Literatura: José J. Veiga reeditado

por Adriano Costa

É um dia como qualquer outro dia. Os afazeres são feitos calmamente com dedicação e parcimônia. Tudo parece igual como sempre foi em uma pacata vila interiorana dos anos 60. Ao longe, ouvem-se cantos de pássaros e ruídos de animais. Até que, ao acordar no dia seguinte, os habitantes enxergam um acampamento cheio e organizado no outro lado do rio, conectado por uma pequena ponte. De súbito, a rotina vai para o espaço, pois a curiosidade toma conta de todos que procuram saber quem se aventura por terras tão remotas e quais são seus objetivos.

“A Hora dos Ruminantes”, livro escrito pelo goiano (radicado no Rio de Janeiro) José J. Veiga e publicado pela primeira vez em 1966, tem como ponto de partida a situação descrita no parágrafo anterior. É o segundo livro do autor e sucede “Os Cavalinhos de Platipanto” (1959), com seus 12 contos que fazem intersecção entre sonho e realidade. Os dois livros estão sendo republicados pela Companhia das Letras em 2015 comemorando o centenário de nascimento do autor (que faleceu em 1999). Seus demais trabalhos também estão programados para sair pela editora.

Essa reedição de “A Hora dos Ruminantes” ganha um bocado de capricho com direito a prefácio detalhado, índice de obras relacionadas e capa dura. Com 152 páginas, demonstra ao novo leitor o realismo fantástico de José J. Veiga, que ganha paralelo na obra de autores sul-americanos como Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Arturo Uslar Pietri e Murilo Rubião. É um texto onde as alegorias e metáforas tomam conta do cenário sem deixar de lado a parte coloquial da fala dos habitantes e, por conseguinte, a montagem de um retrato do interior do Brasil.

O livro é dividido em três partes: “A Chegada”, “O Dia dos Cachorros” e “O Dia dos Bois”. Na primeira, como antecipa o primeiro parágrafo do texto, a vila de Manarairema se depara com estranhos que chegam do nada e não se apresentam nem para conversar. O estranhamento inicial faz contrapartida com o medo que o ser humano tem da mudança, da alteração da rotina, do novo. Mas ainda mais fundo está a analogia e a relação com a ditadura militar em voga no país na época, podendo partir do pressuposto que os novos moradores do local são “gente do governo”, como diz o texto.

Com o medo se espalhando entre os simples moradores, que passam a sofrer pequenas, mas frequentes coerções, a vila de Manarairema sofre drásticos ajustes. Isso só piora quando cães tomam de assalto o local obrigando todos a ficarem ressabiados e com pânico do que poderá vir, ou depois quando são bois que adentram esse espaço e não permitem nem que se saia de casa, precisando ser inventando todo um novo meio de comunicação para que a cidade sobreviva em meio a esses acontecimentos estranhos e tão sem sentido para o povo da pequena vila.

No meio dos diálogos, José J. Veiga insere bom humor e espanto amparado por diversos ditados populares, e também é no meio desses diálogos que amplifica as imagens alegóricas que fazem menção a verdadeira invasão que tomou conta do país naqueles tempos. Ainda que este subtexto (político) passe batido por algum leitor, “A Hora dos Ruminantes” é tão bem construído que funciona (socialmente) considerando as situações somente pelo viés da estranheza e da opressão a que os habitantes de Manarairema são inseridos, possibilidade que se transforma no maior mérito desta grande obra.

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No vídeo abaixo, Antonio Arnoni Prado (responsável pelo prefácio do livro) fala mais sobre a obra do autor. E a Companhia das Letras disponibiliza 37 páginas para leitura aqui.

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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