Três CDs: Rafa, Claudio e Clarissa

por Leonardo Vinhas

“Rafa Schuler & Os Mostardas”, idem (Vertical)
Rafa Schuler é um daqueles músicos de técnica impressionante, capaz de tocar qualquer estilo (vide sua participação no projeto Rock de Galpão, que “enguitarra” as tradições gauchescas) e com uma paixão imediatamente perceptível pela música. Porém, como que para confirmar a regra, tende a compor com muito mais razão e formalidade do que com intuição. Seu disco com Os Mostardas deve muito ao lado mais roqueiro de Stevie Ray Vaughan e honra a referência, mas oscila entre a concisão e a empolgação na execução. Quando o trio de Caxias do Sul (RS) se empolga nas harmonias, tende a estender as composições mais do que o necessário: “Melody the Witch” e “Quá, Quá, Quá” são exemplares para ilustrar ótimas ideias que melhorariam muito com alguma edição. Da mesma forma, a concisão funciona bem nos covers espertos, quase surf rock, de “Quizás, Quizás, Quizás” e “Besame Mucho”, e principalmente na dobradinha “Rufus” e “Tará-Tará”, celebrações blueseiras alegres sublinhadas com fraseados bem colocados de metais. Com uma produção que tivesse orientado melhor os timbres e a direção artística, teria sido um disco para não fazer feio à escola Derek Trucks e Warren Haynes de guitarra, com uma identidade unicamente brasileira. Como está, acaba atiçando a vontade de ver o que virá num segundo disco – ou mesmo ao vivo.

Preço: R$ 14 (na Gravadora Vertical)
Nota: 6

“Psiconáutica”, Claudio Pimentel & Os Misantropos (independente)
Nada mais apropriado ao mito da antissociabilidade curitibana do que batizar uma banda local de Os Misantropos. Claudio Pimental, ex-Plêiade, não só escolheu esse batismo para sua nova agrupação como ainda caprichou no clima e na estética pós-punk e nas letras carregadas de (auto-)ironia. “Psiconáutica” é um disco que, em quase todo seu transcorrer, ameaça soar perigosamente datado, mas que, dada a temática de muitas das canções (envelhecer em um mundo que muda rápido numa velocidade que nem todos querem ou conseguem acompanhar), acaba soando adequado. Já na faixa de abertura, “Névoa”, com baixão sinuoso e entrelaçamento de violões e guitarras, a voz grave anuncia no refrão: “Estou ficando antigo / apegado ao farrapo / agarrado ao obsoleto / acomodado ao usual”. Canções como “Portas” e “Nosso Tempo” são outros tiros certeiros na mesma estética e pintam, musical e poeticamente, um retrato bastante fiel da vida (e principalmente, do estado de espírito) de quem não é o típico frequentador de shopping da capital paranaense. Já “CWBlues” vem com mais humor sombrio e a base mais pesada do disco: “Os esnobes aos montes emporcalham o caminho / mas Curitiba tem muito passarinho / (…) / os mendigos se arrastam já bem de mansinho / mas Curitiba tem bastante passarinho”. Um disco sincero em sua descrença, mau humor, pessimismo, imagens e referências, mas apegado ao passado demais…

Nota: 6,5
Preço: R$ 25

“Nessa Estrada e no Fim”, Clarissa Mombelli (independente)
Já em seu álbum de estreia, “Volta no Tempo” (2010), a jovem cantora gaúcha mostrava que tinha olhos para o passado, combinando influências do pop inglês sessentista com aquilo que foi se entendendo nos anos 90 como “rock gaúcho”, com um resultado mais simpático do que bom. Cinco anos e uma ação de crowdfunding depois, a mesma receita se repete, porém com doses muito mais bem medidas que seu antecessor. Ainda que tenha sido gravado em seis estúdios diferentes com a assinatura de seis produtores (!), “Nessa Estrada e no Fim” tem composições melhor resolvidas e mais pessoais, com um notável trabalho de sua banda (lamentavelmente não nomeada no site tampouco em ficha técnica que acompanhe o download gratuito, erro que precisa ser corrigido). Na intensidade de “Dentro Dela”, no apelo pop de “Sempre Mais” (que remete ao trabalho de sua conterrânea e eventual parceira Lara Rossato) ou no pendor country de “Agora Eu Vejo” estão alguns dos ganchos que dão vontade de revisitar esse disco várias vezes. Outros momentos também colaboram para tal, como “Desliguei”, “Essa Chuva” e a faixa-título, mesmo que um tantinho menos inspirados. Como ressalvas, há algumas letras mal estruturadas (em especial “Casa da Vó”) e o registro da voz de Clarissa soa não estar ao alcance de seu potencial. Superados esses desconfortos, “Na Estrada e no Fim” começa a conquistar espaço cada vez maior no cardápio musical do ouvinte.

Nota: 7
Download gratuito em http://www.clarissamombelli.com.br/

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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