Entrevista: Apanhador Só versão 2015

por Bruno Capelas

“Sempre quisemos pegar uma Kombi e sair tocando pelo Brasil. E queremos gravar um disco novo. Por que não juntar as duas coisas?”. Dito dessa maneira pode parecer simples, mas a frase de Fernão Agra, baixista da Apanhador Só, tenta resumir uma das mais ambiciosas campanhas de crowdfunding já feitas em solo nacional. Através do Catarse (www.catarse.me/pt/apanhador), a banda quer conseguir (atualizando: conseguiu!), com o apoio dos fãs, R$ 77 mil para financiar uma turnê pelo país e a gravação de seu terceiro disco – o sucessor do elogiado “Antes Que Tu Conte Outra”, melhor disco nacional de 2013 no Prêmio Scream & Yell e também financiado coletivamente.

Depois de conquistar um dos maiores palcos do país – o do Lollapalooza – e as ruas e praças do Brasil com o show acústico-sucateiro, a banda investe ainda em um novo formato de shows para a turnê, chamado carinhosamente de “Na Sala de Estar”. “Ele é um show plugado, que nem o show que fazemos em teatros e casas de show. A diferença é que ele é… bem, é numa sala de estar: tem sofá, abajur, iluminação de cozinha e luzinhas de Natal, com clima mais intimista”, diz Fernão, em um bate-papo rápido via Skype com o Scream & Yell, a pouco mais de duas semanas para o fim da campanha de financiamento coletivo do grupo.

“Fazer o show na sala de estar das pessoas é algo que reduz ainda mais a distância entre banda e público”, acrescenta o baixista, repetindo uma frase que parece um mantra na carreira do grupo. Na entrevista a seguir, Fernão e o vocalista Alexandre Kumpinski falam mais sobre a campanha, que vai até o dia 22 de julho, e contam sobre a turnê recente que fizeram pelo México e pelos EUA, merecendo até menção no New York Times por sua atuação no festival texano South by Southwest. “Você passa a vida inteira ouvindo as pessoas falando do New York Times (fala com sotaque) e nunca imagina que vai sair no jornal um dia”, brinca Agra.

Além disso, a dupla – o guitarrista Felipe Zancanaro completa a formação atual da banda – fala sobre as mudanças que aconteceram com a Apanhador Só e com o Brasil desde o lançamento de “Antes Que Tu Conte Outra”. “Antes, o bordão era “vem pra rua”. Agora, o bordão seria “vamos para rua, mas pelo quê?”. Só ir para a rua é um movimento que não tem vetor definido”, diz Kumpinski. O vocalista e principal compositor do grupo ainda não sabe como será o próximo trabalho, mas faz uma aposta. “O “Antes Que Tu Conte Outra” era um disco de incômodo, ruído, destruição e agressividade. Era um disco de nãos. Agora, queremos dizer alguns ‘sim’”.

A maior parte das bandas brasileiras vive lidando com um mesmo problema para as duas maneiras mais comuns de levar sua música adiante: a falta de recursos, seja para gravar um disco de forma bacana ou para levar uma turnê às cinco regiões do País. A nova campanha de financiamento coletivo da Apanhador Só tenta matar dois coelhos com uma cajadada só?
Fernão Agra: Sempre quisemos pegar uma Kombi e sair tocando pelo Brasil. E queremos gravar um disco novo. Por que não juntar as duas coisas? Além disso, temos feito alguns shows no formato “sala de estar”, em casas que estivessem desocupadas ou que pudessem receber uma banda e seus equipamentos. A nova campanha junta tudo isso: ou seja, uma turnê por via terrestre que passe por salas de estar, e, ao mesmo tempo, financia a gravação do disco.

É mais fácil financiar turnê e disco do que financiar uma turnê e depois um disco?
Fernão: A ideia é arrecadar o dinheiro e comprar um carro, um reboque e os equipamentos que não temos hoje para fazer a turnê. Com a venda do carro e a possível grana que rolaria dos ingressos dos shows, financiamos o disco. É melhor fazer um crowdfunding grande do que dois crowdfundings. É um trabalho que consome, mas é muito legal estar em contato com os apoiadores, as pessoas que curtem a banda, e fazer tudo junto, perto do público. Nesse sentido, fazer o show na sala de estar é algo que reduz ainda mais a distância entre banda e público.

Vocês costumam fazer dois tipos de show: o elétrico e o acústico-sucateiro. Como é esse novo formato “na sala de estar”?
Fernão: Ele é um show plugado, que nem o show que fazemos em teatros e casas de show. A diferença é que ele é numa sala de estar: tem sofá, abajur, iluminação de cozinha e luzinhas de Natal, é um clima mais intimista, com o público sentado em banquinhos e almofadas. Mas é um show plugado: levamos amplificadores, microfones, mesa de som, P.A., bateria e montamos tudo na hora.

Alexandre Kumpinski: Os arranjos são todos “elétricos”, com exceção de “Na Ponta dos Pés”, que é o momento que a gente abandona os microfones e aproveita que o ambiente é reduzido para fazer no gogó.

Em um mundo em que o artista ganha mais com show e merchandising do que com disco, apostar em um crowdfunding para uma turnê é encurtar ainda mais caminho do dinheiro e o processo de produção da banda?
Alexandre: Esse é um formato de show que permite que nós possamos produzir tudo de maneira independente, desde que tenhamos o equipamento inicial – que é o que estamos tentando financiar agora. Com esse novo formato, podemos produzir shows gastando pouco, porque os recursos de produção são baixos. Normalmente, o custo de produção é o que nos mata: conseguimos um cachê ou uma bilheteria legal de show, mas aí temos que pagar passagem, estadia, a porcentagem que fica para a produção e para a casa de show, os técnicos e o aluguel de equipamentos. Quase não sobra nada para a banda. Economizando em custos de produção, o formato da sala de estar acaba sendo mais rentável. E se tudo der certo, isso pode nos deixar cada vez mais perto da independência, ser de fato profissional e viver da música.

A Apanhador Só acabou de fazer uma turnê pela América do Norte, passando por México e EUA, agora em abril. O que vocês sentiram e aprenderam do mercado independente de música lá fora?
Fernão: A turnê foi extremamente legal. Gostamos muito de viajar para o exterior, e é legal ver como as coisas funcionam para as bandas de outros países. Acrescenta muito para nós. Espero que possamos fazer isso mais vezes a partir de agora.

Alexandre: Conversamos com muitas bandas de toda a América. É legal ver os paralelos, não só artisticamente, mas também de gerenciamento de carreira, ver como a galera tá se virando para se independente. Toda essa experiência trocada acrescenta muito. Afinal de contas, a nossa carreira não é só artística, mas também é de autogerenciamento e de invenção de caminhos.

Vocês foram um dos destaques do SXSW para o New York Times. Como foi isso?
Alexandre: Foi incrível. Sair no jornal no Brasil para nós ainda é uma novidade, que dirá no New York Times. É um teto na nossa carreira.

Fernão: É engraçado. Você passa a vida inteira ouvindo as pessoas falando do New York Times (fala com sotaque) e nunca imagina que vai sair no jornal um dia. É algo bem pitoresco, mas bem recompensador.

A Apanhador Só tem uma sonoridade marcante, mas também tem letras fortes. O público americano reagiu bem ao som da banda?
Fernão: Eu tinha ouvido falar que os americanos não gostavam de música em outra língua, mas o pessoal curtiu. Talvez não tenham entendido a letra, mas o feedback foi bem interessante.

Alexandre: No México também, eles não entendem lhufas de português, mas gostavam muito. Era algo que a gente se preocupava antes da turnê, porque a Apanhador tem um trabalho cuidadoso com as letras, mas parece que a música se comunica sem o verbo. Acho que a gente não precisa disso necessariamente.

Fernão: Não precisa mesmo. A gente passa boa parte da nossa vida ouvindo música em inglês sem entender, e mesmo assim a gente gosta!

Nos três grandes registros da Apanhador Só até agora (o disco homônimo, de 2010, o Acústico-Sucateiro, de 2011, e o Antes Que Tu Conte Outra, de 2013), vimos muitas mudanças, tanto em termos de postura lírica quanto em pesquisa e experimentação sonora. Imagino que vocês devem ter mudado bastante desde o lançamento do “Antes Que Tu Conte Outra”, de alterações na formação da banda a um novo cenário político e social no país. Mas como exatamente vocês mudaram?
Alexandre: Os questionamentos daquela época são outros hoje. Ainda bem: se fossem os mesmos, estaríamos estacionados no mesmo lugar. No “Antes…”, quisemos dizer alguns “nãos” e nos colocar firme a respeito do que queríamos destruir ou não queríamos aceitar. Agora, queremos dizer alguns “sim”. O “Antes Que Tu Conte Outra” era um disco de incômodo, ruído, destruição e agressividade. Era um disco de nãos. Não posso dizer com certeza, mas a nossa preocupação agora é mais saber os caminhos que a gente quer criar. É um processo diferente e complementar. Imagino que vá sair um trabalho que complete o “Antes Que Tu Conte Outra”, mas realmente não posso dizer mais do que isso.

Vocês ainda não começaram a pensar em como vai ser esse novo disco.
Alexandre: Não.

A última grande entrevista da Apanhador Só pro Scream & Yell foi pouco depois das Manifestações de Junho. De lá para cá, o Brasil mudou muito. Como vocês estão sentindo o momento do país? Voltamos a ser um gigante adormecido? (risos)
Fernão: É um país complexo. Ao meu ver, hoje pelo menos a gente tem muito mais manifestações. As pessoas começaram a fincar um pouco mais o pé nos seus direitos e resolveram combater as causas dos seus problemas. É tudo um grande processo: a gente é um país recente, formado por povos do mundo inteiro. É uma mistura e um choque de mundos e misturas. É difícil falar.

Alexandre: O Brasil parece de repente ter aberto uma multiplicidade de novo. Vimos passeatas de direita esse ano! Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer (risos). É muito doido isso. Antes, o bordão era “vem pra rua”. Agora, o bordão seria “vamos para rua, mas pelo quê?”. Só ir para a rua é um movimento que não tem vetor definido. O Brasil está mais complexo de lá para cá, e com o aumento de manifestações, aflorou a agressividade e a intolerância.

Fernão: Talvez a gente esteja aprendendo a discordar. Lentamente.

Eu vejo o contrário: a gente aprendeu a se manifestar, mas não sabem discordar. Há pouca discussão e pouco diálogo por aí.
Alexandre: Talvez faça parte do processo. É como uma cidade que, de repente, se enche de carros, e as pessoas começam a ficar estressadas umas com as outras. De uma hora para outra, elas percebem que tem que conviver, procuram uma solução e aí começa a ficar melhor o diálogo geral. É uma metáfora meio estranha, mas talvez um começo.

https://www.catarse.me/pt/apanhador

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

Ao vivo:
– Apanhador Só no Ibirapuera: boa banda é aquele que sempre te surpreende (aqui)
– Entrevista: Apanhador Só fala sobre a fase “Antes Que Tu Conte Outra” (aqui)
– Apanhador Só no Lollapalooza: show arrasador de 45 minutos, por Bruno Capelas (aqui)
– Apanhador Só em SP: Quem dera o público entendesse (o show, o disco, o Brasil)… (aqui)
– Antes Que Tu Conte Outra” não é daqueles discos fáceis, sem arestas, por Mac (aqui)
– Apanhador Só: Felipe Zancanaro conta sobre o projeto “Acústico Sucateiro” (aqui)

5 thoughts on “Entrevista: Apanhador Só versão 2015

    1. Olá Luis, você fez seu TCC sobre a Apanhador Só? Como a banda é tema de minha dissertação de mestrado, gostaria de ter acesso a seu trabalho para citá-lo em meu capítulo de estado da arte. Se puder me contatar, agradeço muito! Meu e-mail é belisa@gmail.com.

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