Entrevista: Chibazqui

por Pedro Salgado, de Lisboa

Quando o tecladista Silas Ferreira (ex-Pontos Negros) completou o elenco do Chibazqui, em Março de 2014, a intenção inicial do grupo liderado por Diego Armés (letrista e guitarrista) era seguir uma orientação sonora mais folk. Em virtude de um convite madrugador do selo NOS Discos para a gravação do disco, o quarteto afastou-se da direção planejada e enveredou por um modelo assente no frescor instrumental e nas letras imaginativas de Armés, resultando numa estreia definitivamente caracterizada pelo pop inteligente, bem à medida dos melhores álbuns portugueses de 2015.

Enquanto abordamos o recém-lançado “Planos Para o Futuro” (baixe gratuitamente aqui) e a aparente opacidade das caves do Edifício Interpass, no Bairro Alto, em Lisboa, dissipa-se com a animação da conversa, a banda aponta a estrofe: “Eu só quero viver devagar, morrer já velhote a contemplar as ondas”, da faixa título, como a mensagem principal do Chibazqui (“era para ser Chinaski, um roubo descarado a Bukowski, mas alguém se enganou a teclar e escreveu “Chibaski” – daí ao aportuguesamento desavergonhado foi um pequeno passo”, explica o release oficial). A tônica na melodia, para a qual contribuem decisivamente o baterista Filipe Sambado e o baixista Adriano Fernandes, encontra uma boa tradução no tema “Cachorra”, onde o grupo lisboeta explorou habilmente o duplo significado do título.

Sobre o single e primeiro clipe “Elefante e Micróbio”, Sambado concorda com a observação de que a cadência acelerada da faixa sugere uma vida errante e Armés desvenda a história da canção: “Faz sentido que ela tenha este ritmo e andamento, porque foi um tema que foi feito na guitarra e respeitou-se a ideia inicial. Escrevi essa canção depois de uma viagem algo psicodélica que fiz com o meu irmão ao Festival Sudoeste. Deve ser a faixa que representa o lado mais decadente do escritor Charles Bukowski”, explica. Já Silas Ferreira, citando Filipe da Graça (integrante do grupo inglês Lull), relativiza uma eventual angústia: “Não dá para evitar. Qualquer coisa mais deprimente que se faça em Portugal é infiltrada pelo sol”.

Confiante pelo trabalho realizado, o Chibazqui aponta novos caminhos musicais: “Sinto que as propostas que temos para as próximas canções divergem um pouco do ‘Planos Para o Futuro’, mas seguiremos o nosso caminho de uma forma descontraída e tudo surgirá como tiver de acontecer”, conta Diego Armés. Sobre os shows, embora ultimamente não tenha tocado muito ao vivo, a banda lisboeta pretende apostar numa dinâmica que não replique apenas as canções, encontrando um ponto de conforto e concebendo algo mais consistente em palco que impulsione o grupo. De Lisboa para o Brasil, o Chibazqui conversou com o Scream & Yell.

Quando formaram o Chibazqui desejavam criar algo novo ou apenas juntar os vossos talentos individuais?
Inicialmente tínhamos em mente explorar mais o folk, mas sentimos que talvez não fizesse sentido e continuamos a abordar o indie rock. No fundo, é aquilo que nos une enquanto espíritos criativos. No entanto, sentimos esse apelo inicial em temas como “Palmar”, e nos versos de “Cachorra” ou “Sete Damas”. Isso acontece porque no princípio do Chibazqui tentávamos começar as músicas com essa pegada folk.

A escrita do autor alemão Charles Bukowski serviu de inspiração para o disco, mas o Chibazqui alterou esse imaginário decadente e adotou uma toada mais leve. Como se deu essa transformação?
O nosso objetivo era partir da decadência do Bukowski, mas não complicar o processo criativo, fazer as coisas descontraidamente e as canções surgiram de uma forma mais leve e bem disposta. Sentimos que esse era o caminho certo, fizemos uma fusão dos universos de Bukowski e do Big Lebowski e ficamos no meio (risos). Na formação da banda existe sempre uma ideia inicial, mas, acima de tudo, quando a música rola é que percebemos para onde queremos ir e foi o que aconteceu.

“Planos Para o Futuro” é um álbum em que as canções fluem livremente. Esse fato é apenas o resultado do processo de composição ou obedece a uma linha conceitual?
Foi tudo muito espontâneo e natural. Esse aspecto ficou logo definido no começo da banda, ou seja, desfrutar, curtir as interpretações e fazer o que gostássemos. Ainda assim, corrigimos a orientação sonora de algumas faixas para não ficarem muito pesadas, como foi o caso de “Animais Quase Comestíveis” (chamava-se inicialmente “New Metal”), e que ficou um pouco mais aberta. No Chibazqui existem três cantautores e isso faz com que o respeito pela canção seja muito grande. Não nos preocupamos tanto com o peso do riff e estamos sempre procurando a melhor harmonia. O Adriano no baixo é muito melodioso e as linhas dele podiam ser sopros. Nenhum de nós é extremamente virtuoso. Remamos todos para o mesmo lado e ninguém tenta se destacar dos outros. Para conseguirmos a despreocupação total, preocupamo-nos cada um com a sua parte e o que resulta é uma canção redonda com muitos cantores lá dentro.

Embora o indie rock e o folk estejam bem representados no disco, a abordagem de vocês ao pop parece-me mais exuberante e define melhor o trabalho. Concordam?
Se o Chibazqui tiver um estilo musical, há mais possibilidades dele ser o pop ou o pop/rock. O indie rock define uma série de bandas que tentaram fazer carreira com um rock descomprometido ou despretensioso sem estarem ligados à indústria musical. Destacando-se da cena ‘do it yourself’ do punk dos anos 70 e 80. Concordo que somos uma banda mais pop, porque na nossa sonoridade não existem muitos riffs nem power chords e procuramos mais o formato canção e a melodia.

Dentro do novo cenário musical português, com quem se identificam?
Tendo em conta o nosso percurso musical, identificamo-nos mais com o panorama de há cinco anos. Mas é um pouco relativo, porque estamos falando de amigos, dos quais assistimos aos shows e participamos. Fica difícil separar as coisas. A cena musical em Lisboa não é muito grande e conhecemo-nos todos. Se fizéssemos um grupo igual ao Capitão Fausto não faria sentido, porque respeitamos a sua identidade e não queremos copiar o amigo do lado. Fora de Lisboa, estaremos sempre próximos dos Smix Smox Smux. Eles fazem música divertida, à vontade, sem pretensões e a forma como eles procuram a canção também é interessante. O PZ e o Cochaise (banda da qual também fazem parte Filipe Sambado e Adriano Fernandes) também se aproximam da nossa sonoridade.

Como gostariam que a vossa música fosse interpretada no Brasil?
Temos alguma curiosidade sobre a forma como o ouvinte brasileiro, que gosta de rock, vai interpretar a nossa música. Gostávamos que ela fosse vista como algo exótico, embora achemos que isso será complicado. Mas seria bom que fôssemos vistos de uma forma diferente para nos destacarmos. Temos noção do trabalho de algumas bandas brasileiras, que têm pontos comuns com o Chibazqui, porque não são grupos com grandes riffs ou de rock direto, como os Pontos Negros eram. A grande referência dos últimos 10 anos no Brasil foi o Los Hermanos e sentimos que muitos projetos lá tentam agregar o samba à sua sonoridade, como não temos essa componente dificilmente seremos vistos como exóticos. Sentimos que vamos sempre ficar aquém do Brasil e dos brasileiros em termos de luminosidade. Ficamos com a sensação que parecemos depressivos em função do seu público mais alegre. Mas poderemos ser exóticos mostrando aos brasileiros uma alegria melancólica.

Poplusa (V) – Episódio 15 – RTP Play – RTP

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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