Entrevista: Panamericana

por Leonardo Vinhas

Panamericana é o nome escolhido para sintetizar uma jornada por muitos países, envolvendo muitas bandas, shows (assistidos ou realizados), descobertas musicais conjuntas e, mais recentemente, até imbróglios burocráticos de direito autoral. Também nomeia uma agremiação que seria chamada de “supergrupo oitentista”, se ainda se repetissem certos chavões da indústria musical.

A banda é formada por Dado Villa-Lobos (guitarra), Toni Platão (voz), Charles Gavin (bateria) e Dé Palmeira (baixo). Para ser justo, há que se falar em cinco pessoas: o uruguaio Carlos Taran, misto de empresário, curador musical e parceiro na feitura de algumas letras, é referido (com justiça) pelos músicos como um integrante da banda. A ideia que os uniu foi recriar, em português e com instrumental e poética próprios, clássicos do rock originalmente cantado em espanhol. Desde que a ideia saiu da cabeça dos cinco e tornou-se realidade, vieram alguns shows em diferentes capitais, aparições na TV e incontáveis horas em estúdio, ensaiando, experimentando material e gravando. Em dado momento, tudo resultou em um bom álbum – que teima em não sair.

“Sur”, o disco em questão, traz versões de artistas de Uruguai e Argentina. Algumas canções podem ser ouvidas no Soundcloud da banda (https://soundcloud.com/bandapanamericana) e no repertório cabem clássicos (Luis Alberto Spinetta, Fito Páez, Soda Stereo, Divididos), sucessos populares mais recentes (Babasónicos, Las Pelotas, La Vela Puerca, No Te Va Gustar), nomes cult (Los Traidores) e mesmo pouco conhecidos (Loop Lascano, Mersey). A adequação (em muitos casos, recriação) das letras ao português coube à banda, em alguns casos contando com a parceria de companheiros geracionais, como Herbert Vianna, Humberto Effe (Picassos Falsos), Paulinho Moska, Sérgio Britto (Titãs), Alvin L e Fausto Fawcett, além do jovem compositor e cantor Bruno Cosentino.

A banda não é o projeto principal de nenhum dos cinco, mas não por isso menos importante para eles. O Scream & Yell conversou individualmente com todos os integrantes da Panamericana, à exceção de Charles, entre janeiro e junho deste ano. Neste meio tempo, todos se mantiveram em atividade intensa: Villa-Lobos lançou sua autobiografia, “Memórias de Um Legionário”; iniciou a nova temporada de seu programa Estúdio do Dado, do Canal Bis, tocou em um tributo ao Cazuza e seguiu com alguns shows de divulgação de “O Passo do Colapso”, seu disco de 2013; Dé Palmeira, além de contribuir com uma versão de Franny Glass para o disco “Somos Todos Latinos”, compôs, produziu e executou diversas trilhas sonoras para programas de TV e ressuscitou a banda de surf rock The Silva’s (ao lado de Liminha e João Barone); Charles também esteve envolvido em trilhas e produções de discos e Toni preparava seu próximo disco solo. Tanta atividade não arrefeceu a disposição da banda, mas os entraves envolvendo direitos autorais, que em fevereiro pareciam estar próximos, se tornaram um pouco mais complicados, e “Sur” seguia engavetado. É do embrião da banda até este momento que se trata a entrevista a seguir.

Creio que é inevitável começar perguntando como vocês entraram nessa. De onde veio a ideia de quatro caras com carreiras consolidadas se reunirem para tocar rock originalmente cantado em espanhol e vertido para o português?
Dado: Em 2008, o Hermano Vianna (irmão de Herbert, antropólogo e pesquisador musical) me pôs em contato com Carlos Tarán, que me procurou dizendo que as bandas de Montevidéu estavam a fim de fazer uma homenagem a Legião Urbana. A ideia do Carlos era levar a mim e ao Bonfá, o que de pronto aconteceu. Foi incrível! Foi no final de 2008, a gente desembarcou em Montevidéu, e eu, com toda essa carga emocional e afetiva, me vi em meio a todas essas bandas: La Vela Puerca, No Te Va Gustar, Bajofondo, Martín Buscaglia… A surpresa foi muito grande, porque eles tinham uma relação muito próxima e muito forte com a Legião Urbana. Ali eu fui conhecendo as pessoas: o Sebá [Teysera, vocalista e principal compositor do La Vela Puerca], que virou um grande amigo… O Juan Casanova me disse que, quando a Legião foi tocar em Montevidéu em 1986, Los Traidores – a banda dele – era a maior banda local, e nós abrimos. Ele disse que ficou muito impressionado, e passou a acompanhar a Legião. Foi muito intenso, muito forte e surpreendente para mim – e não só por essa relação com a Legião Urbana, mas também com Adriana Calcanhoto, Zeca Baleiro, Titãs, Paralamas, Marisa Monte…

Taran: Eu tinha acabado de chegar de Buenos Aires. Nasci e me criei no Uruguai, mas chegou uma hora em que estava trabalhando entre lá, a Argentina e a Espanha. Depois me mudei para a Argentina justamente para trabalhar no mercado editorial dedicado à música. Mas minha mulher tinha recebido um convite para trabalhar no Rio a trabalho, e decidimos ir morar lá. Continuei a trabalhar lá fora e, aos poucos, fui tentando entender mais do mercado cultural brasileiro. Eu tinha acabado de conhecer ao Hermano Vianna quase na mesma época que fui chamado pelo La Vela Puerca para fazer a direção comercial e de marketing de uma série de shows deles no Uruguai, e foi naquele show que eles tocaram “Eu Sei”, da Legião Urbana e – quando perguntei o porquê da versão – eles me falaram que eram super fãs da Legião e que queriam fazer um show tributo com os principais músicos do Uruguai. Falei com o Hermano sobre e ele me respondeu que ia me ajudar a entrar em contato com o Dado. Só que tinha me adiantado que achava difícil acontecer, porque o Dado e Bonfá nunca mais tinham tocado juntos desde o fim da Legião, e já se sabia que ambos vinham tendo problemas com a família do Renato. Ele também me disse que eles não eram muito favoráveis a essa história de tributos, já tinham vetado alguns… Dias depois, Hermano me retorna dizendo que o Dado queria me conhecer e que estava me convidando para a festa de aniversário do filho dele, em uma pizzaria no Rio de Janeiro. Eu fui, e nem sabia o que esperar. Tinha uns pensamentos do tipo: “nossa, o que será isso? Festa em pizzaria com o guitarrista da Legião? Será que o cara fechou o lugar para isso?” (risos) E cheguei lá, era só o Hermano e a família do Dado reunida. Eu no meio daquilo, e me apresento ao Dado, ele começa a cantar o hino do Uruguai… (risos)

Dado: Aos quatro anos de idade, morei em Montevidéu. Meu pai é diplomata, por isso nasci em Bruxelas (Bélgica), depois disso fomos para a Iugoslávia, e depois Montevidéu. Foi quando eu comecei a ouvir música mesmo. Embora ouvisse músicas brasileiras que meu avô mostrava, tinha um laço efetivo e emocional muito grande com o que vinha ali do Uruguai e da Argentina.

Taran: O show veio a acontecer só em dezembro de 2008, e foi muito marcante. Depois disso, Dado e Bonfá me convidaram para trabalhar com eles. Me deixaram claro que a Legião jamais iria voltar, mas queriam fazer alguns shows, tocar as músicas deles… Mas que a condição para que fizessem esses shows, para minha enorme surpresa, era que eu os empresariasse. Mesmo tendo muitos amigos músicos e trabalhado no meio cultural, eu nunca tinha empresariado um artista antes… Mas conversamos bastante, e pensamos em fazer uma pequena turnê com vocalistas convidados. O Seba [Teysera, do La Vela Puerca] era um deles. Depois vieram as reedições dos discos da Legião, o Rock In Rio, o show com o Wagner Moura de 2012, e entre tudo isso, a questão judicial pelo uso do nome Legião Urbana com a família do Renato Russo. Foi um período de muita atividade, muitas coisas boas e ruins acontecendo, e isso nos aproximou. Em 2011 houve um convite do Canal Brasil, que culminou na formação da Panamericana.

Dé: O Paulo Mendonça e o André Saddy, dois dos sócios do Canal Brasil, estavam com ideia de fazer alguma coisa – não sei se um programa – para tocar músicas que não fossem conhecidas no Brasil. O Paulo é um grande entusiasta da música latino-americana, é co-autor de “Sangue Latino” (do Secos & Molhados), conhece muito da Argentina e não só da música. A ideia era chamar uma banda pra atender esse convite, e convidaram o Toni e o Charles. Charles era “da casa”, faz o [programa] Som do Vinil, e também é meu amigo de anos, e me trouxe. Fui o último a entrar. Iríamos, inicialmente, fazer um show no Teatro Amazonas, que viraria DVD.

Dado: Antes disso, o Taran já tinha sugerido ao Toni fazer um disco com covers do cancioneiro uruguaio em português.

Toni: O Paulinho Mendonça e o Carlinhos Wanderley, do Canal Brasil, tinham me chamado para almoçar e falar da ideia de registrar uma banda tocando grandes clássicos do rock mundial, e foi quando eu falei dessa ideia do Taran, e acabei abrindo o leque para não ficar “só” no rock uruguaio.

Dado: Enfim, foi tudo isso mais ou menos no mesmo período, um processo de sincronicidade mesmo. Viajamos todos para o Uruguai e a gente registrou nossa passagem por lá. Ali a gente resolveu dar um start em outra ideia do que poderia ser o tal programa, que era chegar junto dos músicos uruguaios, fazer uma entrevista, e ainda levar um som todos juntos. Ficou legal, a ideia continua de pé, e vamos ver se a partir do lançamento do disco conseguimos colocar isso no ar – provavelmente no Canal Brasil também.

Mas no fim, não rolou o tal show no Teatro Amazonas.
Dé: Não. Nessa época (2012) houve uma enchente muito grande em Manaus, o Rio Negro transbordou, enfim… O governo do Estado do Amazonas seria parceiro nesse projeto, mas a verba teve que ser direcionada para cuidar dos efeitos da enchente, e nisso o show ficou cancelado. Mas entre nós, nos demos conta: “Cara, isso é uma banda, vamos tocar, o repertório é bacana”. Foi quando sugeri da gente gravar. Já que a gente estava ensaiando ali, e tinha essa lista de música mais ou menos encaminhada, decidimos entrar em estúdio. Começamos a pesquisar uma quantidade gigantesca de canções, era um trabalho hercúleo de parar e ver o que a gente podia catar dali.

E como foi feita essa seleção de repertório? Quais foram os critérios?
Dé: Tarán é uruguaio, já trabalhou em revistas de música de lá e da Argentina, ele tinha conhecimento de muita coisa – principalmente desses dois países. Foi aí que tive o primeiro contato com muitos artistas desse universo.
Taran: Como era muito material, eu fiz uma divisão geográfica: peguei a América Latina por regiões, colocando Uruguai e Argentina como uma delas, os países andinos em outra, os países mais ao norte, América Central e o México em uma terceira, e decidimos também expandir para fora da América e incluir a Espanha, que tem um cenário muito rico, que dialoga com a cena dos outros países.

Dé: A nossa ideia era começar pelos países mais próximos, por isso o disco se chama “Sur”. Depois iríamos gravando, com o tempo, as musicas dos outros países. Mas nesse primeiro momento foi conveniente trabalhar só com as bandas desses dois países. Já tinha tanta coisa! Daria pra fazer um álbum triplo só com Argentina e Uruguai!

Dado: Sim porque entrou a questão também de quais seriam os artistas mais representativos. No rock argentino, não poderia faltar Sumo, Soda Stereo… Mas a gente não pegou Los Redonditos de Ricota, que é essencial para lá. Enfim… (pausa) Ao mesmo tempo, pegamos o Mersey (banda de Gonzalo Deniz, vulgo Franny Glass), que é totalmente underground, mesmo no Uruguai.

Dé: A gente achou por bem chamar o [produtor] Chico Neves. Ele também nos ajudou com esse filtro, trabalhou com a gente por muito tempo, mas teve que se mudar para Minas. Então continuamos nós mesmos a tocar as coisas no estúdio.

Nesse processo de escolha, as músicas também foram versionadas para o português, e todos contribuíram para isso. Então imagino que o fator pessoal, o caráter mais subjetivo mesmo, também pesou na seleção.
Dé: Foi mesmo uma coisa de identificação com as canções. Eu gosto de trabalhar dessa maneira, de trazer uma coisa pessoal. Por exemplo, essa do Spinetta, “Barro Tal Vez”, não estava entre as que o Taran mostrou pra gente. Eu já conhecia Spinetta, então fui atrás de discos dele e cheguei nessa. Depois fui saber que foi uma das primeiras músicas que ele fez, quando ele tinha 15 anos. A canção é sobre morte, e quando cheguei nela, Spinetta tinha acabado de falecer (fevereiro de 2012). Foi quando eu vi que ela tinha que entrar. Com “Pasajera em Trance”, do Charly, foi parecido: não estava na nossa lista, mas eu conhecia há anos, e dei a ideia de colocar.

Toni: Fiz uma versão e meia desse disco (risos). Minha versão de “Flores en Mi Tumba” (de Los Traidores) é praticamente literal. Eu brinco com o Juan Casanova: quando ele diz que minha versão ficou boa, eu digo que quem fez foi o Google Translator (risos). A do No Te Va Gustar (“Ángel en Campera”, somente “Ángel” na releitura panamericana) é uma música que eu amo profundamente, e que eu comecei [a adaptar] e não conseguia terminar. O Bruno [Cosentino], que foi um menino que o Dé trouxe para perto da gente, ajudou muito e completou a versão. A canção é muito emblemática dentro da Panamericana, fala muito de envelhecer, do passar do tempo, e o personagem é um cara que tá bêbado e começa a pensar no que fez da vida. E deixa de encontrar o “anjo com jaqueta” da original para ver o anjo na sarjeta. É uma das que ficou mais próxima da original, e ao mesmo tempo, com outra identidade.

Mas algumas mudanças nas letras foram bem radicais. “Zafar” (original do La Vela Puerca), por exemplo.
Dé: Eu tive uma participação grande nessa. A ideia de subverter foi minha. Ninguém na banda tem vontade de morar no mato, que é o que a letra fala (risos).

Toni: O Sebá [Teysera] mora no campo, ele adora. A cidade grande para ele é Montevidéu, que nem é um caos como o Rio de Janeiro (risos). E fez um hino sobre deixar a cidade. Nenhum de nós quer isso! (risos)

Dé: Ao mesmo tempo, é uma puta música boa, o Sebá é nosso amigo, a gente queria muito fazer algo deles, e essa estava no topo. Então falei pra mudarmos, que a gente não podia se reprimir. “Vamos fazer da maneira que for melhor fazer, sem pudores”. Então o Dado chamou o Fausto [Fawcett]. Se tem um cara com urbanidade nas canções, esse é o Fausto.

Dado: Acabou que mudamos todo o aspecto musical também. Acabou virando uma espécie de carimbo com rock. Já que era para mudar…

Toni: Teve mudanças que foram necessárias mesmo. “Ciudad de La Furia” (Soda Stereo) é uma música sobre Buenos Aires, não faria sentido sermos literais. A gente optou por não encucar, porque tinha algumas coisas muito antigas, e não tem mais o contexto em que elas nasceram. “Capitán América” (Las Pelotas) é uma canção emblemática sobre um cara que entra no ônibus depois de fumar um baseado (risos).

Vocês trouxeram vários parceiros para as composições: Herbert Vianna, Humberto Effe, Fausto Fawcett. Alguns deles podem vir a participar do disco ou mesmo da banda?
Dado: Isso ainda não aconteceu. Acho que não cabe. São versionistas. Mas todos contribuíram para a identidade das canções. O Humberto fez justamente “Mañana en El Abasto”, uma canção totalmente portenha, do Sumo, transportada para o samba carioca. Ficou sensacional!

Toni: Eu lembro quando o Alvin entregou a primeira versão de “Spaghetti del Rock” (Divididos, aqui transformada em “Faroeste Spaghetti”), completamente literal. O Dé, que foi quem mais controlou o repertório, falou: “Pô, ele podia fazer uma canção de amor…” Então, devolvemos a bola e ele fez.

Escolher canções que se adequassem à voz do Toni era outro critério? Afinal, é um registro vocal de identidade bem forte.
Toni: De forma alguma! No Hojerizah talvez fosse assim, acho que o Flavio [Murrah, guitarrista e compositor da extinta banda] escrevia muito para minha voz. Na minha carreira solo, desde o “Negro Amor” (2006) que eu tenho sido muito específico em escolher canções que sirvam para minha voz da melhor forma. Mas na Panamericana, quando a gente foi entrando na loucura de selecionar o repertório, entrou o que era legal ‘pra gente’ (enfático), e não pra minha voz. Tem muita coisa que suei um bocado para me adaptar, mas acho que acabei chegando aos meus objetivos. Hoje eu ouço e gosto, mas gostaria de regravar tudo porque estou muito mais firme agora (risos).

O lançamento de “Sur” já foi anunciado algumas vezes e ainda não aconteceu. O que o impede?
Dado: Aconteceu uma questão bizarra que é o funcionamento da gestão das editoras responsáveis pelas músicas. Aqui no Brasil já é lento, e lá parece ser muito pior. O processo é muito vagaroso, muito complicado, um elefante… A gente pede autorizações, e as respostas não vêm. Não conseguimos lançar nem em formato físico nem digital porque as editoras não liberam. Os autores já autorizaram, mas o processo no Uruguai é muito incompetente, e ainda tem algumas pendências.

Taran: “Mañana en el Abasto”, que ia ser só “Mañana” em nossa versão, era uma dessas pendências. Mas em junho tivemos a resposta de que os responsáveis pela obra do Sumo não autorizaram nossa versão. “Pasajera en Trance”, do Charly García, também continua pendente.

Dado: Para mim, em 2015, esse disco é a prioridade, com certeza. Eu tô fazendo [a divulgação do] “Passo do Colapso” em velocidade de cruzeiro, o disco já anda, o meu programa [Estúdio do Dado, no Canal Bis] é tranquilo, tem a divulgação do meu livro, “Memórias de um Legionário”, dá para conciliar agenda… Mas na hora que o disco sair, vai ser a prioridade de todos nós. Foi muito trabalho.

Taran: Já me disseram que temos que tirar esse disco de dentro da gente (risos). Então sai sim. Nem que seja só digital, e com menos faixas, mas sai.

Toni: Ele tinha 14 faixas, depois deixamos com 13. Agora talvez saia com 11 (risos). Mas já é um disco imenso para esse público de hoje que não tem saco pra mais nada (risos).

Porém, vez ou outra pintam uns shows, mesmo sem o álbum.
Dado: Na verdade, a gente toca quando chamado, independente de ter disco ou não. No show a gente acaba tocando algumas coisas do Titãs, Barão, Legião, do Toni… Enfim, a ideia é fazer shows, se exercitar em cima do palco para fazer a coisa acontecer de verdade.

Eu os vi no Globo de Ouro – Palco Viva tocando só essas músicas do repertório nacional. Um medley das bandas que vocês participaram…
Toni: Eu admito que me irritei com essa história (risos). Chamam a gente pra tocar Legião no Premio Multishow, no Palco Viva… (suspira) Ainda bem que não tem Hojerizah. (risos)

Podia ter. “Pros que Estão em Casa” não ficaria ruim…
Toni: Podia. Sabe, uma vez, num show solo, um casal veio até mim e falou: ”a gente veio de Nova Iguaçu só pra ver você tocar ‘Pros que Estão em Casa’ e você não tocou” (risos). Pô, isso me quebrou… Depois dessa, nunca a deixei de tocar nos meus shows.

Aproveitando os assuntos pessoais: Dé, como é pra você voltar a uma experiência de banda? Depois do Barão, veio o Telefone Gol e aí você só trabalhou solo…
Dé: É a primeira experiência com banda depois do Barão, pra falar a verdade. Não sei se o Telefone Gol consegue ser uma experiência de banda. Durou muito pouco. Já a Panamericana já tá junto há pelo menos dois anos e a gente tem uma coisa mais unida, de banda mesmo.

O Barão, aliás, tinha alguma influência nativa, mas mais pro lado Santana, que se notava nas guitarras, principalmente.
Dé: Isso foi quando efetivaram o Peninha na banda. E quando eu saí, o Frejat foi muito pra esse lado, que é pra aonde ele já queria ir. A especialidade do Peninha é essa coisa cubana, caribenha, aí juntou a fome com a vontade de comer. Tem uma faixa chamada “O Que Você Faz à Noite” (no disco “Carnaval”, do Barão), que eu fiz com o Humberto Gessinger, e nela eu tentava trazer uma coisa mais de samba, não queria fazer com a coisa latina, que o Santana já tinha feito bem antes.

Tenho uma pergunta tentadora demais para não ser feita para quem está metido em uma viagem como essa de vocês: por que se escuta tão pouca música em espanhol no Brasil? Mais ainda, por que tanto preconceito contra ela? Não dá para dizer que é “a barreira da língua” – se fosse assim, nada em inglês emplacaria…
Dé: Sinceramente, eu já pensei muito sobre isso. Já me debrucei em estudos sobre porque o Brasil ficou de costas para a América Latina. Isso não é de agora, é uma coisa histórica, e acho que não tenho uma resposta pra isso. Não se explica somente pelo idioma. Tem o fato de o Brasil ter se libertado da colônia e ter ficado monarquista enquanto todos os outros eram república… Enfim, explica um pouco porque o Brasil ficou de costas para outros países.

Toni: Nossa indústria fonográfica vai desmoronando. A gente foi pegando as coisas que vinham das sedes das grandes gravadoras, que eram dos EUA e da Inglaterra. Tudo americano, tudo inglês: CBS, Warner, Polygram… Esses caras mandam na nossa indústria, e talvez não tinham interesse em fazer o intercâmbio [entre os países]. O Paulinho Moska defende a ideia – que eu adoro – de adotar o portunhol como idioma do continente (risos).

Dé: Acho que o mais importante é o público procurar e buscar os artistas que quer ouvir. Pra ouvir é preciso conhecer, e pra conhecer é preciso ter curiosidade. E hoje em dia ninguém mais depende dos grandes centros para ter informação. Então a grande pergunta é porque as pessoas não têm curiosidade de buscar essa informação. Estava falando disso com o [jornalista, escritor e professor universitário Arthur] Dapiéve e ele me contou que os alunos dele não têm curiosidade de procurar músicas no YouTube. Isso é uma das coisas que mais gosto de fazer! Passo madrugadas literalmente viajando atrás de músicas, coisas de antropologia… O mais importante é perguntar por que essa curiosidade sumiu. Talvez a facilidade iniba a curiosidade. Pra gente conseguir um disco quando era mais novo, era um parto! Você conhecia um cara, e esse cara tinha um amigo que tinha um disco… Era dificílimo. A gente foi formado pra ter uma curiosidade. Você quer ouvir o último do Led Zeppelin? Tem que ir atrás! Esse negócio de catar o repertório [da Panamericana] foi a coisa mais divertida do mundo! Passei madrugadas ouvindo YouTube, comprando vinis na internet…

Toni: Se Nelson Rodrigues fosse pensar nesse assunto, ele diria que isso faz parte do nosso complexo de vira-lata. Só pode ser! Hoje estou achando quase uma maldição a gente falar português… (risos) Ao mesmo tempo em que temos um complexo de vira-lata, temos também uma arrogância, uma petulância… Somos um povo muito petulante. O Tom Jobim falava que o Brasil não é pra amadores (risos). [A banda chilena] Los Tres tocou no Brasil em 2013, e foi um dos melhores shows que eu vi naquele ano. Dei um esporro na banda no dia seguinte porque ninguém foi ver! (risos) Puxa, os caras tocam em estádio na América Latina, e vieram tocar aqui [no Rio de Janeiro] no Audio Rebel, um lugar superpequeno (nota: e em São Paulo, tocaram no ainda menor Centro Cultural Rio Verde), trazendo seu próprio equipamento… A gente fez um show em Montevidéu que foi uma coisa… Esse nosso repertório, que é desconhecido no Brasil, é clássico para eles. Eles cantavam em espanhol enquanto a gente cantava em português (risos). Quando eu conheci o pessoal [das bandas] no Uruguai, apresentado pelo Tarán, eu me tornei um deles. Um dia o Tarán virou para mim e disse que eu deveria gravar um disco de rock uruguaio em português. É muito louco! Mas fico muito feliz que o acaso tenha me levado a Montevidéu e que os amigos mantenham contato… Um restaurante me mandou até convite para o aniversário de um ano da casa! (risos) O Taran não acreditou. Eu sou muito carioca, da Zona Sul do Rio de Janeiro, e era inconcebível para mim morar em qualquer lugar do mundo que não fosse o Rio de Janeiro. Mas hoje, se eu não tivesse um filho de 14 anos, talvez já estivesse em Montevidéu.

Queria voltar um pouco nessa questão da relação entre as bandas que você citou. É algo que você não vê por aqui?
Toni: Eu venho de outra cena musical. Estou me tornando um sujeito pior socialmente. Gosto do clima de camaradagem entre bandas. Aqui no Brasil todo mundo é muito popstar, todo mundo é politicamente correto… E isso não é só na cena musical, é na sociedade brasileira como um todo. Até no futebol. Há quanto tempo a gente não tem alguém como o Romário, que fale sem medo? O artista brasileiro passou por um processo de “Sandynização” (o repórter gargalha). Sério! Todo mundo é legal, todo mundo tem um sorriso pronto. Eu acho a Sandy uma fofa, ela é assim mesmo. Mas o resto do mundo não é! O mundo tá muito careta. O Bruno Mazzeo me disse dia desses que a caretice venceu, que a AIDS venceu, o sexo não-seguro venceu, a banalização das drogas venceu, a caretice impera no planeta inteiro. E quando eu vou a Montevidéu, encontro uma galera que tá com a cabeça em outro lugar. Você vê jovens com outras ideias, mais abertos, as coisas se fazem com mais cooperação. Nós não temos isso muito por aqui, não. Mas tem aquela sigla, LOV, do latim Labor Omni Vincit, o trabalho tudo vence. E espero que seja verdade. Nós estamos trabalhando.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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