Coluna: 10 biografias que valem a pena

por Marcelo Costa

Na semana passada, em votação unânime de 9 a 0, o Supremo Tribunal Federal liberou a publicação de biografias não autorizadas no Brasil. Os ministros consideraram inconstitucional a aplicação para livros biográficos de dois artigos do Código Civil entendendo que a exigência representaria censura, algo incompatível com a Constituição.

Tema bastante debatido depois que o cantor Roberto Carlos conseguiu retirar das lojas a biografia “Roberto Carlos em Detalhes” (2006), de Paulo César de Araújo, e alavancar um grupo de artistas (Chico Buarque, Caetano e Gil, entre outros, no grupo Procure Saber) em defesa da causa, a liberação é uma vitória da democracia e da liberdade de expressão.

Isso não quer dizer que qualquer coisa possa ser escrita sobre qualquer pessoa. Assim como acontece na França, as biografias não sofrem censura e podem ser publicadas livremente, mas os autores precisam tomar cuidados, pois conteúdos que venham a prejudicar a vida privada das personalidades podem render indenizações – há casos de biografias que receberam tarja preta na capa e no interior informando que a obra foi condenada.

O fato é que, independente de autorizada ou não, existem biografias que merecem leitura nos dois grupos. Abaixo selecionamos 10 volumes (cinco não autorizados e cinco autorizados, todos de artistas gringos, mas editados no Brasil) para mostrar que cada uma delas tem seu valor. Bora ler?

Cinco biografias não autorizadas
– “Dylan, a Biografia”, de Howard Sounes (Conrad)
Lançada em 2001, “Dylan, a Biografia” expõe facetas desconhecidas do músico. Das mentiras de início de carreira (que Kurt Cobain e tantos outros imitaram), da inversão de papel de ídolo (a sociedade queria um trovador na tradição da música folclórica e recebeu um jovem disposto a eletrificar o folk), das sessões de gravação que validam a arte criada sem retoques, do sucesso à queda, do judaísmo ao catolicismo, dos álbuns piratas que inauguraram a indústria dos bootlegs, de Woody Guthrie, Beatles e Clash até rappers, “Dylan” é uma aula de cultura. (saiba mais)

– “The Smiths: A Light That Never Goes Out”, de Tony Fletcher (Ed. Best Seller)
Lançada em dezembro de 2013 na Inglaterra e no ano seguinte no Brasil, está é uma biografia “meio autorizada”: Johnny Marr e Andy Rourke foram entrevistados e colaboraram com o livro, mas Mike Joyce e, principalmente, Morrissey a renegam. O livro, no entanto, é brilhante, desenhando um painel extremamente bem acabado da banda, com Johnny Marr posando de gênio e rockstar, Morrissey de gênio com ataques sem noção de estrelismo, e Andy e Mike como coadjuvantes de luxo. A introdução é primorosa. (saiba mais)

– “Mick Jagger”, de Philip Norman (Companhia das Letras)
Lançada em 2012 (tanto no Brasil como exterior), a biografia do jornalista britânico Philip Norman detalha a vida do vocalista dos Rolling Stones em um acompanhamento minucioso desde os tempos em que Mick ainda se apresentava como Mike e a família Jagger vivia em Dartford, Inglaterra, até os dias de hoje. Norman tentou obter de Jagger a liberação, sem sucesso. Repleta de fatos curiosos, “Mick Jagger”, o livro, mostra como o cantor construiu sua persona pública sob orientação do empresário Andrew Loog Oldham. Philip Norman também é responsável pela ótima biografia “John Lennon: A Vida”. (leia um trecho)

– “A intimidade de Paul McCartney”, de Howard Sounes (Ed. Best Seller)
Lançada em 2010 lá fora e no ano seguinte no Brasil, “A intimidade de Paul McCartney” é um livro para ser lido com bastante cuidado, porém, tem méritos. Traz histórias interessantes dos tempos dos Beatles que foram vetadas tanto na ótima biografia (chapa branca) de Paul, “Many Years From Now”, de Barry Miles, tanto quanto no “Anthology”, mas seu maior mérito é dividir a vida de McCartney em duas fases: Beatles e carreira solo (o Paul pós Beatles é praticamente ignorado em “Many Years From Now”). O saldo é bastante positivo.(saiba mais)

– “Led Zeppelin – Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra”, de Mick Wall (Larrouse)
Jornalista, biografo e radialista com passagem pelas revistas Classic Rock, Mojo e Music Week além das e emissoras Radio 1 e Capitol Radio, Mick Wall já havia assinado volumes sobre o Black Sabbath, o Metallica e o Iron Maiden. Para este livro sobre o Led Zeppelin, Mike Wall fez centenas de entrevistas, incluindo com os músicos e seus principais assessores, mas o guitarrista Jimmy Page chegou a acionar seus advogados, que adiaram o lançamento do livro por algumas semanas. Além das loucuras dos tempos do Led, Mike Wall esmiúça a vida pós banda dos integrantes. Essencial.

Cinco biografias autorizadas que merecem atenção
– “Vida”, de Keith Richards (Globo Livros)
Lançada em 2010 (tanto no Brasil quanto na gringa) e catapultada a sucesso de vendas, a biografia imperdível assinada pelo próprio guitarrista com auxílio do romancista James Fox é repleta de histórias desconcertantes de bastidores dos Rolling Stones e da própria vida de Keith, que fala abertamente de seu envolvimento com drogas, de seus problemas com Mick Jagger, de suas paixões e canções. A trechos líricos, como o que o guitarrista explica que “gostar às vezes é melhor do que amar” ou o que fala do amigo Gram Parsons. (leia um trecho)

– “Pete Townshend: A Autobiografia”, Pete Townshend (Globo Livros)
Lançada em 2012 no Reino Unido e em 2013 no Brasil, a biografia do guitarrista genial do The Who é bastante sincera. Pete Townshend gasta aproximadamente 500 páginas para rememorar sua história pessoal, que, em muitos momentos, esbarra na história de sua banda. Usando a caneta como um divã, Pete Townshend relata as histórias ao mesmo tempo em que tenta entende-las e traduzi-las para os fãs (e para si mesmo) mostrando que até mesmo os deuses da guitarra têm dúvidas, e erram, e seguem em frente. (saiba mais)

– “Neil Young: A Autobiografia”, Neil Young (Globo Livros)
Empolgado com o sucesso das biografias dos amigos, Neil Young deixou a maconha de lado e decidiu relembrar seu passado. Quer for ler esperando detalhes sobre sessões de gravações, inspirações de músicas, causos absurdos do rock’n roll e festas movidas a drogas (ainda assim há um pouco, muito pouco, de tudo isso no livro) se decepcionará. O que Neil Young propõe é um passeio por seus vícios, suas paixões, seus sonhos e medos. Um passeio pelo mundo de Neil Young. Vale muito a pena. (saiba mais)

– “Bruce”, de Peter Ames Carlin (Nossa Cultura)
Lançada em 2012, esta biografia é a primeira em 25 anos a ser escrita com a cooperação do próprio Bruce Springsteen. Com acesso ao artista, sua família e membros da banda — incluindo Clarence Clemons em sua última entrevista —, Peter Ames Carlin (que já havia escrito sobre Paul McCartney e Brian Wilson), apresenta um retrato íntimo de um dos maiores ícones do rock. O mérito maior é o espaço dedicado aos membros da E Street Band. Carlin também teorizando (de forma interessante) atitudes e padrões de comportamento de Bruce. (saiba mais)

– “Just Kids”, Patti Smith (Companhia das Letras)
Lançado em 2010 (e prestes a receber uma continuação), este belo volume relata a amizade de Patti Smith com o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe. Patti se mudou para Nova York com 20 anos, no final dos anos 1960, e enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do ‘verão do amor’, conheceu sua primeira grande paixão, Robert. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Como escreveu um amigo, é um elogio ao amor. (saiba mais)

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