7 filmes do 7º In-Edit~Brasil

por Marcelo Costa

“Breadcrumb Trail”, de Lance Bangs (2014)
****

Uma citação de Hunter S. Thompson (“Basta ter em mente que estamos em Louisville, Kentucky. Não Londres. Nem mesmo New York. Este é um lugar estranho”) é o start de “Breadcrumb Trail”, documentário de Lance Bangs que foi incluso no box comemorativo de 20 anos do lançamento de “Spiderland”, o disco do Slint que a Touch & Go lançou em 1991 depois da banda ter encerrado as atividades, e que se tornou objeto de culto para fãs. Os primeiros minutos dão uma falsa impressão do que vem pela frente: dois amigos fãs do Slint visitam constantemente Louisville, terra natal da banda, para tentar saber algo sobre os quatro integrantes, o que eles estão fazendo, com quem estão tocando e o que aconteceu antes do disco clássico sair. É um filmagem tosca e caseira, mas o que vem pela frente nos 90 minutos seguintes é um trabalho profissional que reúne entrevistas interessantes com os quatro integrantes da banda, amigos, os pais do baterista Britt Walford (uma das forças motrizes do quarteto) e músicos próximos (Steve Albini, Ian MacKaye e James Murphy inclusos) criando um retrato coeso e extremamente interessante sobre o Slint. Não faltam momentos de humor, como quando James Murphy, do LCD Soundsytem, lembra que Britt passou um tempo em sua casa em Nova York enquanto trabalhava numa loja de bolos eróticos, ou mesmo novidades curiosas, como descobrir que o baterista (assinando o codinome de Shannon Doughton) sentou no banquinho dos Breeders no álbum “Pod”, de 1990, produzido por Steve Albini. Excelente.

“I Need A Dodge! Joe Strummer on the Run”, de Nick Hall (2014)
***½

Tem gente que tem uma baita assunto e personagens sensacionais nas mãos, e consegue errar o foco no documentário, deixando de transportar a essência da história a para a tela. Outros, às vezes, não tem teoricamente nada, e conseguem fazer um baita filme onde muita gente diria que não existia um. Felizmente, “I Need a Dodge!”, de Nick Hall, pertence ao segundo grupo: conta sobre os dias espanhóis vividos por Joe Strummer entre 1984/1985. Na época, Joe estava sendo esmagado pela opinião pública britânica ao demitir os membros originais do Clash e reformar a banda para um novo disco, o pífio “Cut The Crap” (1985). O achincalhe da imprensa foi um dos motivos para a fuga de Strummer para a Espanha, contam no documentário os ex-integrantes Nick Sheppard e Vince White. A então esposa, Gaby Holford (que também é ouvida no longa), mãe dos dois filhos de Strummer, estava grávida quando ele partiu pra Granada, na Andaluzia, cidade de uma antiga paixão, Paloma Romero, que assumiria as baquetas do Slits (com o nome de Palmolive). Em Granada, Joe Strummer fez amizades com músicos locais e decidiu produzir uma banda em Madri, mesmo período em que comprou um Dodge… e o perdeu. Nick Hall reconstrói as memórias da época com inteligência através de ótimas entrevistas enquanto tenta descobrir o paradeiro do carro que Joe amava (há um áudio de uma rádio de Madri nos anos 90 em que Joe pede ajuda do público para reencontrar o automóvel). A cena com o filho do dono de um estacionamento é sensacional.

“The Other Side of Mirror: Bob Dylan at the Newport”, de Murray Lerner (2007)
****
½

Em 1963, Bob Dylan tinha 22 anos, “The Freewheelin” havia sido lançado em março e no final de julho, quando o festival aconteceu, ele já era uma estrela saudada como a grande força da nova geração pelo hino “Blowin’ In The Wind”, que no evento ganhará uma versão poderosa com Pete Seeger and The Freedom Singers, Joan Baez e Peter, Paul & Mary. Outras cinco canções deste ano mostram um jovem com fortes tradições folk e um repertório poderoso (“Talkin’ World War III Blues“ e “Who Killed Davey Moore?“ são grandes momentos). No ano seguinte, Dylan retorna ao festival mais melódico com “Mr. Tambourine Man”, leves olheiras, mas amado ainda mais pelo público que, em certo momento, clama por sua volta ao palco, constrangendo o apresentador. Johnny Cash canta “Don’t Think Twice, It’s All Right” enquanto Joan Baez sarreia a voz anasalada do namorado interpretando “Mary Hamilton” como se fosse Dylan. Em 1965, a grande mudança: ele está de jaqueta de couro, mais sério, irrequieto e ciente de sua força. No primeiro dia (24/07) se apresenta de forma acústica, vê seu furgão rodeado de fãs e brinca: “São todos meus amigos”. No dia seguinte traz uma banda com guitarras e toca versões barulhentas de “Maggie’s Farm” e “Like A Rolling Stone”, para desespero dos “amigos”, que o vaiam intensamente pela primeira vez no festival. Ele retorna para o bis acústico com “Mr. Tambourine Man” e “It’s All Over Now, Baby Blue”, mas a mudança já tinha entrado para a história. 83 minutos obrigatórios filmados e compilados pelo próprio Murray Lerner. Essencial.

“Eu Sou Carlos Imperial”, de Renato Terra e Ricardo Calil (2014)
****
Dupla que se destacou com o excelente documentário “Uma Noite em 67” em 2010, Renato Terra e Ricardo Calil retornam ao anos 60 para esmiuçar a vida do inenarrável Carlos Imperial, produtor, descobridor de talentos e compositor que se tornou um personagem hilário e mítico do período. Quem for assistir pensando na diversão da porralouquice de uns caras “mais mais” que já pisou nesse país irá se deparar com as tags #pilantragem #cafajeste #machismo e #mentiroso, o que causa um desconforto inevitável. Retrato indissociável de um Brasil que não existe mais, as histórias e cafajestices de Imperial são contadas por Roberto Carlos (a quem ele chamava de “papai”), Erasmo, Eduardo Araújo (que viu roubada a autoria da canção “Vem Quente Que Estou Fervendo” por Imperial) e pelos filhos, estes últimos em depoimentos comoventes e profundos. Há passagens imperdíveis como os roubos de canções (“Tu Veut ou Tu Veut Pas?”, do repertório de Brigitte Bardot, virou “Nem Vem Que Não Tem”, creditada a Imperial e sucesso com Simonal) ou a do postal que ele enviou aos militares na época da ditadura (com uma foto sua sentado numa privada e a frase: “Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que eu estou fazendo neste cartão”) tanto quanto abomináveis como o caso inventado de Mario Gomes e a cenoura (que quase acabou com a carreira do ator) e as assustadoras orgias (no melhor estilo Led Zeppelin) num documentário que exibe, com extrema destreza, os dois lados de um personagem controverso e assustador, tanto gênio quanto picareta.

“Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94”, de Ricardo Alexandre (2015)
***
No começo dos anos 90, o rock nacional oitentista começava a dar sinais de declínio com a linha de frente do “movimento” (Titãs, Paralamas e Legião) lançando discos ora ruins, ora difíceis e sendo achincalhada pela imprensa no mesmo momento em que uma nova geração começava a surgir dos experimentos de álbuns como “Selvagem?”, dos Paralamas (1986), “O Blesq Blom”, dos Titãs (1989) e “Supercarioca”, dos Picassos Falsos (1988). Calhou justamente dos detonados Titãs se envolverem com o jornalista e produtor Carlos Eduardo Miranda na criação de um novo selo musical, o Banguela Records, que lançou o álbum de estreia dos Raimundos, que iria vender mais de 100 mil cópias, e mais alguns discos clássicos (como os álbuns de estreia de Mundo Livre S/A, Graforreia Xilarmônica, Mascavo Roots e Little Quail). “Sem Dentes” revisita a época com capricho e saudosismo, e se deixa a desejar nas opiniões equivocadas do jornalista André Forastieri, que então escrevia no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, após passagem pela revista Bizz, ganha muitos pontos com a participação sensacional de Carlos Eduardo Miranda (que sozinho compensa todas as presepadas do outro), observações certeiras de Samuel Rosa e Charles Gavin mais um bom número de entrevistados que aprofundam o olhar sobre um período importante da música brasileira, logo ofuscado pelo estouro dos Mamonas Assassinas (uma boa sacada do filme). Não fosse a descontextualizada parte Los Hermanos do final, “Sem Dentes” seria um filme ótimo do começo ao fim, mas sempre existe um laranja querendo roubar os holofotes do chefão. Uma pena.


“The Possibilities Are Endless”, de James Hall e Edward Lovelace (2014)
*****
Facilmente um dos documentários mais líricos, envolventes e comoventes dos últimos anos, “The Possibilities Are Endless” conta a história do músico escocês Edwyn Collins, que se destacou a frente da banda Orange Juice no começo dos anos 80, saiu em carreira solo em 1985 alcançando sucesso mundial em 1994 com o single “A Girl Like You”. Corta para 2005: após dois derrames cerebrais seguidos (dos quais dificilmente sobreviveria, diziam médicos), 10 dias de coma e seis meses no hospital, Edwyn Collins recomeça sua vida agarrado a esposa Grace. “Nos primeiros meses no hospital ele só dizia quatro coisas: ‘Sim’, ‘Não’, ‘Grace Maxwell’ e ‘As possibilidades são infinitas’. Parece profundo”, ela comenta no documentário, “mas depois de ouvir 85 vezes por dia não soa tanto assim”, conclui, rindo. Mais do que um documentário sobre Edwyn Collins, “The Possibilities Are Endless” é um elogio ao poder redentor do amor de um casal que enfrentou (e continua enfrentando) junto todas as adversidades. A chance de escorregar para a pieguice era enorme, mas James Hall e Edward Lovelace encontraram uma maneira poética de recontar a trajetória de Edwyn, e tudo que aparece na tela está perfeitamente inserido na história. Há paralelos (inevitáveis) com o bonito documentário “Herbert de Perto” (2008), sobre a vida de Herbert Vianna após seu acidente de ultraleve, e não deixa de ser marcante que ambos, Herbert e Edwyn, ao olharem vídeos seus antigos, dizerem praticamente a mesma coisa: “Eu era um cara arrogante”. Um filme emocionante.

“Heaven Adores You”, de Nickolas Rossi (2014)

Soa como uma facada no peito, mas é preciso ser dito: “Heaven Adores You”, documentário que rememora a vida e carreira de Elliott Smith é moroso, longo, chato e excessivamente reverente (tudo que a música de Elliott Smith não é). Nickolas Rossi, que conseguiu o dinheiro para o projeto via crowdfunding, filmou os primeiros clipes da carreira de Elliott, o que o aproximou do compositor, e quis aqui retratar Elliott Smith por um viés edificante, mostrando um músico mais alegre e menos depressivo – o que por si só já desfoca o resultado final. Entre os pontos positivos há uma ótima entrevista caseira (em que o jovem entrevistador confessa: “Não dou uma bola dentro, hein?” – e são várias “bolas dentro”) e a passagem do músico pela rádio KCRW. No geral, o roteiro fraco acaba esvaziando a persona e a poesia de Elliott. Some a isso um produtor culpando a pressão da mídia na derrocada do jovem ídolo após a indicação da canção “Miss Misery” ao Oscar, uma assessora assustada com as confissões drogadas do músico e imagens de três cidades (Portland, Nova York e Los Angeles) decorando boa parte do filme no melhor modelo “fundo de tela de karaokê” e alcança-se a receita completa de um documentário clichê. O obscuro da morte do músico, por exemplo, continua em aberto. Se você nunca ouviu a música de Elliott Smith, esqueça o documentário, leia isso daqui e vá correndo atrás de “Either/Or” (1997), “XO” (1998), “Figure 8” (2000) e “From a Basement on the Hill” (2004). Se você o adora, assista: ainda que ruim, ele foi feito para fãs.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

Leia também:
– Festival In-Edit 2014: Pulp, Kathleen Hanna, Hendrix, The National e mais (aqui)
– Discografia comentada: Bob Dylan (aqui) e The Clash (aqui)
– “Cobain – Montage of Heck” remexe os diários e o baú do ídolo do Nirvana  (aqui)
– Três docs: “Os Doces Bárbaros”, “Os Novos Baianos” e “Raul Seixas” (aqui)
– Três filmes musicais: “My Way”, “Searching for Sugar Man” e “Sound City” (aqui)

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