo de composição mudou. Começaram a brotar canções menos urgentes, que não cabiam no repertório do Seamus. “It’s Not Fine”, que é a primeira faixa do “Benigno Street Again”, foi exatamente a primeira música que compus nessa situação. Procurei fazer parcerias com outros amigos para desovar esse novo fluxo de canções, mas, no final das contas, lancei músicas na internet e fiz shows essencialmente sozinho, apenas com violão. Isso aconteceu entre 2010 e 2013. No entanto eu sentia que precisava amplificar o som para levar as canções em frente. Por isso, no final de 2013, convidei o Henrique Albernaz (ex-Mentecapto e Maquiladora) e o Erik Cardoso (ex-Somata) e fizemos do September um trio. Por diversos motivos, nunca conseguimos fazer um registro em estúdio como deveríamos. Doze meses depois, no final de 2014, o Erik se mudou para Foz do Iguaçu e o Henrique seguiu para tocar guitarra em outras bandas. E então eu me vi sem banda de novo.

Num dado momento, você chegou até a pensar em abandonar o nome The September Guests, não foi? Na época da gravação de “Té para Tres” você falou que estava em dúvida de como assinar…
Foi exatamente nesse momento em que o Henrique e o Erik saíram. Eu passei semanas a fio refletindo sobre se eu deveria abandonar o nome e partir para outras ideias. Mas cheguei à conclusão que não fazia sentido mudar o nome da banda, já que eu continuaria com as músicas que já tocava e jamais eu iria me desfazer delas. Eu havia trabalhado por anos em “It’s Not Fine”; jamais a jogaria fora.

Isso dá margem a perguntar: mais que uma alcunha, The September Guests é um conceito?
The September Guests, no final das contas, é apenas um nome. Um nome que surgiu na época do Seamus, aliás. Meteoro (Luis Naressi, ex-Seamus e hoje guitarrista do Labirinto) e eu inventamos um monte de nomes de bandas fictícias para dizer que eram nossas “influências”. Um desses nomes era “The September Guests”. Eu defino a coisa toda como “banda” porque não enxergo o September como um “projeto”. “Projeto” dá a impressão de ser algo paralelo a outra banda – ou pior, algo menos importante do que uma banda. Acho uma bosta chamar banda de “projeto”. Mas, sinceramente? Eu cansei de formatos. Solo, trio, quarteto, quinteto, orquestra, elétrico, acústico, sólido, líquido, enfim, não faz sentido amarrar seu processo de composição a uma formação ou a uma estética. Isso limita tua criatividade e te coloca numa prateleira debaixo de um rótulo, um produto embalado. Quero ter a liberdade de lá na frente lançar um álbum punk, por exemplo.

Me chama a atenção como, musicalmente, ele não tem nada a ver com o Seamus, mas ainda continua com forte influência do underground americano, notadamente Dinosaur Jr e Buffalo Tom. Um filho dos anos 90 não trai a causa? (risos)
Jamais! (risos) O universo de timbres que habita minha memória afetiva musical vem toda dos anos 90, não tenho como fugir disso. Mas a comparação com o Dinosaur Jr. é sempre uma surpresa pra mim, porque nunca fui fã incondicional. Ouvi muito Sebadoh, “Rebound” é uma das músicas da minha vida, mas só fui fisgado pelo Dinosaur Jr. depois de velho. Minhas influências pessoais mudaram muito pouco daquilo que me inspirava há cinco ou dez anos atrás. Neil Young, Guided By Voices, R.E.M., Radiohead e Bruce Springsteen, pra citar alguns, sempre vão estar comigo de uma forma ou outra.

Por outro lado, o universo lírico parece ser o mesmo lago de auto-depreciação e desilusão, além da permanente incomunicação com a figura feminina. A exceção disso tudo é “Don’t Stare at the People”. Fernando Lalli gosta do imaginário lírico da tristeza, ou a tristeza é que insiste em não abandoná-lo?
Essas canções são muito mais motivadas por rancor do que por tristeza. Vejo essas músicas que gravei em “Benigno Street” fora do espectro do que eu compunha antes. Não é mais aquela coisa sobre o platônico e o inatingível, quando eu achava que a dor que eu sentia era a coisa mais importante do mundo. A gente demora um bom tempo pra deixar de ser adolescente, às vezes só acorda quando a dor é pra valer – aí tudo o que veio antes e virá depois fica sob outra perspectiva… O que me leva a escrever música é a frustração e a insatisfação, mas não um sentimento eterno, permanente, que é como eu interpreto a palavra tristeza.

E de onde vem tanta dor, Fernando? Essa inevitabilidade da dor é uma coisa muito Tao Te King, e não o vejo adepto de doutrinas orientais. Ou, colocando melhor: não é possível que compor seja um exercício exclusivo de vazão de sentimentos doloridos e permanentes. Ou é? Não pergunto provocativamente, e sim porque imagino que o exercício constante da composição como alívio deveria, em tese e pelo tempo que você compõe, ter suavizado um pouco a tua própria carga.
Todos nós carregamos uma dor diferente. Talvez isso seja um conceito taoista, mas não sei dizer porque nunca estudei a doutrina. A diferença é o quanto cada um valoriza e sente necessidade de externar essa dor. Como disse antes, eu achava quando mais jovem que essa coisa que eu sentia era mais importante do que tudo, o que era uma tremenda bobagem. Hoje estou em outro momento da minha vida onde consigo lidar muito melhor com as minhas emoções. Só que otimismo não é algo inerente à minha personalidade e disso eu não tenho como escapar na hora que vou colocar minhas ideias no papel. No caso do meu disco, “Don’t Stare at the People”, foi uma tentativa de escrever uma música sobre a vida atual com minha mulher, mas tem o verso “by the first time I don’t struggle to love”, que fala por si só. Não é uma música feliz, se analisada friamente, apesar das piadas internas.

Este foi seu primeiro disco concebido inteiramente em São Paulo, até onde sei. E sei também que São Paulo não representa exatamente a Meca da urbanidade e da vida feliz para o senhor. Então imagino que a cidade contribuiu em algo para o clima do disco – nem que seja para acentuar certa nostalgia da juventude passada entre discos e gravações caseiras em Taubaté…
A “Benigno Street” é a Rua Benigno, meu primeiro lar em São Paulo, para onde me mudei em 2010. É uma rua na Zona Norte em formato de “U”. Ela começa e termina na mesma rua. Você vai entender se jogar no Maps. Foi muito simbólico pra mim sair correndo, literalmente fugindo, da vida no interior, quase sem planejamento algum, e ir parar em uma rua que começa, faz a volta e termina no mesmo lugar. Eu morava num sobrado e eu me pegava pensando muito naquilo. Talvez eu só estivesse dando uma volta mais longa para chegar ao destino que eu alcançaria da mesma forma. As canções do disco são sobre esse autoquestionamento de “estou fazendo a coisa certa?”, “estou tomando as decisões certas?”, “aqui você está, a responsabilidade é sua, e agora?”. Essa questão da responsabilidade e peso das decisões está, por exemplo, em “No Way”, sobre ir longe demais sabendo que tudo iria dar errado, com ressentimentos e transferências de culpa pra todo lado. Essas questões percorrem o disco inteiro. Depois de velho você se dá conta que o problema não é encontrar as respostas, mas saber lidar com as dúvidas. Foi nesse processo que a maioria das letras presentes no disco surgiram. A gravação foi um tanto febril. Eu e o Sérgio gravamos o disco em duas semanas, exatas 40 horas de estúdio. Eu queria um disco ruidoso, denso, fomos adicionando camadas sem se preocupar muito com lógica, tanto que os últimos instrumentos que foram gravados foram o baixo, a bateria e a guitarra barítono, nessa ordem. Não limamos nenhum ruído, gravamos violão em amplificador de guitarra, entupimos a voz de efeito, bateria registrada apenas em dois canais sem frescura, enfim… Queria que o disco soasse o mais distante possível de ser confundido com aquele folk pop mequetrefe que toca de trilha sonora genérica em supermercado e padaria. Aquela coisa abominável… O resultado final faz essa ponte entre a capital e o gravador de fita que eu usava na minha adolescência em Taubaté. Fecha um ciclo e volta para o mesmo lugar.

Você faz canções superemotivas, em um idioma estrangeiro, usando uma estética musical com forte ligação com o passado. Não é fácil fazer isso e subir num palco, sozinho, e mostrar isso em um bar onde a maior parte das pessoas está lá para outra coisa que não ouvir música. Então, qual a motivação de peitar as opções desse cenário independente? O que impede que The September Guests seja só um projeto de estúdio?
O que impede é que uma banda só faz sentido se tocar ao vivo. Tenho plena consciência que a linguagem dos meus shows solo não é entendida como rock, mesmo que tenha filiações com diversas referências cultuadas por aí atualmente. Quando estou em cima de um palco, não me importo com quem não ouve o que eu toco: me importo é com quem está disposto a ouvir. E por pior que seja o bar, por pior que seja a noite, sempre tem alguém pra te ouvir. Nem que seja um tio bêbado pra falar que seu som parece Simon & Garfunkel. (risos) Eu acredito piamente na força da composição. Tem tanta coisa boa que está guardada a sete chaves porque a pessoa não tem coragem para lançar ou acha que “não vale a pena”. A música é um artefato cada vez mais desgraçado – esses dias eu vi ouvi uma propaganda com um trecho de música sampleada sintetizada, horrível, ardido, e a vinheta no final dizia algo como “a música que você ama”. Não, cara, eu não amo música que sai de estudos de publicidade e impregna na mente como uma mensagem subliminar para chamar a atenção. Rap, rock, sertanejo, dance – tudo hoje tem o mesmo timbre, os mesmos produtores, as mesmas agências de publicidade por trás. Nunca a música pop foi tão pobre de espírito. Eu tenho uma visão muito mais ingênua da música e eu vou morrer com ela por acreditar demais que existe, sim, gente disposta a ouvir música feita com o coração – como eu estou disposto a ouvir.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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