Balanço: Festival Paraíso do Rock 2015

Texto e fotos por Marcelo Costa

Paraíso do Norte é uma cidade com pouco mais de 12 mil habitantes no noroeste do Paraná a cerca de 100 quilômetros de Maringá e 530 da capital Curitiba. Teria tudo para ser mais um pontinho no mapa como tantas outras das 5 mil cidades indistintas deste imenso e desconhecido Brasil caso não abrigasse, desde 2008, o Paraíso do Rock, um dos festivais independentes mais interessantes de toda a região, um raro espaço de inteligência (e resistência) cultural num país dominado pelo sertanejo.

A primeira edição do festival, em 2008, já defendia a ideia do que o festival iria oferecer (e ampliar) nos anos seguintes: Terminal Guadalupe, Aerocirco, A Inimitável Fábrica de Jipes, Nevilton e a local Kromosomos davam o start de uma programação que, futuramente, incluiria Wander Wildner, Relespública, Charme Chulo, Superguidis, Matanza, Walverdes, Cachorro Grande, Bidê ou Balde, Los Porongas além de nomes latinos como Pelea de Gallos, Norma e Los Cocineiros de Cordoba, entre muitos outros.

Tendo a frente Beto Vizzotto, atual prefeito da cidade, e com lucro revertido para a APMI local (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância), que realiza atividades educacionais no contra turno da escola pública, o Paraíso do Rock é daqueles eventos que fazem acreditar que é possível ter um circuito de música independente autoral no país, basta ter vontade, colocar as mãos na massa e fugir do óbvio. Nas rodas de conversa entre músicos, uma frase unânime: se houvesse mais 20 prefeitos no país como Beto Vizzotto, o cenário seria diferente.

Para a edição 2015 do festival, realizada no Centro de Tradições Gaúchas São Jorge, muitas novidades: o festival teria uma cerveja própria produzida pela ótima cervejaria Araucária, de Maringá (que ofertou ainda outros três estilos para o público) e ampliaria seu alcance trazendo de Recife o rabequeiro Maciel Salú e de Castillos, no Uruguai, o grupo Molina Y Los Cosmicos. “Se você olhar o site do Molina agora verá shows em Montevidéu, Buenos Aires, Nova York, Seattle e… Paraíso do Norte”, orgulhava-se o prefeito (com razão).

Na sexta-feira (10/07), primeiro dia do Paraíso do Rock 2015, uma chuva torrencial desabou na região, o que intimidou o público de cidades vizinhas, mas não diminui o animo de quem marcou presença no CTG. Um trio formado por dois integrantes do combo gaúcho The Jalmas mais o músico Tiago Duarte abriu a noitada de forma acústica tocando covers de Wander Wildner (“Boas Noticias”) e Cachorro Grande (“Que Loucura”) além de canções próprias (“Eu Sou Bandido”) combinando perfeitamente com a grande atração da noite, Tenente Cascavel.

Antes, porém, os curitibanos da Cavernoso Viñon mostraram um rock retrô coeso embalado por vinho, uma vocalista carismática, letras em francês e uma versão bacanuda de “Aline”, hit icônico de Christophe em 1965. Na sequencia, o quinteto de indie folk uruguaio Molina Y Los Cosmicos, credenciado por ser o destaque da semana do Live in Studio da rádio KEXP, de Seattle, sofreu com problemas no som, mas conseguiu contornar as dificuldades com uma apresentação delicada, que honra os elogios que o grupo vem recebendo por onde passa.

Para delírio dos fãs de rock gaúcho, a Tenente Cascavel (três ex-integrantes do TNT com, nesta noite, dois ex-Cascavelletes) acrescida de Frank Jorge, abriu a festa com “Identidade Zero” (do primeiro disco do TNT, de 1987) seguida do hino “Menstruada”. Dai em diante, um set para deixar todo mundo rouco de tanto cantar: “Morte Por Tesão” (cantada por Frank), “Jessica Rose”, “A Irmã do Dr. Robert”, “Ana Banana”, “Não Mais Voltar”, “Sob um Céu de Blues”, “Não Sei” (com Frank fazendo o solo que, no segundo disco do TNT, coube a Lulu Santos) e, claro, “Amigo Punk”, numa apresentação correta e passional (ainda que a voz de Tchê Gomes tenha ido embora na metade do show).

Encerrando os trabalhos do primeiro dia do Paraíso do Rock 2015, o quinteto de rap rock Elemento Principal, de Paranavaí, enfrentava um drama: o pai do vocalista Guilherme Miojow havia falecido em um acidente na manhã do mesmo dia, e o grupo decidiu seguir em frente com o show ancorado na certeza de que, como explicou Guilherme, “meu pai iria querer que a gente tocasse”. Tomado pela emoção, o grupo fez um ótimo show, que valorizou a diversidade da proposta musical do festival neste ano.

Para a noite de sábado, normalmente a mais frequentada do festival, uma boa notícia: a chuva deu trégua permitindo que um bom público marcasse presença. No palco, a Sollado Brazilian Groove poderia facilmente confundir um desavisado: com sonoridade inspirada no maracatu e um vocalista que lembra (e muito) a postura de Jorge Du Peixe, o frontman da Nação Zumbi, a Sollado poderia passar facilmente por uma banda de Recife/Olinda quando, na verdade, são de Maringá. Uma boa surpresa que se conectou perfeitamente com o show seguinte.

Uma das atrações mais esperadas da programação deste ano do festival, o rabequeiro Maciel Salú, filho do Mestre Salustiano, fez todo mundo dançar e cantar com um show empolgante. No repertório, canções de seus três discos (o quarto, “Baile de Rabeca”, pode ser apoiado via campanha no Kickante) ecoaram no galpão do CTG São Jorge: “Damiana”, “Gaiola da Saudade”, “Sambaqui”, “Casa Amarela” e “Minha Vida é o Mundo”, entre muito outras, afastaram o frio com suingue e animação típicas do carnaval pernambucano.

Grande atração do segundo dia do Paraíso do Rock, os reformados Autoramas mostraram que as mudanças vieram para melhor. A impressão é que o som do agora quarteto ficou mais pesado, com destaque para a condução de baixo do experiente Melvin, que caiu como uma luva na função. Érika Martins é um show à parte: seja cantando (função antes destinada na banda as ex-baixistas), tocando sua Flying V ou dançando no meio do público, Érika parece ter sempre feito parte dos Autoramas. Na bateria, Fred, ex-Raimundos, combina perfeitamente com a pegada mais pesada (e que remete ao início dos Autoramas) da formação atual.

“Mundo Moderno”, do álbum “Teletransporte” (2007), abriu a noite seguida de uma canção inédita e muito boa, “Quando a Polícia Chegar”, parceria de Gabriel com o ótimo letrista Alvin L. (outra música nova, que estará presente no álbum “O Futuro dos Autoramas” que deve ser lançado próximo ao Rock in Rio, foi tocada na noite: “O Que Que Você Quer”). Entre os destaques, “Kung Fu” (Acabou La Tequila), “I Saw You Saying” (parceria de sucesso de Rodolfo e Gabriel Thomas presente no segundo disco dos Raimundos), “1, 2, 3, 4”, a pouco tocada ao vivo “Resta Um” mais “Música de Amor” e o final com “Aquela” fechando um grande show.

Última atração do festival, o trio de piracicabanos psicopatas do The Mullet Monster Mafia, começou o show a 300 quilômetros por hora, e a apresentação tinha tudo para figurar entre as melhores do festival não fosse uma corda de guitarra arrebentar e esfriar a apresentação. Quando, enfim, o trio ligou novamente a máquina de esporro, o show cresceu, mas parte da plateia já havia debandado vitimada pelo avançado da hora (quase 4 da manhã). Quem ficou, porém, não se arrependeu: muito barulho (e diversão rock and roll) por tudo.

Com público menor do que nos anos anteriores, compensado pela empolgação por parte dos organizadores, o Paraíso do Rock 2015 deixa a certeza de que a saída para a música brasileira é fazer acontecer. Muito se fala, muito se reclama e pouco se faz. Beto Vizzoto e sua turma, ano a ano, vêm mostrando que é possível fazer um festival de qualidade, que coloca a cidade de Paraíso do Norte no mapa musical e cultural do país. Se outros pontinhos seguirem o exemplo, muita coisa boa pode acontecer. Vida longa ao Paraíso do Rock.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Entrevista:
– Beto Vizzotto: “Nos primeiros festivais a resistência foi muito grande!” (aqui)

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